Um incêndio rural deflagrou na tarde de sexta-feira na localidade de Vila Ruiva, na União das Freguesias de Juncais, Vila Ruiva e Vila Soeiro do Chão, concelho de Fornos de Algodres, distrito da Guarda.

O alerta foi dado às 13h40 e as chamas, que consumiam uma zona de mato junto à Tapada do Galinho, obrigaram a um reforço contínuo do dispositivo de combate ao longo da tarde.

No pico da ocorrência, o fogo mobilizou 354 operacionais, apoiados por 77 veículos e 15 meios aéreos. O presidente da Câmara de Fornos de Algodres, Alexandre Lote, confirmou à Lusa que o combate estava a ser difícil, com as chamas a progredir em direção ao concelho vizinho de Celorico da Beira.

As condições meteorológicas no local não ajudaram: a estação de Mangualde/Chãs de Tavares registava, a meio da tarde, 31,7°C, humidade relativa de apenas 25% e vento de oeste a cerca de 15 km/h, um cenário que a Proteção Civil classifica como de perigo de incêndio elevado.

O incêndio entrou em fase de resolução pelas 17h20, mantendo-se no terreno cerca de 260 a 280 operacionais para trabalhos de consolidação, rescaldo e vigilância, de forma a evitar reacendimentos.

Parte dos meios envolvidos acabou por ser redirecionada para uma segunda ocorrência no mesmo concelho, na localidade de Cortiçô. Até ao momento, não há registo de casas destruídas nem de feridos associados a este incêndio.

Um verão que o ministro já tinha classificado como "terrível"

O episódio de Fornos de Algodres soma-se a um verão que o ministro da Administração Interna, Luís Neves, vinha anunciando desde a Primavera. Em abril, alertou para um "verão terrível", apontando o volume de material combustível acumulado após as tempestades do início do ano como um fator agravante. Em junho, repetiu o aviso a propósito de uma vaga de calor extremo, admitindo a possibilidade de "medidas mais drásticas" caso o perigo de incêndio rural se confirmasse crítico.

Os números já confirmam a intensidade da época. Segundo dados avançados pelo próprio ministro esta semana, a rede SIRESP registou mais de 32 milhões de comunicações só em julho, um mês marcado pelos grandes incêndios de Vouzela, no distrito de Viseu, e de Valpaços, Mirandela e Vila Verde, no norte do país, que mobilizaram, no conjunto, meio milhão de comunicações através do sistema. Portugal chegou mesmo a enviar mais de uma centena de operacionais para apoiar Espanha, confrontada com fogos de grandes dimensões praticamente na mesma altura.

O risco de o aviso substituir a explicação

Este padrão de alertas sucessivos, seguidos quase sempre por grandes incêndios que parecem confirmá-los, já foi objeto de leitura crítica por parte de comentadores que questionam se a antecipação retórica de cenários "terríveis" funciona sobretudo como preparação do país ou como enquadramento explicativo prévio para eventuais falhas de resposta, uma vez concretizado o pior cenário.

É uma distinção que interessa à opinião pública: uma coisa é avisar para mobilizar comportamentos preventivos, outra é construir, com antecedência, a narrativa que absolve a gestão do que possa correr mal no terreno. Nenhuma das duas hipóteses invalida a outra, e ambas podem coexistir no discurso de um mesmo governante, mas apenas a avaliação dos resultados no terreno, quando a época de incêndios terminar, permitirá distinguir qual delas prevaleceu.

Para já, com a situação de alerta em vigor e o risco elevado mantido em grande parte do território continental, o episódio de Fornos de Algodres confirma que o país continua a braços com aquilo que o próprio Governo já tinha prometido que seria um verão difícil.