Há acontecimentos que se repetem todos os anos. E há outros que, apesar de regressarem ciclicamente, nunca parecem ser apenas uma repetição.  A Festa do Avante! pertence claramente à segunda categoria.

Em 2026 celebra-se a 50.ª edição, exatamente meio século depois da primeira Festa, realizada em 1976. Nos dias 4, 5 e 6 de setembro, milhares de pessoas voltarão à Quinta da Atalaia, na Amora, Seixal, para três dias em que política, música, artes, gastronomia, ciência, literatura, desporto e convívio se encontram num espaço difícil de comparar com qualquer outro grande evento realizado em Portugal.

E vale a pena deixar algo claro desde o início: não é necessário ser comunista, nem militante ou simpatizante do PCP, para reconhecer a singularidade da Festa do Avante!

No Estrategizando nunca escondemos a nossa perspetiva. Não somos membros do PCP, não somos comunistas e assumimos uma identidade de esquerda autónoma, crítica e independente. Precisamente por isso, quando afirmamos há anos que esta é, para nós, uma das experiências político-culturais mais extraordinárias do país, fazemo-lo não por fidelidade partidária, mas pelo que encontramos na Atalaia.

Meio século depois, a fórmula continua difícil de copiar

A dimensão da Festa não se explica apenas pelo cartaz musical.

É a combinação de mundos aparentemente improváveis que lhe dá uma identidade própria: pode ouvir-se uma sinfonia de Beethoven e, algumas horas depois, hip-hop, rock, fado ou música africana; assistir a uma peça de teatro, entrar numa sessão de cinema, comprar um livro, participar num debate político ou científico, descobrir gastronomias de várias regiões portuguesas e de outros países e, simplesmente, sentar-se a conversar.

Tudo dentro do mesmo recinto.

Em 2026 essa diversidade volta a estar no centro da programação.

A Festa abre sexta-feira, 4 de setembro, às 18h00, encerrando às 01h30. No sábado funcionará entre as 10h00 e a 01h30 e, no domingo, entre as 10h00 e as 23h00.

E a primeira noite terá um daqueles momentos que ajudam a explicar a natureza particular deste evento.

Às 22h00, no Palco 25 de Abril, será interpretada a 9.ª Sinfonia de Beethoven, num concerto sinfónico apresentado sob o signo da paz e da fraternidade.

Num festival organizado por um partido político, uma das obras mais universais da história da música europeia voltará assim a ecoar perante uma enorme plateia ao ar livre.

De Carolina Deslandes a Bombino, de Ney Matogrosso a José Mário Branco

O cartaz musical confirma novamente uma característica histórica da Festa: a recusa de ficar presa a um género, a uma geração ou a uma geografia.

Entre os nomes oficialmente anunciados encontram-se Carolina Deslandes, Carlão, Ivandro, António Zambujo, Bombino, Yuri da Cunha, Aldina Duarte, Regula, The Black Mamba, 47 Soul, Anarchicks, Irma, Pedro Moutinho e Hélder Moutinho, entre muitos outros.

Mas é talvez nos encontros improváveis que a Festa volta a mostrar aquilo que a diferencia.

Tim apresenta-se acompanhado por Mário Laginha, Pedro Jóia e o Coro Feminino TuttiEncantus. Gabriel Gomesleva convidados à Atalaia, incluindo Rodrigo Leão. Janita Salomé junta-se a Maria João e Ana Bacalhau. E Pedro Jóia convida Ney Matogrosso, numa das colaborações que promete despertar maior curiosidade.

Outro momento particularmente carregado de memória será protagonizado por JP Simões, que levará à Festa o repertório de José Mário Branco, numa homenagem ao compositor, intérprete e autor cuja obra permanece profundamente ligada à história política e cultural portuguesa.

É esta mistura que torna difícil colocar a Festa dentro da categoria convencional de “festival de música”.

Porque não é.

Muito para lá dos palcos

Também o Avanteatro regressa com programação própria.

No sábado está prevista “A Mãe (Die Mutter)”, enquanto no domingo os históricos Bonecos de Santo Aleixoapresentam o Auto da Criação do Mundo. O programa teatral inclui ainda propostas dirigidas às crianças e diferentes linguagens cénicas, das marionetas ao teatro contemporâneo.

O CineAvante! volta igualmente a transformar o cinema numa experiência coletiva ao ar livre, associando as projeções ao encontro e discussão com autores e realizadores.

A isto juntam-se a Festa do Livro, o Espaço Ciência, exposições, artes plásticas, atividades desportivas, iniciativas para crianças, animação de rua, espaços regionais, internacionais e uma gigantesca oferta gastronómica que permite fazer, em poucos metros, uma curiosa viagem pelo país e pelo mundo.

Há ainda política — evidentemente.

Debates sobre trabalho, paz, juventude, direitos, ambiente, ciência, cultura e atualidade nacional e internacional atravessam diferentes espaços. E no domingo, às 18h00, realiza-se o tradicional comício, com intervenção do secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo, acompanhado por Manuel Rodrigues, diretor do Avante!, e Inês Castro, da direção da JCP.

Uma Festa política que é muito maior do que o seu eleitorado

Talvez esteja aqui uma das maiores singularidades da Festa do Avante!.

O PCP tem naturalmente uma presença central. A Festa nasceu do partido, é organizada pelo partido e constitui uma gigantesca expressão da sua cultura política e da capacidade de mobilização dos seus militantes.

Pretender escondê-lo seria absurdo.

Mas reduzi-la a isso seria igualmente incapaz de explicar o fenómeno.

Ao longo de décadas, a Atalaia tornou-se também ponto de encontro de pessoas de diferentes esquerdas, independentes, democratas, sindicalistas, artistas, famílias, jovens e visitantes que podem discordar profundamente do PCP em múltiplas matérias — e regressar no ano seguinte.

Nós somos precisamente um exemplo disso.

Talvez porque exista ali qualquer coisa que se tornou rara: a ideia de que cultura, política e convívio não precisam de viver em compartimentos separados.

Pode discutir-se uma guerra pela manhã, ouvir Beethoven à noite, descobrir um pequeno produtor ao jantar, comprar um livro, encontrar alguém que não se via há vinte anos e terminar o dia perante um palco com milhares de desconhecidos.

Essa experiência não cabe facilmente numa sigla partidária.

50 anos depois: “Não há Festa como esta”?

O lema histórico afirma que “Não há Festa como esta”.

É evidentemente uma frase promocional.

Mas depois de 50 edições torna-se legítimo perguntar quantos acontecimentos portugueses conseguem reunir, durante três dias, tamanha diversidade cultural, política, social e geracional num único espaço.

A nossa resposta continua a ser a mesma.

Podemos discordar do PCP. Podemos contestar posições políticas, decisões e leituras do mundo. Aliás, uma esquerda que abdicasse do pensamento crítico deixaria de nos interessar.

Mas nenhuma dessas divergências nos impede de reconhecer o que está diante dos olhos.

A Festa do Avante! é única.

E em 2026 não será uma edição qualquer.

Será a quinquagésima.

De 4 a 6 de setembro, a Quinta da Atalaia volta a abrir as portas para celebrar meio século de música, cultura, pensamento, política, encontros, discussões, comida, livros e muitas noites que acabam demasiado depressa.

Nós estaremos atentos.

Porque há 50 anos nasceu uma Festa.

E meio século depois, continua extraordinariamente difícil encontrar outra igual.