O primeiro turno das eleições gerais brasileiras realiza-se efetivamente a 4 de outubro, estando um eventual segundo turno marcado para 25 de outubro. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), estão aptos a votar cerca de 158,8 milhões de eleitores.
Questionada por Joffre Justino sobre o ambiente vivido no Brasil, Evonês Santos reconheceu que a disputa ultrapassou, na sua perspetiva, o confronto político interno.
“Não imaginávamos que iríamos viver um processo eleitoral tão conflituoso como o atual”, afirmou, considerando que estas eleições apresentam riscos adicionais precisamente porque, segundo defendeu, existem interesses e influências externas em jogo.
Para a representante do PT, o que vier a acontecer nas urnas terá consequências que ultrapassam as fronteiras brasileiras.
Evonês sublinhou a dimensão política, económica e territorial do Brasil e a influência que o país exerce na América do Sul, considerando que a eleição presidencial brasileira assume, por isso, uma importância estratégica para todo o continente.
Um dos pontos centrais da entrevista foi a preocupação manifestada por Evonês Santos relativamente à atuação dos Estados Unidos e à possibilidade de surgirem tentativas de descredibilização do processo eleitoral brasileiro.
“Não dá para ser ingénuo e achar que o Brasil terá umas eleições disputadas apenas por brasileiros”, afirmou.
A dirigente apontou particularmente para discursos que colocam em causa a segurança das urnas eletrónicas e receou que, depois das eleições, possam surgir contestações externas ou campanhas destinadas a questionar a legitimidade dos resultados.
Estas declarações correspondem à avaliação política da entrevistada e não constituem, por si só, prova de uma interferência eleitoral norte-americana.
O tema surge, contudo, num momento de tensão nas relações entre Brasília e Washington. A Administração Trump e o Governo brasileiro têm mantido divergências comerciais, embora representantes dos dois países tenham retomado, no final de agosto, negociações relacionadas com as tarifas impostas pelos Estados Unidos.
Joffre Justino destacou durante a conversa a postura diplomática assumida por Lula perante questões como a guerra na Ucrânia, o Médio Oriente e as divergências comerciais com os Estados Unidos.
Perguntou então diretamente a Evonês Santos se admitia a possibilidade de Lula perder as eleições.
A resposta foi inequívoca.
“Esse é o único cenário que não passa pela minha cabeça”, afirmou.
Evonês recordou o percurso político do Presidente brasileiro, incluindo os momentos em que esteve preso e afastado da vida eleitoral, para sustentar a convicção de que Lula não recuará perante pressões internacionais.
A confiança da representante do PT surge, no entanto, num contexto eleitoral competitivo. Sondagens recentes continuam a colocar Lula à frente na corrida presidencial, mas apontam para uma redução da distância relativamente ao seu principal adversário, Flávio Bolsonaro, tornando o desfecho das eleições mais disputado.
Outro dos temas abordados foi o papel do BRICS e a possibilidade de o bloco contribuir para reforçar a autonomia estratégica brasileira.
Para Evonês Santos, o desenvolvimento e alargamento do BRICS criaram uma nova realidade internacional que já não poderá ser ignorada.
Na sua leitura, a tentativa de Washington de pressionar economicamente o Brasil está igualmente relacionada com a crescente diversificação das relações económicas e políticas de Brasília e com a procura de novos mercados e parceiros internacionais.
A representante do PT defendeu ainda que as próprias tarifas norte-americanas acabaram por obrigar o Brasil a procurar alternativas comerciais.
Segundo explicou, perante dificuldades colocadas a determinados setores exportadores, o Governo procurou simultaneamente apoiar as empresas afetadas e intensificar negociações com outros mercados.
“Cada vez que há uma tentativa de nos intimidar, há também a abertura de portas para outros mecanismos que o Brasil vem procurando desenvolver”, resumiu.
A entrevista realizada por Joffre Justino na Festa do Avante! deixou evidente a importância que o PT atribui às eleições de outubro.
Para Evonês Santos, o confronto eleitoral não decidirá apenas quem ocupará o Palácio do Planalto nos próximos quatro anos. Estará também em causa a orientação geopolítica do Brasil, a sua relação com os Estados Unidos, a participação no BRICS e a capacidade do país para preservar aquilo que considera ser a sua autonomia estratégica.
Do lado de Evonês não existem dúvidas quanto ao resultado desejado: acredita na reeleição de Lula.
Mas a mensagem deixada na conversa com o Estrategizando foi igualmente de alerta.
Para a representante petista, até ao dia 4 de outubro, e eventualmente até ao segundo turno de 25 de outubro, o Brasil deverá preparar-se para uma disputa intensa, marcada não apenas pela tradicional confrontação entre esquerda e direita, mas também por interesses económicos e geopolíticos que ultrapassam largamente as fronteiras do país.
Será nas urnas que os quase 159 milhões de eleitores brasileiros terão a palavra final.