A União Europeia prepara novas regras destinadas a facilitar a intervenção das cidades e dos governos sobre o alojamento de curta duração, incluindo plataformas como Airbnb, sempre que exista uma situação comprovada de pressão no mercado habitacional.

A iniciativa integra o futuro Affordable Housing Act, que a Comissão Europeia prepara para apresentar formalmente e que pretende criar instrumentos comuns para identificar zonas onde o acesso à habitação se encontra particularmente pressionado.

De acordo com um projeto da proposta divulgado pela Reuters e pela Euractiv, as novas regras poderão permitir às autoridades locais impor restrições ao uso de imóveis para alojamentos de curta duração quando consigam demonstrar que esta atividade está a contribuir para reduzir a oferta de casas destinadas à residência permanente ou para pressionar rendas e preços de aquisição.

Habitação transforma-se numa questão europeia

Durante muitos anos, a política de habitação permaneceu essencialmente nas mãos dos governos nacionais e das autoridades locais.

Mas a dimensão da atual crise habitacional levou Bruxelas a assumir um papel mais ativo.

A própria Comissão Europeia reconhece que pretende apoiar Estados-membros, regiões e municípios na identificação de “áreas sob pressão habitacional”, permitindo a adoção de medidas proporcionais destinadas a proteger a acessibilidade da habitação.

O objetivo não será criar uma proibição generalizada do alojamento local em toda a União Europeia.

A filosofia da proposta passa, antes, por fornecer um enquadramento jurídico comum que permita às autoridades atuar quando existam dados objetivos que demonstrem uma deterioração das condições de acesso à habitação.

Entre os indicadores que poderão ser considerados encontram-se a relação entre o preço das casas e o rendimento das famílias, a evolução da população e a relação entre procura e oferta habitacional.

Airbnb e alojamento local no centro do debate

O crescimento das plataformas de alojamento turístico de curta duração transformou profundamente várias cidades europeias.

Paris, Barcelona, Veneza e outras grandes zonas turísticas têm procurado limitar este tipo de atividade, argumentando que a conversão de habitações permanentes em alojamentos turísticos pode contribuir para reduzir a oferta disponível aos residentes.

Segundo dados referidos pela Euractiv com base na Comissão Europeia, a atividade de alojamento de curta duração terá aumentado 93% entre 2018 e 2024.

É precisamente esta tensão entre turismo, propriedade privada e direito à habitação que Bruxelas tenta agora enquadrar.

A proposta distingue igualmente, segundo o projeto conhecido, o arrendamento ocasional da residência principal de situações em que imóveis são retirados de forma mais permanente do mercado habitacional para exploração turística.

Cidades terão de provar que existe pressão habitacional

Um dos aspetos mais relevantes da proposta é precisamente evitar restrições indiscriminadas.

As autoridades que pretendam limitar os alojamentos de curta duração terão de fundamentar a existência de pressão no mercado e demonstrar a relação entre essa atividade e a disponibilidade ou preço da habitação.

De acordo com a versão preliminar divulgada, poderão ser consideradas medidas como limites quantitativos ou restrições específicas em determinadas zonas, desde que sejam proporcionais, não discriminatórias e justificadas pelo interesse público.

Isto significa que Bruxelas não pretende simplesmente proibir plataformas como Airbnb.

Pretende, antes, criar condições jurídicas para que cidades e governos possam intervir de forma mais segura quando considerem que o equilíbrio entre turismo e habitação foi ultrapassado.

Plataformas contestam novas restrições

A indústria já começou a manifestar reservas.

A Computer & Communications Industry Association Europe (CCIA), que representa empresas tecnológicas e inclui a Airbnb entre os seus membros, alertou a Comissão Europeia para o risco de adoção de medidas consideradas excessivamente restritivas.

O setor argumenta que novas limitações podem penalizar proprietários que dependem destes rendimentos e afetar economias locais fortemente dependentes do turismo.

O confronto político e económico promete, por isso, ser intenso.

De um lado estão cidades e movimentos que reclamam mais habitação para residentes.

Do outro encontram-se proprietários, plataformas digitais e setores ligados ao turismo, que defendem a importância económica do alojamento de curta duração.

Bruxelas reconhece que limitar alojamento local não resolve tudo

Há, contudo, um ponto importante na própria abordagem europeia: reduzir o alojamento turístico não resolverá, por si só, a crise da habitação.

A Comissão reconhece que o problema exige igualmente aumento da construção, recuperação de imóveis devolutos, maior oferta de habitação social e simplificação dos processos de planeamento e licenciamento.

A futura legislação procura, portanto, atacar simultaneamente diferentes fatores de um problema que se tornou estrutural em muitas cidades europeias.

Uma mudança importante na política europeia

A questão ultrapassa largamente o Airbnb.

O que está verdadeiramente em discussão é até onde podem ir os poderes públicos para proteger o acesso à habitação quando este entra em conflito com interesses económicos, turísticos e patrimoniais.

Caso avance nos moldes conhecidos, o Affordable Housing Act poderá representar uma mudança significativa na forma como a Europa enfrenta a crise habitacional.

Bruxelas deixa de olhar para a habitação exclusivamente como um problema nacional ou municipal e começa a construir instrumentos comuns para enfrentar um fenómeno que atravessa praticamente todo o continente.

Mas o processo está ainda longe de concluído.

A proposta terá de ser formalmente apresentada e posteriormente negociada entre as instituições europeias e os Estados-membros antes de poder transformar-se em legislação aplicável.

A batalha europeia entre o direito a explorar economicamente uma propriedade e a necessidade de garantir casas acessíveis para quem vive nas cidades está, portanto, apenas a começar.