A Europa atravessa, neste início de agosto, uma das temporadas de fogo mais severas dos últimos anos — e os números começam a parecer-se, perigosamente, com os de 2025.

Segundo dados do Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais (EFFIS), a área ardida no continente já se aproxima do total registado no ano passado, com destaque para focos em países como Chipre e Roménia, além do habitual epicentro ibérico.

« Um verão que começou cedo demais »

Não é imaginação de quem sofre com o calor: uma análise conjunta da Reuters e do Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia confirma que o início precoce das ondas de calor está a alongar artificialmente a época de incêndios no sul da Europa. O resultado é uma janela de risco mais longa e mais fogos com potencial para se tornarem incontroláveis.

França e Espanha combatem há mais de uma semana grandes incêndios. Segundo Maria Zuber, responsável pelo Centro de Coordenação de Resposta a Emergências da União Europeia, citada pela Reuters, o problema não vai ficar contido a esses dois países: Itália e, sobretudo, a Grécia , poupada até agora,  deverão ser os próximos a entrar na já longa fila do fogo europeu.

A conta que ninguém queria pagar

Por trás das imagens de encostas carbonizadas há uma contabilidade menos visível, mas igualmente devastadora. De acordo com estimativas de meios britânicos, que seguem a metodologia da própria Comissão Europeia, os incêndios e a seca já provocaram mais de 3 mil milhões de euros em prejuízos este ano, apenas nos primeiros dois meses da época de fogos — com quase meio milhão de hectares ardidos nos cinco países da zona euro mais afetados: Portugal, Espanha, Itália, Grécia e Roménia.

Este valor, importa sublinhar, é uma estimativa de terceiros com base em critérios da Comissão e não uma cifra oficial de Bruxelas. Mas a ordem de grandeza, por si só, já é uma declaração política: os seguros agrícolas e residenciais nas regiões mais expostas enfrentam pressão crescente, o turismo perde receita em plena época alta, e os cofres públicos absorvem custos de combate e de reconstrução que se acumulam ano após ano.

Uma UE que aprende a apagar fogos  e a evitá-los

A Comissão Europeia já ativou mecanismos de emergência para mobilizar recursos entre Estados-membros, um sinal de que a resposta coletiva ao fogo se tornou parte da gramática institucional europeia, tanto quanto a resposta a crises económicas ou migratórias. A pergunta que fica por responder é se essa gramática vai além da reação: se a Europa está, de facto, a construir política florestal, ordenamento do território e gestão da água à altura da nova estação de fogo que se instalou  ou se continuará, verão após verão, a apagar o mesmo incêndio com nomes de países diferentes.

Porque o clima já não avisa. E a Europa, esse continente que se pensou sempre protegido pelo seu próprio clima temperado, aprende agora, hectare a hectare, que a exceção se tornou regra.