Não é imaginação de quem sofre com o calor: uma análise conjunta da Reuters e do Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia confirma que o início precoce das ondas de calor está a alongar artificialmente a época de incêndios no sul da Europa. O resultado é uma janela de risco mais longa e mais fogos com potencial para se tornarem incontroláveis.
França e Espanha combatem há mais de uma semana grandes incêndios. Segundo Maria Zuber, responsável pelo Centro de Coordenação de Resposta a Emergências da União Europeia, citada pela Reuters, o problema não vai ficar contido a esses dois países: Itália e, sobretudo, a Grécia , poupada até agora, deverão ser os próximos a entrar na já longa fila do fogo europeu.
Por trás das imagens de encostas carbonizadas há uma contabilidade menos visível, mas igualmente devastadora. De acordo com estimativas de meios britânicos, que seguem a metodologia da própria Comissão Europeia, os incêndios e a seca já provocaram mais de 3 mil milhões de euros em prejuízos este ano, apenas nos primeiros dois meses da época de fogos — com quase meio milhão de hectares ardidos nos cinco países da zona euro mais afetados: Portugal, Espanha, Itália, Grécia e Roménia.
Este valor, importa sublinhar, é uma estimativa de terceiros com base em critérios da Comissão e não uma cifra oficial de Bruxelas. Mas a ordem de grandeza, por si só, já é uma declaração política: os seguros agrícolas e residenciais nas regiões mais expostas enfrentam pressão crescente, o turismo perde receita em plena época alta, e os cofres públicos absorvem custos de combate e de reconstrução que se acumulam ano após ano.
A Comissão Europeia já ativou mecanismos de emergência para mobilizar recursos entre Estados-membros, um sinal de que a resposta coletiva ao fogo se tornou parte da gramática institucional europeia, tanto quanto a resposta a crises económicas ou migratórias. A pergunta que fica por responder é se essa gramática vai além da reação: se a Europa está, de facto, a construir política florestal, ordenamento do território e gestão da água à altura da nova estação de fogo que se instalou ou se continuará, verão após verão, a apagar o mesmo incêndio com nomes de países diferentes.
Porque o clima já não avisa. E a Europa, esse continente que se pensou sempre protegido pelo seu próprio clima temperado, aprende agora, hectare a hectare, que a exceção se tornou regra.