Na abertura do ano académico 2026-2027, o ministro da Educação, Arnaldo Brito, apelou a uma universidade capaz de produzir conhecimento próprio, investigar os problemas nacionais e formar profissionais preparados para transformar a realidade do arquipélago.

A nova reitora, Astrigilda Silveira, quer uma Uni-CV que chegue a todas as ilhas e cuja investigação produza resultados concretos na vida dos cabo-verdianos.

Cinquenta anos depois da independência, Cabo Verde continua confrontado com uma questão que ultrapassa largamente o número de estudantes que entram nas universidades ou os diplomas que estas conseguem atribuir: que ensino superior estamos a construir e até que ponto o conhecimento produzido nas nossas instituições contribui verdadeiramente para o desenvolvimento do país?

Foi precisamente esta preocupação que atravessou os discursos proferidos na abertura do ano académico 2026-2027 da Universidade de Cabo Verde (Uni-CV).

O Governo anunciou um reforço orçamental de cerca de 400 mil contos, elevando a dotação da universidade de 1,1 para 1,5 milhões de contos. Um aumento considerável, que deverá permitir melhorar as condições de funcionamento da instituição, reforçar as suas capacidades e sustentar uma nova etapa de desenvolvimento do ensino superior público.

O ministro da Educação, Arnaldo Brito, apresentou esta decisão como parte de um conjunto de medidas que, segundo afirmou, devem traduzir-se em melhorias efetivas para a universidade e para toda a comunidade académica.

Contudo, há uma questão financeira que permanece por esclarecer.

O discurso não especificou o custo da gratuitidade das propinas, medida que o Estado assume este ano na Uni-CV e na Universidade Técnica do Atlântico (UTA), nem esclareceu que parcela do reforço orçamental se destina a suportar essa responsabilidade.

A gratuitidade, apresentada como concretização de uma promessa eleitoral, foi defendida pelo ministro como um investimento no capital humano e uma forma de proporcionar maior previsibilidade às receitas das instituições públicas, procurando igualmente contrariar a tendência de diminuição do número de estudantes.

É uma decisão com evidente significado social. Mas a sua sustentabilidade financeira, a qualidade do ensino e a capacidade de resposta das universidades terão de ser avaliadas para além do anúncio político.

O próprio ministro reconheceu que o objetivo não pode resumir-se ao crescimento das matrículas.

"Não queremos apenas mais estudantes matriculados. Queremos mais estudantes a aprender, a concluir os seus cursos e a entrar na vida profissional com competências sólidas para servir o país", afirmou.

Cabo Verde não pode continuar a depender exclusivamente do conhecimento produzido no exterior

Este terá sido um dos aspetos mais relevantes da intervenção de Arnaldo Brito.

Num país historicamente condicionado pela insularidade, pela dimensão reduzida do mercado interno, pela dependência económica do exterior e por limitações na sua capacidade produtiva, a universidade deverá assumir uma responsabilidade que ultrapassa a formação académica convencional.

Cabo Verde necessita de investigadores, técnicos e profissionais capazes de estudar os problemas nacionais, compreender as suas especificidades e desenvolver soluções adequadas à realidade económica, social, ambiental e cultural do arquipélago.

"Cabo Verde não pode limitar-se a consumir conhecimentos produzidos no exterior. Precisamos também de produzir conhecimentos próprios, enraizados na nossa realidade e capazes de responder às nossas necessidades", declarou o ministro.

A afirmação merece particular atenção.

Durante décadas, uma parte importante da formação superior dos cabo-verdianos esteve associada a instituições estrangeiras.

Essa relação continua a ser valiosa, tanto pelo acesso ao conhecimento científico internacional como pelas oportunidades de cooperação académica.

Mas o desenvolvimento de um país exige também capacidade autónoma para investigar, questionar, experimentar e produzir respostas aos seus problemas.

Os desafios da agricultura em condições de escassez hídrica, a gestão dos recursos marinhos, as energias renováveis, a saúde pública, a justiça, a administração pública e o desenvolvimento sustentável das ilhas são exemplos de áreas em que o conhecimento científico pode ter consequências práticas importantes.

A investigação universitária deverá, por isso, aproximar-se das necessidades das empresas, das autarquias, das instituições públicas e das comunidades.

Arnaldo Brito defendeu maior investimento na investigação aplicada, na inovação e na transferência de conhecimento, apelando a uma cooperação mais efetiva entre a academia e os diferentes setores da sociedade.

A intenção parece clara: transformar a Uni-CV numa instituição mais interveniente na construção das políticas públicas e no desenvolvimento económico e social.

Resta saber que instrumentos serão criados para concretizar essa ambição, com que recursos e através de que mecanismos de acompanhamento e avaliação.

Porque produzir conhecimento implica também garantir condições para investigar, laboratórios adequados, financiamento competitivo, docentes qualificados e oportunidades para que os resultados da investigação sejam efetivamente utilizados.

Menos aulas expositivas, mais pensamento crítico e contacto com a realidade

Outra das questões centrais do discurso foi a necessidade de transformar as práticas pedagógicas.

E aqui o ministro entrou num terreno particularmente sensível, mas incontornável, para o futuro do ensino superior.

"Não podemos continuar a organizar todo o processo educativo em torno da exposição do professor, da transmissão de conteúdos, da memorização e da reprodução de conhecimentos nas provas", afirmou.

A crítica dirige-se a um modelo de ensino ainda presente em muitas instituições, no qual o estudante assume frequentemente uma posição passiva, sendo avaliado sobretudo pela capacidade de reproduzir conteúdos transmitidos pelo docente.

Arnaldo Brito defende uma aprendizagem mais participativa, centrada no desenvolvimento da autonomia intelectual, do pensamento crítico, da criatividade e da capacidade de resolver problemas.

Para isso, apelou aos professores para que trabalhem de forma colaborativa e aproximem os estudantes dos laboratórios, das empresas, dos serviços públicos e das comunidades.

Esta orientação acompanha uma discussão pedagógica internacional sobre a necessidade de proporcionar experiências de aprendizagem mais ativas e contextualizadas.

Mas a mudança não será conseguida apenas substituindo aulas teóricas por atividades práticas.

Uma formação universitária de qualidade exige articulação entre fundamentos científicos, reflexão conceptual, investigação e aplicação do conhecimento.

O trabalho laboratorial, os projetos com empresas, a aprendizagem baseada em problemas e a investigação desenvolvida pelos próprios estudantes podem contribuir para essa transformação, desde que sejam integrados em modelos pedagógicos consistentes.

Também os docentes precisarão de condições e oportunidades de desenvolvimento profissional para adaptar metodologias, redesenhar processos de avaliação e acompanhar os estudantes de forma mais individualizada.

A transformação pedagógica exige investimento, preparação e continuidade.

Aos estudantes, o ministro deixou uma mensagem de exigência e confiança:

"O país acredita em vocês."

Pediu-lhes que estudem, questionem, debatam e investiguem, recordando que o desenvolvimento nacional depende igualmente do compromisso das novas gerações.

Uma universidade que pertence a todas as ilhas

Na sua primeira cerimónia de abertura do ano académico enquanto reitora, Astrigilda Silveira trouxe ao debate outra dimensão fundamental: a responsabilidade territorial e social da universidade pública.

"A Uni-CV tem de ser de Cabo Verde inteiro, não apenas de quem consegue chegar a um campus", afirmou.

A frase ganha particular significado num arquipélago onde a dispersão geográfica continua a condicionar o acesso às oportunidades educativas, aos serviços especializados e aos recursos científicos.

Uma universidade verdadeiramente nacional não poderá medir o seu alcance apenas pelo número de estudantes presentes nas instalações académicas.

Terá de desenvolver formas de aproximação às diferentes ilhas, estabelecer parcerias locais, promover a circulação do conhecimento e criar oportunidades de participação para comunidades que permanecem fisicamente distantes dos principais centros universitários.

Astrigilda Silveira recordou os 20 anos da Uni-CV, homenageando as diferentes gerações que participaram na construção da instituição.

"A universidade não pertence a uma só geração. Constrói-se com muitas gerações e está sempre por concluir", declarou.

A reitora defendeu uma instituição aberta, plural e comprometida com as necessidades da sociedade cabo-verdiana.

Na sua perspetiva, a investigação não deve terminar na publicação de artigos científicos ou na elaboração de relatórios destinados a permanecer nas bibliotecas e nos arquivos universitários.

O conhecimento produzido precisa de alcançar as pessoas.

"A universidade não chega a todas as pessoas por via de uma matrícula, mas o conhecimento que produz tem o dever de chegar a todas", sublinhou.

Esta visão implica reforçar a presença da Uni-CV nas escolas, nos municípios, nas empresas, nas organizações sociais e junto da diáspora cabo-verdiana, reconhecendo que o desenvolvimento do país resulta também da capacidade de mobilizar o conhecimento existente dentro e fora das instituições académicas.

Astrigilda Silveira assumiu ainda compromissos relacionados com a valorização dos docentes, investigadores e trabalhadores não docentes, o apoio aos estudantes, a qualidade da investigação e uma governação universitária assente na transparência e na participação.

Aos novos estudantes deixou um desafio:

"Não se limitem a frequentar a universidade. Construam-na. Perguntem. Participem."

E acrescentou:

"Façam da Uni-CV a vossa casa, a nossa casa comum."

O desafio de transformar investimento público em desenvolvimento nacional

O reforço orçamental anunciado representa uma oportunidade importante para a Universidade de Cabo Verde.

Mas seria precipitado confundir o aumento do financiamento com uma transformação efetiva do ensino superior.

As intenções apresentadas pelo ministro e pela reitora apontam para questões estruturais que exigem continuidade institucional e capacidade de execução.

A gratuitidade das propinas poderá contribuir para democratizar o acesso, mas não elimina necessariamente os obstáculos económicos que os estudantes enfrentam, sobretudo quando precisam de se deslocar entre ilhas, pagar alojamento, alimentação e transportes.

O aumento do número de matrículas também não garante, por si só, maior sucesso académico.

Será necessário acompanhar as taxas de conclusão dos cursos, o abandono universitário, a empregabilidade dos diplomados e a adequação da formação às necessidades efetivas do país.

Também a investigação aplicada deverá ser avaliada pelo seu contributo científico e pela capacidade de gerar conhecimento útil, políticas mais eficazes, inovação e soluções que melhorem as condições de vida das populações.

Cabo Verde enfrenta ainda um desafio particularmente exigente: criar oportunidades profissionais que permitam aproveitar o talento dos jovens que forma.

Uma universidade poderá preparar excelentes profissionais, mas o desenvolvimento nacional depende igualmente da existência de um tecido económico capaz de os integrar, valorizar as suas competências e proporcionar condições de progressão profissional.

A articulação entre o sistema educativo, as empresas, o investimento público e a estratégia de desenvolvimento económico será decisiva.

Cinquenta anos depois da independência, o país alcançou avanços importantes na educação e na formação das suas populações.

Agora, o debate coloca-se num patamar diferente.

Será necessário perceber até que ponto o ensino superior poderá contribuir para reduzir a dependência externa, desenvolver capacidade científica nacional e criar novas oportunidades de desenvolvimento económico e social.

Os discursos de Arnaldo Brito e Astrigilda Silveira revelam uma convergência de intenções que merece ser acompanhada.

O ministro quer uma universidade que produza conhecimento e contribua para resolver os problemas nacionais. A reitora defende uma instituição que pertença a todas as ilhas e coloque esse conhecimento ao serviço das comunidades.

São ambições que se complementam.

O verdadeiro teste surgirá nos próximos anos, quando for possível avaliar se o reforço financeiro, as mudanças pedagógicas e a reorganização das prioridades académicas produziram resultados concretos.

Cabo Verde precisa de formar mais e melhor. Mas precisa, sobretudo, de criar condições para que o conhecimento dos seus cidadãos encontre espaço de aplicação e reconhecimento no próprio país.

E esse será, provavelmente, um dos maiores desafios da Universidade de Cabo Verde nesta nova etapa da sua história.

Fonte de referência: Expresso das Ilhas. Texto desenvolvido e adaptado editorialmente a partir da notícia sobre a abertura do ano académico 2026-2027 da Universidade de Cabo Verde.