O resultado coloca o país no penúltimo lugar entre os 37 mercados analisados no estudo internacional, ficando apenas a Bulgária numa posição mais desfavorável.
Os dados mostram que os atrasos não constituem uma situação pontual ou limitada a determinados setores. Pelo contrário, atravessam praticamente todo o tecido empresarial português e revelam uma cultura de pagamento que continua muito distante da média europeia.
De acordo com o estudo, 65,2% das empresas pagam com um atraso até 30 dias, 9% demoram entre 30 e 90 dias a liquidar as suas obrigações e 5,6% ultrapassam os três meses de atraso.
Isto significa que aproximadamente quatro em cada cinco empresas portuguesas não cumprem os prazos previamente acordados com os seus fornecedores.
A situação tornou-se particularmente evidente quando comparada com a evolução registada no conjunto da União Europeia.
Após a transposição da Diretiva Europeia relativa aos atrasos de pagamento, em 2013, a percentagem de empresas europeias que cumprem os prazos aumentou progressivamente, atingindo 52% no final de 2025.
A diferença em relação a Portugal aproxima-se, assim, dos 32 pontos percentuais — o maior afastamento registado desde que este indicador começou a ser acompanhado.
Esta divergência mostra que a existência de regras comuns não foi suficiente para uniformizar os comportamentos empresariais. Enquanto uma parte significativa das empresas europeias melhorou as suas práticas de pagamento, Portugal permaneceu num patamar muito inferior.
O atraso nos pagamentos não representa apenas um problema administrativo. Quando uma empresa recebe mais tarde do que o previsto, pode enfrentar dificuldades para pagar salários, impostos, matérias-primas, rendas, prestações bancárias e os seus próprios fornecedores.
Cria-se, desta forma, um efeito em cadeia: uma empresa que recebe tarde pode, por falta de liquidez, atrasar também os pagamentos que lhe competem. As empresas mais pequenas, com menor capacidade financeira e menor poder negocial, tendem a ser particularmente vulneráveis a este fenómeno.
A dimensão das organizações também influencia o comportamento dos pagamentos. As grandes empresas são as que menos respeitam os prazos acordados: apenas 4% pagam dentro do período estabelecido.
A percentagem de empresas cumpridoras aumenta à medida que diminui a dimensão das organizações, sugerindo que as entidades com maior capacidade financeira e poder negocial nem sempre são as mais pontuais.
Contudo, o relatório assinala uma aparente contradição. Apesar de pagarem frequentemente depois do prazo, as grandes empresas apresentam uma menor incidência de atrasos superiores a 90 dias.
O seu comportamento tende, portanto, a ser mais previsível: pagam tarde, mas raramente entram em situações de incumprimento prolongado. Para os fornecedores, isso pode significar um risco menor de perda definitiva, embora continue a obrigá-los a financiar, na prática, os seus clientes durante o período de atraso.
As diferenças são também visíveis entre os vários setores de atividade.
O comércio grossista apresenta o menor atraso médio, ainda assim situado nos 19 dias. No extremo oposto encontra-se o alojamento e restauração, com um atraso médio de 30 dias.
Este é igualmente o setor com menor percentagem de empresas cumpridoras: apenas 11% pagam aos fornecedores dentro do prazo acordado.
A sazonalidade da atividade, as oscilações da procura, os custos operacionais elevados e a dependência da tesouraria corrente poderão contribuir para este comportamento. No entanto, o estudo mede os atrasos e não permite, por si só, determinar as causas concretas de cada incumprimento.
Mais preocupante é o crescimento do número de empresas com possibilidade de registarem atrasos graves.
Segundo o indicador de Risco Delinquency da Informa D&B, aproximadamente 66 mil empresas apresentam um risco médio-alto ou elevado de atrasarem pagamentos em mais de 90 dias a pelo menos um dos seus credores durante os próximos 12 meses.
Este universo corresponde a cerca de 12% do tecido empresarial analisado e aumentou consideravelmente no espaço de um ano. No período anterior, estavam identificadas aproximadamente 43 mil empresas nesta situação.
O crescimento de 43 mil para 66 mil representa mais 23 mil empresas expostas ao risco de atrasos prolongados, constituindo um sinal de deterioração que poderá afetar fornecedores, credores e cadeias inteiras de atividade económica.
O estudo abrange as empresas que se encontravam ativas em 5 de maio de 2026 e possuíam informação disponível sobre o seu comportamento de pagamentos.
A análise utiliza o Paydex, indicador estatístico desenvolvido pela Dun & Bradstreet para calcular o número médio de dias que uma empresa demora a pagar para além dos prazos acordados com os fornecedores.
Os números confirmam que os atrasos nos pagamentos continuam a constituir um problema estrutural da economia portuguesa. Mais do que uma questão de pontualidade, estão em causa a confiança entre empresas, a estabilidade das cadeias de fornecimento e a sobrevivência financeira das organizações mais vulneráveis.
Quando apenas duas em cada dez empresas pagam dentro do prazo, o atraso deixa de representar uma exceção e passa a integrar o próprio funcionamento do mercado. Essa normalização transfere custos para os fornecedores, penaliza sobretudo as pequenas empresas e enfraquece a qualidade das relações comerciais.
A melhoria deste cenário dependerá não apenas da legislação, mas também de mecanismos de fiscalização eficazes, maior transparência sobre os prazos médios de pagamento e uma mudança de comportamento das empresas com maior poder económico.
Fontes: estudo da Informa D&B e Dinheiro Vivo.