Até sexta-feira, 7 de agosto, as autoridades congolesas tinham registado 4.209 casos confirmados e 1.916 mortes. As infeções estavam distribuídas pelas províncias de Ituri, Kivu do Norte, Kivu do Sul, Haut-Uele e Tshopo, embora Ituri permaneça como o principal foco da epidemia. Os números constam também da atualização epidemiológica dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, baseada em dados oficiais.
Este é o 17.º surto de Ébola registado na RDCongo desde que o vírus foi identificado no país, em 1976. Tornou-se já o maior da história congolesa e o segundo maior a nível mundial, ficando apenas atrás da epidemia que atingiu a África Ocidental entre 2014 e 2016.
O diretor regional da OMS para África, Mohamed Yakub Janabi, falou aos jornalistas na segunda-feira, 10 de agosto, depois de visitar Bunia, capital da província de Ituri e epicentro da atual crise sanitária.
A mensagem foi direta: “Estamos a perseguir o vírus. O vírus está à nossa frente.”
Os estudos de sequenciamento genético indicam que o vírus Bundibugyo já estaria a circular em meados de fevereiro, cerca de três meses antes de o surto ter sido oficialmente declarado pelas autoridades congolesas, em 15 de maio.
Segundo Janabi, algumas das primeiras infeções terão sido confundidas com malária ou febre tifoide. Os sintomas iniciais são pouco específicos e podem incluir febre, fadiga, dores musculares, vómitos e diarreia, tornando difícil o diagnóstico sem confirmação laboratorial.
A utilização inicial de testes dirigidos a outras espécies do vírus Ébola também terá contribuído para atrasar a identificação do Bundibugyo. Quando o surto foi reconhecido, existiam já cadeias de transmissão instaladas em várias comunidades. A circulação desde fevereiro foi confirmada durante a conferência de imprensa da OMS em Bunia, noticiada pela Associated Press.
Passados quase três meses desde a declaração oficial, a OMS estima que as equipas estejam a alcançar ou a identificar apenas cerca de 30% da verdadeira dimensão da epidemia. Para Janabi, quando a resposta consegue observar apenas um terço do problema, é necessário interromper, rever a abordagem e perguntar o que deve ser feito de forma diferente.
Entre 60% e 70% das mortes estão a ocorrer nas comunidades, sobretudo nas residências, antes de os doentes chegarem a uma unidade especializada. Este é um dos sinais mais graves das falhas existentes na resposta.
Muitas localidades fora de Bunia não dispõem de serviços básicos capazes de reconhecer, isolar e tratar os casos suspeitos. Os doentes são obrigados a percorrer longas distâncias e chegam aos centros de tratamento já numa fase avançada da doença, quando as possibilidades de intervenção são menores.
As mortes em casa aumentam também o risco de transmissão. Familiares, vizinhos e outros cuidadores podem entrar em contacto direto com fluidos corporais sem disporem de proteção adequada. O perigo prolonga-se durante o transporte e na preparação dos corpos para as cerimónias fúnebres.
A OMS quer, por isso, descentralizar o atendimento e criar centros de tratamento fora de Bunia, mais próximos das populações afetadas. A proposta inclui 400 camas adicionais exclusivamente destinadas a doentes com Ébola e outras 100 para os restantes cuidados de saúde, evitando que a resposta à epidemia paralise o tratamento de outras doenças.
O setor dos transportes foi identificado como um dos pontos vulneráveis. Segundo os dados apresentados pela liderança regional da OMS, cerca de metade das mortes registadas apresenta ligações a redes e associações de transporte.
Muitos condutores levam pessoas doentes para as suas residências, por desconhecimento dos sintomas ou por falta de orientações claras, em vez de as encaminharem diretamente para centros preparados para receber casos suspeitos.
A nova estratégia prevê a formação de motoristas e operadores de transporte, para que saibam reconhecer sinais de alerta, contactar as autoridades sanitárias e conduzir os passageiros aos locais adequados. As estações de autocarros, os mercados e os estabelecimentos comerciais deverão igualmente participar na instalação de pontos de lavagem das mãos com água e sabão.
Os meios de comunicação social terão também de assumir uma participação mais ativa. Explicar os sintomas, indicar onde procurar ajuda e combater informações falsas pode determinar se um doente chega a tempo a um centro de tratamento ou permanece em casa, expondo familiares e vizinhos.
Um grupo técnico consultivo da OMS recomendou que a vacina Ervebo seja incluída prioritariamente num ensaio clínico de fase 3 durante o atual surto.
A Ervebo foi desenvolvida e licenciada para a doença provocada pelo vírus Ébola da espécie Zaire, não para o vírus Bundibugyo. Não existe, neste momento, uma vacina aprovada especificamente para a doença causada pelo Bundibugyo.
Anne Ancia, representante da OMS na RDCongo, e Marie-Roseline Belizaire, responsável regional pela resposta a emergências, referiram que profissionais de saúde vacinados com Ervebo durante o surto de 2018–2020 e posteriormente infetados pelo Bundibugyo terão apresentado sintomas menos graves e uma maior taxa de sobrevivência.
Estas observações sugerem uma possível proteção cruzada, mas não permitem concluir que a vacina seja eficaz contra o Bundibugyo. Essa hipótese terá de ser testada através de um estudo clínico controlado. A recomendação oficial da OMS, publicada em 7 de agosto, determina precisamente que a Ervebo seja avaliada num ensaio de fase 3, sem necessidade de uma fase 2 prévia.
A OMS considera que as próximas oito a 12 semanas serão determinantes. A contenção dependerá da capacidade de detetar os casos mais cedo, aproximar o tratamento das comunidades, envolver transportadores, comerciantes, líderes locais e meios de comunicação, e restabelecer a confiança entre as populações e as equipas sanitárias.
Sem essa mudança, as autoridades continuarão a perseguir uma epidemia que já começou com três meses de avanço.