Há objectos que sobrevivem ao tempo e há outros que sobrevivem também às ideias que fazemos do passado.

O Cálice de São Geraldo, conservado no Tesouro-Museu da Sé de Braga, pertence a esta segunda categoria, porque basta imaginar os séculos que atravessou para percebermos que estamos perante muito mais do que uma peça antiga de ourivesaria.

Antes de Portugal ser um reino independente, antes de D. Afonso Henriques entrar para a História como o primeiro rei português e antes de a actual catedral de Braga adquirir a sua forma românica, já este cálice existia, transportando consigo uma história que começaria num contexto muito diferente daquele que hoje associamos à sua função religiosa.

A sua história remonta aos primeiros anos do século XI, quando o território que viria a constituir Portugal fazia parte de uma realidade política marcada pela autoridade dos condes, pelas relações de vassalagem e pelas disputas entre os poderes cristãos da Península Ibérica. Foi nesse mundo que D. Mendo Gonçalves e a sua mulher, D. Toda, figuras da aristocracia condal portucalense, ficaram associados à encomenda desta peça, cuja inscrição permite conservar os seus nomes muito para além da época em que viveram. A cronologia habitualmente apresentada situa o cálice entre 1004 e 1008, embora as classificações patrimoniais também o enquadrem, de forma mais ampla, nos séculos X e XI. Estamos, portanto, perante um objecto anterior à fundação do reino português, tradicionalmente associada a 1143, e que nos permite entrar num mundo em que as estruturas políticas, sociais e culturais do futuro Portugal estavam ainda em formação.

É precisamente aqui que começa a parte mais curiosa desta história. Quando pensamos num cálice, imaginamo-lo quase sempre nas mãos de um sacerdote, contendo o vinho consagrado durante a missa, no momento em que a liturgia católica celebra a Eucaristia. Porém, nem todos os objectos que hoje associamos ao culto cristão nasceram necessariamente com essa finalidade, e a história do Cálice de São Geraldo é frequentemente apresentada como um exemplo dessa transformação. Segundo a tradição divulgada pela RTP, a peça terá sido encomendada para beber vinho às refeições, antes de ficar associada ao património religioso da Sé de Braga. A interpretação da sua utilização original deve, contudo, ser tratada com prudência, porque a história material de um objecto nem sempre permite reconstituir todos os momentos da sua vida com absoluta certeza.

A ideia permanece fascinante. Um cálice associado à mesa de uma família aristocrática medieval acabaria por integrar um universo de culto, devoção e memória religiosa, atravessando uma transformação que nos obriga a olhar para a Idade Média de outra maneira. Não devemos imaginar uma passagem necessariamente imediata entre a mesa e o altar, como se conhecêssemos todos os episódios intermédios, mas é precisamente a capacidade de sobreviver a diferentes contextos que torna esta peça tão importante. O objecto permaneceu, enquanto o mundo à sua volta mudou profundamente, e aquilo que começou por representar o prestígio de uma família adquiriu, ao longo do tempo, um significado que ultrapassou largamente a sua utilização original.

A inscrição gravada na peça merece, por isso, uma atenção especial, porque é através dela que o passado deixa de ser uma abstracção e ganha nomes concretos. D. Mendo Gonçalves e D. Toda não são apenas figuras perdidas numa genealogia medieval, mas os protagonistas de uma encomenda que chegou até nós quando milhares de outros objectos desapareceram, foram fundidos, destruídos ou simplesmente esquecidos. A prata podia ser reutilizada, as jóias podiam ser desmontadas e os tesouros podiam desaparecer em períodos de guerra ou de instabilidade, mas este cálice sobreviveu, permitindo aos historiadores estudar uma obra que nos aproxima da sociedade aristocrática do Condado Portucalense.

A própria peça constitui um testemunho da qualidade técnica e artística da ourivesaria medieval. Executada em prata dourada e decorada com motivos ornamentais e figuras de animais, apresenta características que têm sido relacionadas com a tradição moçárabe e com o ambiente cultural da Península Ibérica medieval. A palavra «moçárabe» exige algum cuidado na sua utilização, porque designa realidades históricas e culturais diversas, associadas sobretudo aos cristãos que viviam sob domínio muçulmano e às expressões artísticas ligadas a esses contextos. Não permite, por si só, determinar com absoluta segurança o local de fabrico do cálice, mas ajuda a compreender a complexidade do mundo em que a peça surgiu, num território onde as influências artísticas não respeitavam necessariamente as fronteiras religiosas e políticas.

A história peninsular foi feita de conflitos, conquistas e disputas territoriais, mas também de contactos culturais, circulação de técnicas e apropriação de formas artísticas. Por vezes, olhamos para a Idade Média através de uma sucessão de batalhas e esquecemos que, enquanto os exércitos avançavam e as fronteiras se alteravam, os artesãos continuavam a trabalhar, os mercadores transportavam mercadorias e os objectos preciosos circulavam entre diferentes comunidades. O Cálice de São Geraldo permite-nos vislumbrar essa realidade, porque a sua linguagem ornamental recorda que a cultura medieval era consideravelmente mais complexa do que uma divisão rígida entre mundos cristãos e muçulmanos poderia sugerir.

Mas por que razão ficou conhecido como Cálice de São Geraldo? O nome remete para o arcebispo de Braga que governou a arquidiocese entre 1096 e 1108 e cuja memória permanece profundamente ligada à história religiosa da cidade. A designação tradicional associa a peça ao universo patrimonial e devocional de Braga, embora não devamos confundir essa ligação com uma prova de que o próprio São Geraldo a encomendou ou de que conhecemos todos os episódios da sua utilização. A prudência histórica é especialmente importante quando lidamos com objectos que atravessaram tantos séculos, porque a tradição pode conservar memórias relevantes sem que todos os pormenores possam ser demonstrados documentalmente.

Há, no entanto, uma certeza cronológica que torna o cálice particularmente interessante. A actual Sé de Braga começou a ser construída no final do século XI, durante o episcopado de D. Pedro, e o cálice é anterior ao edifício românico que hoje conhecemos. Isto significa que a peça precede não apenas a fundação do reino português, mas também o monumento religioso com o qual acabaria por ficar associada. O visitante que hoje entra no Tesouro-Museu da Sé de Braga encontra, assim, um objecto que já tinha uma história quando as paredes da catedral começaram a erguer-se, como se uma testemunha do passado tivesse esperado pelo nascimento do edifício que viria a acolhê-la.

É também por isso que importa utilizar com rigor a expressão «o cálice mais antigo de Portugal». A peça é frequentemente apresentada como um dos mais antigos exemplares de ourivesaria associados ao culto cristão conservados no território português, sendo destacada pela sua excepcional antiguidade e pela relação com a aristocracia condal portucalense. Contudo, é necessário distinguir a data de fabrico, a função original e a utilização litúrgica posterior, porque são questões diferentes e nem sempre igualmente documentadas. A sua importância histórica não depende de uma afirmação absoluta que dispense discussão: reside no facto de termos diante de nós uma obra de cerca de mil anos, ligada a personagens identificáveis e preservada num dos mais importantes centros religiosos do país.

A transformação de um objecto ao longo do tempo também nos ajuda a compreender a própria história da Eucaristia. Para os cristãos, a celebração eucarística constitui o centro da vida litúrgica, evocando a Última Ceia e a instituição do sacramento por Jesus Cristo. O cálice ocupa nela um lugar de particular significado, porque contém o vinho consagrado que, segundo a fé católica, se torna o Sangue de Cristo. Ao passar a integrar o património religioso, uma peça como esta deixa de ser vista apenas pela matéria de que é feita ou pela habilidade do artesão que a executou, adquirindo uma dimensão simbólica que a comunidade cristã reconhece e transmite às gerações seguintes.

É importante não confundir, porém, a antiguidade do cálice com a antiguidade da Eucaristia em Portugal. A celebração cristã é muito anterior à existência deste objecto e remonta às primeiras comunidades cristãs, pelo que o Cálice de São Geraldo não representa o início da Eucaristia no território. O seu valor reside antes em constituir um testemunho material extraordinariamente antigo da ourivesaria medieval associada ao universo religioso português, permitindo-nos acompanhar a história de uma peça que adquiriu, ao longo dos séculos, um significado que ultrapassa a sua origem.

A ironia histórica é irresistível. Quando este cálice foi encomendado, Portugal ainda não existia como reino independente, mas hoje é precisamente através dele que conseguimos tocar uma parte da história que antecedeu a nacionalidade. A formação de um país não acontece de um dia para o outro, nem começa necessariamente na data que os manuais escolares destacam. Antes de existir uma coroa portuguesa, já havia famílias poderosas, territórios com identidade própria, instituições religiosas e uma vida cultural que preparava o terreno para as transformações políticas futuras. O cálice recorda-nos que o passado não começa quando nasce um reino, mas muito antes, no interior de sociedades que ainda não sabem exactamente aquilo em que se irão transformar.

Talvez seja essa a razão pela qual uma peça aparentemente tão pequena consegue contar uma história tão vasta. Nela encontramos a memória de D. Mendo Gonçalves e de D. Toda, a qualidade da ourivesaria medieval, a complexidade dos contactos culturais peninsulares, a evolução dos usos religiosos e a longa história da Sé de Braga. Não sabemos todos os episódios que marcaram a vida do cálice, nem devemos preencher as lacunas documentais com certezas artificiais, mas sabemos que sobreviveu a cerca de mil anos de transformações e que continua a colocar perguntas aos historiadores.

Quando o visitante se detém diante do Cálice de São Geraldo, no Tesouro-Museu da Sé de Braga, não está apenas perante uma peça antiga de prata dourada. Está diante de um fragmento material de um mundo que desapareceu, mas que deixou marcas suficientemente fortes para chegarem até nós. Talvez tenha começado por acompanhar uma mesa aristocrática; a sua história posterior conduziu-o ao património religioso, onde adquiriu um significado que hoje associamos à tradição eucarística. Entre uma realidade e a outra existe um milénio de história, feito de mudanças políticas, práticas religiosas e memórias transmitidas de geração em geração.

Afinal, a grandeza de certos objectos não reside apenas no ouro, na prata ou na habilidade de quem os fabricou, mas também na quantidade de tempo que conseguiram atravessar e na capacidade de nos obrigarem a olhar de outra maneira para a história que julgávamos conhecer. O Cálice de São Geraldo é uma dessas peças, anterior à nacionalidade e ligado à memória religiosa de Braga, que nos recorda como a história de Portugal começou muito antes de Portugal ter um rei. E talvez seja essa a sua maior lição: antes de o país ter um nome de reino, já havia uma história a ser escrita, e algumas das suas páginas mais antigas continuam, mil anos depois, ao alcance dos nossos olhos.

Paulo Freitas do Amaral

Professor, HIstoriador e Autor