Nos dias 12 e 13 de setembro de 2026, às 17h00, o Piso -1 do MAC/CCB recebe “Da Gare do Oriente para o Centro Cultural de Belém — KRUMP Session”, com direção artística de Dougie Knight e coreografia assinada por Dougie Knight e Carlos Zagalo (Big Zee).
A apresentação, integrada no fim de semana de abertura da nova temporada do Centro Cultural de Belém, tem aproximadamente 60 minutos, destina-se a maiores de seis anos e tem entrada livre, sujeita à lotação do espaço. Os bilhetes podem ser levantados na bilheteira do MAC/CCB a partir de uma hora antes da sessão.
Mas falar desta apresentação apenas como mais um espetáculo de dança seria reduzir a dimensão do que está em causa.
No centro deste percurso encontra-se Douglas Silva, artisticamente conhecido como Dougie Knight, brasileiro radicado em Portugal desde os 10 anos e uma das figuras determinantes na implantação e desenvolvimento do krump no país.
Iniciou o seu percurso dentro da cultura hip-hop aos 14 anos e construiu desde então uma atividade que cruza dança, coreografia, música, ensino, criação artística e dinamização cultural.
Dougie Knight é reconhecido como um dos pioneiros do krump em Portugal e tem igualmente contribuído para o desenvolvimento desta linguagem no Brasil, através de trabalho de pesquisa, tradução e estruturação do estilo.
A história de Dougie Knight está intimamente ligada ao crescimento de uma comunidade.
Em 2009, Douglas Silva fundou em Lisboa a Knight, a sua fam de krump — uma estrutura de pertença, transmissão e identidade própria dentro desta cultura.
Foi também um dos fundadores do My Own Style Espaço Artístico, plataforma dedicada ao desenvolvimento das danças de rua.
Mais tarde, juntamente com Lúcia Afonso, desenvolveu o conceito My Own Style Jam, criado em 2012 com a intenção de quebrar barreiras entre bailarinos e diferentes estilos de dança, promovendo improvisação, experimentação e encontro entre comunidades.
Dessa experiência nasceu, em 2021, a MOSJAM — Associação Cultural e Artística, organização dedicada à transmissão cultural, produção de projetos sociais e artísticos, battles, jams, cyphers, conferências, workshops e formação intensiva.
É precisamente aqui que a palavra promotor ganha uma dimensão mais ampla.
Dougie Knight não se limitou a interpretar uma dança: ajudou a criar as condições para que ela pudesse existir, crescer, transmitir-se entre gerações e encontrar novos públicos.
O seu trabalho passou pela criação de espaços de prática, formação de bailarinos, desenvolvimento de encontros e projetos comunitários e pela progressiva aproximação do krump às instituições culturais.
Ao longo do seu percurso, desenvolveu trabalhos como KRUMP SESSIONS, apresentados em espaços como o Teatro do Bairro Alto, Serralves e Bons Sons, além do projeto AMPED.
Trabalhou igualmente com companhias e artistas nacionais e internacionais, incluindo a companhia francesa Dyptik, e participou em projetos de Mónica Calle, Vhils e Piny.
Foi ainda responsável pela coreografia da Funk Orquestra no Rock in Rio 2024 e apresentou trabalhos em contextos internacionais, incluindo o KrumpFest, em Paris.
Também no território comunitário a sua intervenção é visível.
Num projeto desenvolvido no Vale de Alcântara, por exemplo, a dança foi utilizada como porta de entrada para aproximar jovens dos diferentes elementos da cultura hip-hop, através de jams, workshops, participação de artistas locais e videodança.
Para compreender a importância desta chegada ao CCB é necessário regressar às origens do próprio krump.
A linguagem nasceu no final da década de 1990 entre comunidades negras e latinas de Los Angeles, particularmente associada a territórios marcados por desigualdade económica, racismo, violência estrutural, conflitos entre gangues e repressão policial.
É uma dança fisicamente intensa, emocionalmente exposta e deliberadamente expressiva.
Movimentos bruscos, contrações, gestos amplificados, impacto corporal e uma relação muito forte com a improvisação transformam aquilo que poderia ser apenas movimento numa forma de comunicação.
O Centro Cultural de Belém apresenta o krump como uma prática performativa estruturada enquanto ritual de libertação, aceitação e resistência, no qual o corpo se afirma como espaço de expressão e transformação.
Mais do que uma dança, constitui um território coletivo onde energia, emoção e comunidade se encontram.
Essa dimensão explica também por que motivo a institucionalização do krump pode ser simultaneamente importante e delicada: trata-se de levar para os grandes palcos uma prática cuja força nasceu precisamente fora deles.
No Teatro do Bairro Alto, a KRUMP Session de 2024 assumiu claramente esse propósito, sob a ideia de “ocupar o centro e celebrar a sobrevivência coletiva”.
A apresentação procurava homenagear diferentes gerações de krumpers nacionais, colocando num espaço institucional uma linguagem que durante muitos anos permaneceu sobretudo fora desses circuitos.
As sessões de krump têm vindo a realizar-se em diferentes pontos do país desde 2006, contribuindo para preservar e transmitir esta cultura ao longo das gerações.
É, por isso, difícil não encontrar uma dimensão simbólica no próprio título da criação: “Da Gare do Oriente para o Centro Cultural de Belém”.
Há uma deslocação física, mas também cultural.
Da cidade vivida, dos espaços informais e das comunidades de prática para uma das principais instituições culturais portuguesas.
Não necessariamente para abandonar as origens, mas para lhes dar visibilidade.
Aquilo que durante muitos anos foi transmitido entre praticantes, em encontros, battles, cyphers, escolas e espaços independentes, chega agora ao MAC/CCB mantendo a intensidade e o carácter coletivo que definem o krump.
A direção artística pertence a Dougie Knight, enquanto a coreografia é partilhada com Carlos Zagalo (Big Zee).
Em palco estarão Gilberto Agostinho Gabriel, Maria Casqueiro Costa, Carlos Zagalo, Stevan Bright, Julien Wrestler, Aires D’Alva (Lion), Nádia P. Futur, Afonso Costa, Rúben Leal, Ana Rita Oliveira, Mónia Fontes, Filipa Rocha e Leonor Monteiro.
A música original é assinada por MOZARF X MORF e Dougie Knight, o vídeo e fotografia por Maria Costa, a produção pertence à Associação Cultural e Artística Via Urbana, com produção executiva de Vanessa Freitas e trabalho técnico de luz de Pedro Guimarães.
Talvez seja precisamente esta a dimensão mais interessante do percurso de Douglas Silva.
O seu trabalho mostra que um promotor cultural não é necessariamente apenas alguém que organiza acontecimentos.
Pode ser alguém que cria condições para que uma linguagem sobreviva, forma pessoas, desenvolve espaços de encontro, protege uma memória coletiva e cria pontes entre comunidades que estão fora dos circuitos tradicionais e instituições capazes de lhes dar maior visibilidade.
Ao longo dos anos, Dougie Knight foi praticante, bailarino, professor, coreógrafo, músico, investigador informal da própria cultura que representa, organizador e agregador.
E é nessa combinação que a apresentação deste fim de semana adquire particular significado.
Quando o krump entra no Centro Cultural de Belém, não entra sozinho.
Entram com ele muitos anos de encontros, ensaios, jams, battles, formação, comunidades e diferentes gerações de bailarinos que mantiveram esta linguagem viva em Portugal.
Por isso, “Da Gare do Oriente para o Centro Cultural de Belém — KRUMP Session” pode ser lida como mais do que uma deslocação entre dois pontos de Lisboa.
É também uma viagem da margem para o centro, da invisibilidade para o reconhecimento e da prática comunitária para o espaço institucional.
E, no centro dessa viagem, está Douglas Silva — Dougie Knight —, artista, criador e promotor de uma cultura que ajudou a construir em Portugal e que agora ocupa alguns dos seus palcos mais importantes sem abdicar da força das suas origens.