Na região do Grande Porto, a resposta encontrada pela Águas do Douro e Paiva acabou por conquistar reconhecimento internacional.
O projeto português «Das lamas nascem telhas: um caso de economia circular no setor da água» recebeu o Gold Award dos IWA Project Innovation Awards 2026, atribuídos pela International Water Association, durante o Congresso Mundial da Água, realizado em Glasgow, na Escócia, entre 4 e 8 de outubro.
A iniciativa venceu a categoria Performance Improvement and Operational Solutions, destinada a reconhecer soluções que melhoram o desempenho, a eficiência e a sustentabilidade das operações no setor da água.
A dimensão da distinção percebe-se pela concorrência. A edição de 2026 recebeu 320 candidaturas de 65 países, das quais foram selecionados 23 finalistas, distribuídos por seis categorias.
A Águas do Douro e Paiva conquistou uma das seis medalhas de ouro atribuídas pela organização, colocando a inovação portuguesa entre os projetos internacionalmente reconhecidos pelo seu contributo para uma gestão mais eficiente dos recursos.
Tudo começa na Estação de Tratamento de Água de Lever, uma das infraestruturas fundamentais do sistema de abastecimento da região do Grande Porto.
O tratamento da água destinada ao consumo humano envolve diferentes processos de remoção de partículas e outras substâncias. Parte desses materiais origina lamas que necessitam de tratamento e de um destino adequado.
Durante muito tempo, a deposição em aterro constituiu uma das soluções utilizadas para este tipo de resíduos. Embora sujeita a regras ambientais, esta opção implica custos de gestão e desperdiça materiais que, em determinadas condições, podem apresentar potencial de aproveitamento.
Foi precisamente esse potencial que a Águas do Douro e Paiva decidiu investigar.
Em colaboração com a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e o Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro (CTCV), a empresa desenvolveu estudos destinados a avaliar a possibilidade de incorporar as lamas do tratamento de água no processo de fabrico de produtos cerâmicos.
Os resultados permitiram encontrar uma aplicação industrial concreta para um material que anteriormente representava um encargo ambiental e operacional.
Atualmente, cerca de 2.280 toneladas de lamas provenientes da ETA de Lever são encaminhadas anualmente para a indústria cerâmica, onde entram como matéria-prima no processo de produção de aproximadamente 14 milhões de telhas.
O projeto permite, segundo a empresa, valorizar a totalidade das lamas abrangidas por esta solução, evitando a sua deposição em aterro.
Os resultados tornam-se particularmente relevantes quando se considera que estamos perante uma aplicação industrial já implementada, e não apenas uma experiência desenvolvida em laboratório.
Um dos aspetos mais interessantes desta iniciativa está na colaboração estabelecida entre uma empresa pública responsável por um serviço essencial, uma instituição universitária e um centro tecnológico especializado.
A investigação científica desempenhou um papel determinante na identificação das características dos resíduos e na avaliação da sua adequação ao processo cerâmico.
A incorporação de materiais alternativos no fabrico de produtos de construção exige conhecimento técnico. É necessário estudar a composição dos materiais, o seu comportamento durante o processamento e os efeitos que podem produzir nas propriedades do produto final.
No caso da indústria cerâmica, fatores como a composição mineralógica, a humidade e o comportamento durante a cozedura são particularmente relevantes.
A viabilidade demonstrada pelo projeto português permitiu estabelecer uma ligação entre duas atividades industriais que, à primeira vista, pouco parecem ter em comum: o tratamento de água e a produção de telhas.
O que uma atividade gera como resíduo passa a ser aproveitado por outra como recurso produtivo.
Bruno Coimbra, presidente do Conselho de Administração da Águas do Douro e Paiva, recebeu o prémio em Glasgow e destacou precisamente o valor desta colaboração.
Para o responsável, a distinção reconhece uma solução nascida de um desafio concreto da atividade da empresa e demonstra a importância de aproximar o setor empresarial das universidades e dos centros de investigação.
O prémio, acrescentou, pertence igualmente às equipas técnicas e aos parceiros que contribuíram para transformar o trabalho de investigação numa aplicação industrial.
A economia circular tem vindo a ganhar espaço nas estratégias ambientais das empresas e nas políticas públicas europeias.
O princípio é relativamente simples de compreender, embora a sua aplicação possa exigir transformações técnicas e organizacionais complexas: procurar manter materiais e recursos em utilização durante mais tempo, reduzindo a necessidade de extrair novas matérias-primas e a quantidade de resíduos encaminhados para eliminação.
O projeto da Águas do Douro e Paiva constitui um exemplo concreto dessa abordagem.
Em vez de considerar as lamas exclusivamente como um resíduo a eliminar, a empresa identificou uma utilização industrial capaz de lhes conferir uma nova função.
A valorização de 2.280 toneladas por ano significa que uma quantidade significativa de material deixa de ser encaminhada para aterro e passa a integrar um novo ciclo produtivo.
Há também potencial para reduzir a utilização de determinadas matérias-primas convencionais na indústria cerâmica, embora a dimensão dessa substituição dependa das características dos processos industriais envolvidos.
Convém, contudo, distinguir os benefícios comprovados dos impactos ambientais que ainda exigiriam uma avaliação mais detalhada.
O aproveitamento integral das lamas constitui um resultado operacional relevante, mas não permite, por si só, quantificar a redução das emissões de gases com efeito de estufa ou o balanço energético global da solução.
Para determinar esses efeitos seria necessário analisar, entre outros fatores, o transporte dos materiais, o processamento industrial, os consumos energéticos e a eventual substituição de matérias-primas.
Essa análise não diminui o mérito da iniciativa. Pelo contrário, ajuda a compreender a importância de medir o impacto real dos projetos de sustentabilidade para além das intenções anunciadas.
Os IWA Project Innovation Awards são atribuídos de dois em dois anos pela International Water Association, uma organização internacional dedicada à investigação, à inovação e à partilha de conhecimento no setor da água.
Criados em 2006, os prémios distinguem projetos que apresentam soluções para desafios relacionados com a gestão dos recursos hídricos, as tecnologias de tratamento, a eficiência operacional e a sustentabilidade.
A edição de 2026 reuniu iniciativas desenvolvidas em diferentes geografias e realidades económicas.
Na categoria conquistada pela Águas do Douro e Paiva, o júri reconheceu particularmente a inovação aplicada à melhoria das operações e à utilização mais eficiente dos recursos.
A distinção portuguesa não correspondeu ao prémio máximo absoluto do concurso, o Grand Innovation Award, que foi atribuído a um projeto chinês relacionado com a valorização integrada de recursos numa estação de tratamento de águas residuais.
Ainda assim, conquistar o Ouro numa das seis categorias representa um reconhecimento internacional significativo para a capacidade de investigação e aplicação tecnológica desenvolvida em Portugal.
A participação da Águas do Douro e Paiva no Congresso Mundial da Água ficou ainda marcada por um segundo reconhecimento.
A empresa recebeu o certificado Climate Smart Utility 2026, na categoria Achiever, atribuído pela International Water Association a entidades que demonstram progressos na resposta aos desafios associados às alterações climáticas.
O reconhecimento insere-se numa preocupação crescente do setor da água com a adaptação climática, a eficiência energética e a redução dos impactos ambientais das operações.
As alterações nos padrões de precipitação, os períodos de seca e os fenómenos meteorológicos extremos obrigam as entidades responsáveis pelo abastecimento de água a repensar os seus modelos de gestão e de investimento.
A capacidade de assegurar um serviço fiável, utilizando os recursos de forma cada vez mais eficiente, tornou-se uma preocupação central para operadores públicos e privados em diferentes países.
A Águas do Douro e Paiva é uma empresa de capitais exclusivamente públicos, integrada no universo do Grupo Águas de Portugal, responsável pelo sistema multimunicipal de abastecimento de água à região do Grande Porto.
A sua atividade abrange 22 municípios e serve aproximadamente 1,8 milhões de pessoas.
Trata-se de uma infraestrutura essencial para a saúde pública, a atividade económica e o funcionamento quotidiano das comunidades.
O reconhecimento conquistado em Glasgow mostra que a inovação no setor da água não depende exclusivamente de grandes investimentos em novas infraestruturas ou da introdução de tecnologias particularmente sofisticadas.
Em determinadas circunstâncias, pode nascer da capacidade de observar um problema conhecido, questionar as soluções habitualmente utilizadas e procurar aplicações que ainda não tinham sido exploradas.
Foi esse o caminho seguido pela Águas do Douro e Paiva, com o contributo da investigação universitária e do conhecimento tecnológico especializado.
O projeto abre também uma reflexão sobre as oportunidades de colaboração entre setores industriais. Materiais considerados resíduos numa determinada atividade podem apresentar características úteis para outras, desde que existam condições técnicas, económicas e ambientais que justifiquem o seu aproveitamento.
Num país onde a gestão dos recursos naturais e a sustentabilidade industrial assumem uma importância crescente, esta distinção internacional deixa um exemplo de inovação aplicada, com resultados concretos e potencial para inspirar soluções semelhantes.
No caso da Águas do Douro e Paiva, a expressão «Das lamas nascem telhas» deixou de ser apenas o nome de um projeto de investigação.
É uma realidade industrial que transforma anualmente milhares de toneladas de resíduos em materiais utilizados na construção.
E foi precisamente essa capacidade de transformar um problema operacional numa solução útil para outra indústria que levou a inovação portuguesa ao pódio mundial do setor da água.