Depois de Matosinhos, do Chiado e de Cascais, a artista natural do Mindelo leva agora o novo disco a Almada, concluindo uma série de encontros pensados num registo deliberadamente mais próximo do que o de um concerto convencional. Acompanhada pelos guitarristas Dany Fonseca e Rolando Semedo, Cremilda Medina abdicou dos grandes dispositivos de produção para concentrar tudo na interpretação, nas cordas e nas histórias que cada composição transporta.
Mais do que uma campanha promocional, estas FNAC Sessions revelaram como "LÁGRIMA" respira diante do público: não como espetáculo, mas como exercício de escuta, memória e reencontro com uma parte significativa do património musical cabo-verdiano.
Lançado nas plataformas digitais em abril deste ano, "LÁGRIMA" reúne 13 temas, todos do universo da morna. O projeto nasceu de um trabalho de pesquisa iniciado em 2022, inicialmente pensado para dois singles, que se transformou num álbum completo perante a riqueza do repertório encontrado.
O disco recupera composições de autores como Constantino Cardoso, B. Léza, Malaquias Costa, João Freitas, Fausta d'Dada, Frank Amador, Morgadinho, Olavo Bilac, Lela de Maninha, Luís Lima, Toy Vieira e Manuel d'Novas, entre outros.
A produção musical esteve a cargo do multi-instrumentista Palinh Vieira, com a colaboração de Armando Tito e Kaku Alves. O álbum conta ainda com as participações de Ana Firmino, Maria Alice e Nancy Vieira — três vozes que ligam diferentes gerações e geografias da música cabo-verdiana.
O resultado é um trabalho predominantemente acústico, assente em instrumentos de cordas — uma opção rara num mercado dominado pela produção eletrónica — que preserva a estrutura emocional da morna sem a congelar em peça de museu. Em "LÁGRIMA", a tradição não é apenas herança recebida: é matéria viva, reinterpretada, partilhada e apresentada a novas audiências.
O primeiro sinal público deste novo ciclo artístico chegou em dezembro de 2025, com o lançamento de "Amizade", tema escolhido para antecipar o álbum.
A canção viria a conquistar o prémio de Morna do Ano na edição de 2026 dos Cabo Verde Music Awards, realizada a 6 de junho, no Mindelo. A distinção colocou "Amizade" entre as obras de referência da produção musical cabo-verdiana do último ano, mas fez mais do que isso. Validou uma opção estética e cultural: recuperar repertórios, valorizar compositores e tratar a morna como um género capaz de dialogar com o presente sem trair a sua identidade.
Inscrita desde 2019 na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO, a morna reúne música, poesia, voz, acompanhamento instrumental e, em algumas das suas expressões, dança. É precisamente nesse território, entre a memória coletiva e a interpretação contemporânea, que Cremilda Medina tem construído o seu percurso.
Natural do Mindelo, Cremilda Medina começou a cantar ainda criança. Aos 14 anos integrou o grupo juvenil Rytmos e, mais tarde, passou pela banda Noites de Mindelo, antes de ganhar maior projeção como finalista do concurso televisivo "Talentu Strela".
O primeiro álbum, "Folclore", foi editado em 2017. Seguiu-se "Nova Aurora", em 2023, no qual a cantora prosseguiu a exploração da morna e da coladeira. Com "LÁGRIMA", concentra pela primeira vez todo um disco num único género.
Esta continuidade explica por que razão o novo álbum não é uma mudança de direção, mas o aprofundamento de uma escolha construída ao longo de anos: dar visibilidade à música tradicional cabo-verdiana, resgatar obras menos divulgadas e criar pontes entre gerações de intérpretes, instrumentistas, compositores e públicos.
O showcase de Almada fecha a primeira apresentação pública de "LÁGRIMA" pelos palcos FNAC, mas dificilmente marcará o fim do percurso do álbum.
A receção das três apresentações anteriores e a distinção conquistada por "Amizade" demonstram que existe espaço para uma proposta musical assente na contenção, na autenticidade e na valorização das raízes, mesmo num tempo de consumo rápido, produção massificada e procura permanente de novidade.
Ao terminar esta digressão, Cremilda Medina encerra mais do que uma sequência de concertos. Encerra um ciclo que provou que a morna não vive apenas da recordação dos seus grandes nomes. Vive, sobretudo, das vozes que hoje continuam a estudá-la, interpretá-la e transportá-la para novos lugares.