Os Estados Unidos estão a envia centenas de soldados do Exército para treinar e realizar exercícios com forças locais na América Latina, enquanto o Pentágono expande sua campanha de combate ao narcotráfico na região, de acordo com autoridades militares americanas. 

Os primeiros elementos de um batalhão de 600 soldados da 10ª Divisão de Montanha de Fort Drum, em Nova York, começaram a ser enviados para uma nova instalação de treino na selva no Panamá, disseram as autoridades, falando sob condição de anonimato para discutir assuntos operacionais.

As tropas irão treinar com as forças locais na Colômbia e nas  Honduras, e também poderão apoiar as tropas de Operações Especiais dos EUA, assessorando os militares que realizam incursões contra supostos traficantes de drogas, disseram as autoridades.

Além dos destacamentos para a América Central e do Sul, as autoridades informaram que várias centenas de soldados da 10ª Divisão de Montanha estavam programados para ajudar a compor o quadro de funcionários de um novo comando para operações no Hemisfério Ocidental, com sede em Miami.

O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, criou recentemente um escritório no Pentágono para ajudar a supervisionar as atividades militares de combate aos cartéis.

Pressão para a compra de armas: Governo Trump reduziu o financiamento militar à América Latina ao menor nível desde 2001, mesmo com avanço de aliados na região

Os destacamentos e a expansão dos quartéis-generais, que não haviam sido divulgados anteriormente, juntamente com a recente transferência de vários drones MQ-9 Reaper do Pentágono da África para a Colômbia e o Equador, representam a mais recente ampliação da luta do Departamento de Defesa contra os narcotraficantes na região.

Os soldados deslocar-se-ão primeiro para o Panamá, onde participarão de exercícios de treino na selva.

De lá, seguirão para a Colômbia, onde participarão do que as autoridades denominaram Southern Vanguard, um exercício com início previsto para o final deste mês.

Outros grupos irão para Honduras para treino com parceiros locais.

Parte dessas tropas poderá ser utilizada para fornecer segurança adicional aos helicópteros estadunidenses na região, que vêm prestando apoio às forças de Operações Especiais dos EUA.

As tropas da 10ª Divisão de Montanha também poderão ser mobilizadas para responder a eventuais problemas enfrentados pelas forças de Operações Especiais, que assessoram as forças militares parceiras locais, disseram as autoridades.

Adam Isacson, diretor de Supervisão de Defesa do Escritório de Washington para Assuntos Latino-Americanos (WOLA, sigla em inglês), um grupo de pesquisa, disse que não se lembrava de nenhum destacamento de tropas estadunidenses para a região "que tenha chegado perto de 600, exceto em casos de contingências como invasões ou desastres naturais".

Essas medidas também ocorrem num momento em que o governo Trump pressiona líderes de toda a região a intensificarem suas ofensivas militares contra grupos de tráfico de drogas e a permitirem operações conjuntas com os Estados Unidos.

O comandante militar estadunidense de maior patente na América Latina, general Francis L. Donovan, afirmou que os Estados Unidos planeiam expandir as operações, passando de ataques a embarcações para ataques em terra.

Em quase toda a América Latina, os eleitores elegeram recentemente líderes que colocaram o combate a grupos criminosos e a restauração da segurança no topo de suas agendas. Mas a perspectiva de operações dos EUA em solo latino-americano levantou preocupações sobre a soberania e remeteu a uma longa e sangrenta história de intervenção americana na região.

A Colombia e as Honduras são governados por presidentes recém-eleitos que receberam o apoio do presidente Trump.

A coligação militar conta com 19 parceiros regionais, incluindo os Estados Unidos, que se comprometeram a ajudar a desmantelar os cartéis.

O lema oficial do grupo é: “Fazemos coisas ruins com pessoas ruins”.

Organizações de direitos humanos temem que a crescente campanha militar liderada pelos EUA possa colocar civis em perigo.

E especialistas afirmam que matar membros de grupos de tráfico de drogas — mesmo os líderes de alto escalão — pouco contribui para conter o fluxo de drogas, já que os mortos podem ser substituídos.

O Comando Sul das Forças Armadas encaminhou as perguntas sobre os novos destacamentos ao Pentágono, que, recusou-se a comentar as movimentações, exceto para afirmar que o departamento estava comprometido com uma “abordagem de trabalho com aliados e parceiros capazes para aprofundar a colaboração e manter a pressão constante contra as redes de ameaças hemisféricas”.

No início desta semana, o general Joseph A. Ryan, que chefia o Comando do Hemisfério Ocidental do Exército, descreveu os grandes desafios que as Forças Armadas dos EUA enfrentam ao retornarem a uma região que, por décadas, não foi seu foco principal.

Trata-se de uma parte do mundo onde a China tem crescente influência economica e onde os cartéis de drogas construíram sofisticadas redes globais para vender seus produtos ilícitos, afirmou ele.

— Cedemos a dominância economica na região a um adversário, e isso é um facto — disse Ryan num discurso na segunda-feira na conferência anual da Associação do Exército dos EUA em Washington. — Estamos a lutar agora para retomar o terreno, marítimo e terrestre, humano e cognitivo, em muitos casos, terreno que havíamos cedido anteriormente.

Enquanto Hegseth pressionava para que o Comando Sul dos EUA adotasse uma postura mais agressiva na região, alguns altos funcionários americanos expressaram preocupação com o facto dele e outros líderes do governo Trump não terem articulado um objetivo claro para a operação.

Se grupos armados atacarem tropas estadunidenses, o governo Trump poderá se sentir compelido a intensificar o conflito.

As forças estadunidenses , já sobrecarregadas pela guerra com o Irão e pelos compromissos na Europa e na Ásia, poderiam ser arrastadas ainda mais para um conflito em outra parte do mundo sem um plano claro de retirada, disse um oficial.

A guerra dos EUA contra o Irão sobrecarregou toda a força militar, desde caças e porta-aviões até drones de vigilância e aeronaves de reabastecimento, e esgotou o estoque global de munições críticas do Pentágono.

Em agosto, o Comando Sul das Forças Armadas anunciou a Força de Combate Conjunta do Hemisfério Ocidental, estabelecendo a infraestrutura para uma expansão de sua guerra contra as drogas em cooperação com aliados regionais.

A mudança dos ataques para o interior também levanta preocupações sobre possíveis vítimas civis. Os ataques com embarcações atualmente ocorrem longe da costa, principalmente em águas internacionais.

Ataques em terra aumentam a possibilidade de atingir acidentalmente infraestruturas civis, como escolas ou estradas, colocando em risco muito mais vidas.