O Serviço Geológico Colombiano situou inicialmente o epicentro no departamento do Chocó, junto à localidade de San José del Palmar, uma povoação pacífica de pouco mais de 4.700 habitantes que, sem aviso, se tornou o centro de uma tragédia nacional.
Os primeiros números, como acontece quase sempre nas horas seguintes a um grande sismo, foram provisórios. A Unidade Nacional para a Gestão do Risco de Desastres apontou inicialmente uma magnitude de 6,6, com profundidade de 79 quilómetros, enquanto o próprio SGC divulgou um primeiro boletim com magnitude preliminar de 7,4 e profundidade de 82 quilómetros. Horas depois, o valor consolidou-se: o boletim atualizado do SGC confirmou magnitude de 7,4, com profundidade de 96 quilómetros e epicentro em San José del Palmar, uma leitura corroborada pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos.
O ponto exato ficou a cerca de 280 quilómetros a oeste de Bogotá. Bastou, no entanto, para que o abalo se sentisse em países vizinhos como a Venezuela, o Equador e o Panamá, chegando mesmo a Quito. O SGC registou depois duas réplicas, de magnitude 2,8 e 4,8, esta última amplamente sentida.
É nas cidades do eixo cafeeiro que o balanço humano começa a ganhar contornos mais claros, ainda que provisórios. Segundo o jornal espanhol El Español, o sismo terá deixado pelo menos vinte mortos, dezoito em Pereira e dois em Manizales, além de dezenas de feridos. O presidente da Colômbia, Abelardo De La Espriella, confirmou entretanto um número inicial mais contido em declarações à rádio Caracol: "Só posso entregar por agora a cifra de 18 mortos e dezenas de feridos", admitindo que ainda não há noção real da dimensão do desastre.
Em Pereira, o aeroporto internacional Matecaña sofreu danos estruturais graves, com parte do telhado a desprender-se numa zona onde se encontravam várias pessoas. Em Manizales, uma das torres da catedral ficou danificada e várias fachadas de edifícios cederam. Em Cali, palco há apenas três dias da tomada de posse presidencial, vários edifícios ficaram com fendas visíveis, incluindo um motel na Autopista Suroriental, embora o autarca Alejandro Eder tenha dito não haver, até ao momento, informação confirmada sobre vítimas na cidade.
No Chocó, onde tudo começou, a governadora Nubia Carolina Córdoba Curi confirmou que a capital departamental também sofreu: "Há feridos e graves danos nas edificações" em Quibdó, disse, ainda a aguardar uma avaliação técnica completa. Mais a norte, em Cundinamarca, o município de Ubaque registou fendas na sede da autarquia e danos na praça de mercado.
Na capital, o cenário foi de alívio contido. O autarca Carlos Fernando Galán indicou não terem sido reportados danos estruturais graves, ainda que o instituto municipal de gestão de risco, o IDIGER, tenha iniciado uma varredura técnica por todas as localidades da capital. Há grietas em algumas edificações, que não comprometem as estruturas, mas a inspeção continua, precisou. Chegou a suspender-se, por precaução, o serviço de TransMiCable em Ciudad Bolívar, entretanto retomado.
O impacto sentiu-se também nos céus do país. A Aeronáutica Civil confirmou afetações nos aeroportos de Pereira, Manizales, Quibdó, Armenia, Cartago e Buenaventura, um retrato da extensão geográfica de um sismo que, apesar do epicentro isolado, não poupou praticamente nenhuma região do centro e oeste colombiano.
A resposta e a memória recente
Perante a escala do que se desenhava, De La Espriella convocou um Posto de Comando Unificado na sede da Unidade Nacional para a Gestão do Risco de Desastres, de onde passaram a coordenar-se as operações nas zonas afetadas. Publicamente, dirigiu-se aos colombianos com uma mensagem breve, de circunstância, prometendo que ninguém seria deixado sozinho perante a tragédia.
Há uma memória que pesa sobre este momento. Segundo o jornal equatoriano Primicias, a magnitude deste sismo aproxima-se da registada nos dois terramotos que, a 10 de julho passado, provocaram uma catástrofe com milhares de mortos na Venezuela. Um mês depois, quase ao dia, é a Colômbia que se vê à beira do abismo, a contar mortos, feridos e edifícios sem chão.
Há qualquer coisa de profundamente humano na forma como uma cidade reage a um sismo. Nos primeiros segundos, o instinto de sobrevivência. Depois, o silêncio dos escombros. E, por fim, a pergunta que a Colômbia faz hoje a si própria: estamos preparados para o que a terra ainda pode fazer?
San José del Palmar não escolheu ser o centro de nada. Mas foi ali, numa povoação de poucos milhares de habitantes, que a placa tectónica decidiu lembrar a um país inteiro a sua fragilidade. O resto, Pereira, Manizales, Cali, Quibdó, Bogotá, é apenas a onda que se propaga. E as ondas, essas, não escolhem quem atingem.