Cabo Verde é reconhecido como um país de emigrantes. Durante gerações, milhares de cabo-verdianos partiram à procura de trabalho, formação e melhores condições de vida. Mas o arquipélago também se tornou um território de chegada, sobretudo para cidadãos da África Ocidental.

Os resultados do V Recenseamento Geral da População e Habitação mostram que, em 2021, residiam no país 10.875 pessoas exclusivamente com nacionalidade estrangeira, correspondentes a 2,2% dos 491.233 habitantes recenseados.

A Guiné-Bissau representava a maior comunidade, com 3.663 cidadãos, equivalente a 33,7% da população estrangeira. Seguiam-se o Senegal, com 1.228 residentes, Portugal, com 1.085, a China, com 770, São Tomé e Príncipe, com 434, e a Nigéria, com 422. No total, 6.716 estrangeiros eram provenientes do continente africano, confirmando a forte dimensão regional da imigração cabo-verdiana. 

Estes números não incluem cidadãos naturalizados nem pessoas com dupla nacionalidade. O mesmo Censo concluiu que 94,7% dos residentes tinham apenas nacionalidade cabo-verdiana, 3% possuíam dupla nacionalidade e 0,05% eram apátridas.

Há, por isso, uma diferença importante entre população estrangeira e população imigrante. Quando o critério utilizado é o país de nascimento, e não a nacionalidade, o número de imigrantes registado em 2021 sobe para 18.562 pessoas, representando 3,8% da população residente.

A estimativa mais recente da Divisão de População das Nações Unidas aponta, por sua vez, para 16.515 migrantes internacionais residentes em Cabo Verde em 2024, aproximadamente 3,1% da população. O número não deve ser comparado diretamente com os 10.875 estrangeiros do Censo, porque corresponde a outro ano e utiliza uma metodologia diferente. 

A imigração concentra-se principalmente nos maiores centros urbanos e nas ilhas com maior atividade turística. Em 2021, a Praia acolhia 42% da população imigrante. Seguiam-se o Sal, com 15%, São Vicente, com 13%, Boa Vista, com 8%, e Santa Catarina de Santiago, com 5%.

Esta distribuição acompanha as oportunidades de trabalho. A capital concentra comércio, serviços e construção civil, enquanto o Sal e a Boa Vista atraem trabalhadores para o turismo, a restauração, a hotelaria e as obras associadas ao crescimento urbano.

O mais recente estudo oficial sobre integração social conclui que muitos imigrantes provenientes de países africanos trabalham no comércio informal e na construção civil. É também entre estes trabalhadores que se encontram algumas das situações mais desfavoráveis em matéria de habitação, rendimentos e condições de vida. II 

No concelho do Porto Novo, em Santo Antão, a maioria dos guineenses dedica-se ao comércio e à venda ambulante, segundo o empresário António Watna Embana, residente em Cabo Verde desde 2000. A sua própria experiência seguiu outro percurso: depois de trabalhar na Praia e no Sal, estabeleceu-se no Porto Novo, especializou-se na construção civil e criou uma empresa que emprega maioritariamente jovens cabo-verdianos.

Watna considera que a presença guineense na construção é mais expressiva nas ilhas do Sal e da Boa Vista. Em Santo Antão, onde os números são mais reduzidos, o comércio continua a ser a principal atividade da comunidade. 

O seu percurso mostra uma dimensão da imigração que as estatísticas nem sempre conseguem contar: a criação de emprego, a formação profissional, o empreendedorismo e a participação na vida social e política das comunidades de acolhimento.

Mas a integração não elimina todos os obstáculos. O estudo realizado com 642 imigrantes identificou dificuldades na obtenção de documentos, demora nos processos administrativos, precariedade laboral e problemas habitacionais. Embora a maioria tenha avaliado positivamente a integração no país, 16% dos inquiridos consideraram existir manifestações de racismo ou discriminação em Cabo Verde.

A formação profissional surge como uma das principais necessidades. Entre 452 pessoas que responderam a esta questão, 71% manifestaram vontade de frequentar uma formação em Cabo Verde. O dado mostra que uma parte significativa da população imigrante não procura apenas trabalho imediato, mas também qualificação e possibilidade de progressão.

A dimensão da imigração continua, ainda assim, muito abaixo da emigração cabo-verdiana. A estimativa das Nações Unidas para 2024 contabiliza 146.396 emigrantes originários de Cabo Verde, quase nove vezes mais do que os migrantes internacionais residentes no arquipélago. Este valor não inclui necessariamente todos os descendentes que integram a diáspora cabo-verdiana, razão pela qual algumas estimativas mais amplas apresentam números consideravelmente superiores. 

Cabo Verde continua a ser profundamente marcado pela partida. Mas também passou a ser um lugar onde milhares de pessoas chegam, trabalham, formam famílias, criam empresas e constroem uma nova vida. A imigração ainda representa uma pequena parcela da população, mas já faz parte da realidade económica e social do arquipélago.