A praga dos mil-pés continua a representar um dos mais persistentes problemas fitossanitários da agricultura cabo-verdiana, particularmente na ilha de Santo Antão, onde há cerca de cinco décadas compromete a produção agrícola e condiciona a comercialização de determinados produtos para outras ilhas do arquipélago.

A ministra da Agricultura e Desenvolvimento Rural, Eveline Ramos, afirmou esta segunda-feira, 26 de outubro, durante uma visita a Santo Antão, que o Governo mantém a cooperação com a República Popular da China como uma das principais apostas para encontrar soluções técnicas capazes de controlar a infestação.

Segundo a governante, uma missão técnica chinesa esteve recentemente na ilha para avaliar a situação e estudar possíveis formas de combate à espécie Bandeirenica caboverda. Está prevista uma segunda missão para dar continuidade ao trabalho desenvolvido.

Eveline Ramos reconheceu que a erradicação da praga não será possível a curto prazo, defendendo a continuidade da investigação e da experimentação de métodos que permitam reduzir os prejuízos causados aos agricultores.

Uma praga com raízes na década de 1970

Os primeiros registos da presença dos mil-pés em Santo Antão remontam à década de 1970. A disseminação da espécie transformou progressivamente o problema numa ameaça para os agricultores, sobretudo nas zonas de produção hortícola e de culturas alimentares.

Os mil-pés são diplópodes, artrópodes que se distinguem das centopeias. Embora muitas espécies desempenhem funções ecológicas importantes na decomposição de matéria orgânica, algumas podem provocar danos agrícolas quando atingem populações elevadas.

Em Santo Antão, a espécie identificada tem afetado culturas como a batata comum, a batata-doce, o milho, o feijão e a banana, com consequências na produção e na atividade económica das comunidades rurais.

A gravidade do problema levou as autoridades cabo-verdianas a impor, em 1984, restrições à circulação de produtos agrícolas provenientes da ilha, procurando evitar que a infestação se propagasse às restantes regiões agrícolas do país.

As limitações foram sendo parcialmente ajustadas. Em 2022, o Governo autorizou o escoamento de determinados produtos para o Sal e a Boa Vista, mantendo mecanismos de controlo fitossanitário.

Novos focos demonstram a persistência do problema

A expansão dos mil-pés tem sido motivo de preocupação entre os agricultores, particularmente no concelho do Porto Novo.

Em julho de 2025, produtores da zona de Morro Cavalo, na Ribeira da Cruz, alertaram para o alastramento da infestação naquele perímetro agrícola.

O presidente da associação local de agricultores, José Lima, confirmou nessa altura que o problema estava a atingir novas parcelas cultivadas, reduzindo o número de zonas ainda livres da praga.

A FAO assinalou igualmente a presença de mil-pés noutras ilhas, incluindo São Vicente e São Nicolau, reforçando a necessidade de vigilância fitossanitária. A confirmação da espécie e da extensão das infestações em cada ilha exige, contudo, acompanhamento técnico específico.

Cooperação chinesa procura transformar investigação em soluções

A participação da República Popular da China no combate aos mil-pés não começou agora.

Em setembro de 2024, uma equipa técnica chinesa realizou uma missão de aproximadamente uma semana a Santo Antão, acompanhada por especialistas nacionais, para avaliar a extensão do problema e recolher informações destinadas à elaboração de um plano de ação.

Na altura, o delegado do Ministério da Agricultura no Porto Novo, Joel Barros, explicou que o diagnóstico serviria de base à identificação de métodos adaptados às características ecológicas da ilha.

A cooperação prosseguiu com atividades de observação e investigação aplicada, envolvendo especialistas chineses na procura de soluções para a gestão de pragas agrícolas.

Entre os profissionais envolvidos encontra-se Deng Zhengrui, especialista em controlo biológico de pragas e doenças do solo, cuja colaboração foi anunciada no âmbito dos programas de cooperação Sul-Sul apoiados pela FAO.

A próxima missão deverá aprofundar os trabalhos já realizados e contribuir para a definição de medidas aplicáveis no terreno. Até ao momento, não são conhecidos resultados científicos conclusivos que permitam antecipar a eficácia das soluções em estudo.

FAO aposta na formação e na gestão integrada de pragas

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) tem participado nos esforços de capacitação técnica destinados a melhorar a resposta cabo-verdiana.

Em agosto de 2026, uma iniciativa desenvolvida em parceria com a China permitiu realizar, em Santo Antão, uma formação dirigida a agricultores, técnicos agrícolas e extensionistas.

A ação incidiu sobre a gestão integrada de pragas, uma abordagem que combina conhecimentos científicos, monitorização das populações, práticas agrícolas preventivas e métodos de controlo adequados a cada situação.

Esta estratégia procura reduzir a dependência de intervenções isoladas, permitindo que os produtores reconheçam precocemente situações de risco e adotem medidas ajustadas às condições locais.

A formação, concluída em 19 de agosto, integrou os programas de cooperação Sul-Sul destinados ao reforço das capacidades nacionais de resposta aos problemas agrícolas.

O peso económico de uma praga que limita o acesso aos mercados

As consequências dos mil-pés ultrapassam os prejuízos diretamente causados nas culturas.

Santo Antão possui uma importante tradição agrícola, beneficiando de vales férteis e de condições favoráveis à produção de diversos alimentos consumidos no arquipélago.

Contudo, as restrições fitossanitárias dificultaram durante décadas o escoamento de parte da produção para outros mercados nacionais, limitando as oportunidades comerciais dos agricultores.

A questão assume particular relevância perante o crescimento da procura alimentar associada à atividade turística em ilhas como o Sal e a Boa Vista.

A possibilidade de comercializar produtos agrícolas de Santo Antão nestes mercados pode representar novas oportunidades económicas, desde que existam garantias adequadas de segurança fitossanitária.

Em 2025, o Ministério da Agricultura informou que a rede de entrepostos agrícolas estava a contribuir para atenuar os efeitos das restrições comerciais.

Na cidade do Porto Novo foi igualmente construído um centro de expurgo e inspeção de produtos agrícolas, com um investimento anunciado de cerca de 80 mil contos cabo-verdianos, destinado a reforçar o tratamento e a preparação dos produtos para comercialização.

Estas infraestruturas podem facilitar o acesso aos mercados, mas não substituem as medidas de controlo nas explorações agrícolas.

Cinquenta anos depois, os agricultores aguardam resultados concretos

O caso de Santo Antão demonstra a dificuldade de responder a um problema fitossanitário que atravessa sucessivas gerações de produtores.

A cooperação com a China e a participação da FAO representam oportunidades de investigação e transferência de conhecimento, mas o seu impacto dependerá da capacidade de transformar esse trabalho em medidas eficazes e acessíveis aos agricultores.

Os resultados terão de ser avaliados pela redução dos prejuízos nas culturas, pela proteção das áreas ainda não infestadas e pela melhoria das condições de comercialização dos produtos agrícolas.

A continuidade das missões técnicas confirma que o problema permanece na agenda governamental. Falta, porém, conhecer um calendário operacional, os recursos previstos para implementar as soluções e os indicadores que permitirão avaliar os progressos alcançados.

Para Santo Antão, a resolução deste problema tem uma dimensão económica e social que ultrapassa o combate fitossanitário. Está em causa a valorização da produção agrícola, o rendimento das famílias rurais e a capacidade de uma ilha com reconhecido potencial agrícola participar plenamente no abastecimento alimentar do arquipélago.