A indicação foi dada em Milwaukee, nos Estados Unidos, à margem da reunião de ministros do Comércio do G20, num encontro com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa. Segundo a nota conjunta do Itamaraty e do ministério, Šefčovič referiu o resultado positivo da auditoria realizada recentemente no Brasil e afirmou que, cumpridos os trâmites burocráticos, os embarques poderão ser retomados. A decisão final caberá ao Comité Permanente de Plantas, Animais, Alimentos e Rações da Comissão Europeia.
A UE iniciou a 3 de setembro a suspensão da entrada de produtos de origem animal do Brasil nos seus 27 Estados-membros, abrangendo carnes bovina, de frango e suína, mel, pescado e ovos, com um impacto potencial de até 2 mil milhões de dólares por ano em exportações brasileiras. O veto formalizava uma decisão anunciada em maio, pela qual Bruxelas retirou o Brasil da lista de países aptos a cumprir as exigências europeias sobre o uso de antimicrobianos na produção animal.
O motivo foi regulatório, não sanitário no sentido clássico. A União Europeia não identificou casos de contaminação ou irregularidades sanitárias em lotes brasileiros. O que Bruxelas considerou não estar demonstrado foi um controlo suficiente do uso de antibióticos na criação dos animais. A medida coincidiu com a entrada em vigor do acordo Mercosul-UE e com protestos de agricultores europeus contra a concorrência sul-americana, o que dá ao dossiê uma dimensão política evidente.
No frango, os números ajudam a perceber a escala. O Brasil exportou 230 mil toneladas de carne de frango para a UE em 2025, cerca de 4,5% do volume total exportado pelo país. Os importadores europeus anteciparam compras e formaram stocks para atravessar a interrupção, o que amorteceu o impacto imediato.
O mel é um caso mais pequeno em valor, mas simbólico de um sector em crescimento. As exportações brasileiras para a UE dobraram no primeiro semestre de 2026, atingindo 6,3 milhões de dólares, segundo a Associação Brasileira dos Exportadores de Mel.
O Governo brasileiro tenta agora obter um procedimento acelerado também para a carne bovina. A expectativa manifestada na reunião de Milwaukee é que o tratamento dado às aves e ao mel possa estender-se a esta cadeia. Mas as exigências são outras: no caso bovino, a comprovação do controlo sanitário implica acompanhar todo o ciclo de vida do animal, do nascimento ao abate. Já em setembro, Bruxelas confirmara ter recebido garantias escritas para as cadeias de aves e mel, mas não para a bovina. A UE é um mercado que paga caro pela carne brasileira e, segundo o Rabobank, a suspensão aperta a oferta europeia e pode pressionar os preços, sobretudo no segmento premium.
Este episódio mostra que, no comércio internacional, a confiança é um activo que se constrói com rastreabilidade e prova documental, e que só se recupera por essa via. Para o Brasil, a retoma do frango e do mel será um primeiro teste de credibilidade. A carne bovina, com o seu ciclo de rastreio mais exigente, será a prova de fundo.