Dados da FAO indicam que a insegurança alimentar severa caiu para 0,6% entre 2023 e 2025. Cerca de 20,5 milhões de brasileiros recuperaram também capacidade financeira para aceder a uma alimentação saudável.

O Brasil consolidou a sua permanência fora do Mapa da Fome, segundo dados divulgados pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). A proporção da população sem acesso à quantidade mínima de calorias necessária para uma vida saudável manteve-se abaixo dos 2,5%, limite adotado pela organização para incluir um país nessa classificação.

A evolução representa uma redução superior a 91% relativamente aos três triénios anteriormente avaliados e confirma uma trajetória de melhoria nos principais indicadores de insegurança alimentar.

Entre 2021 e 2023, a insegurança alimentar severa atingia 6,6% da população brasileira. No período seguinte, entre 2022 e 2024, recuou para 3,4%, chegando a 0,6% no triénio 2023-2025.

A diferença torna-se ainda mais expressiva quando comparada com o período entre 2020 e 2022, durante o qual o indicador alcançou 8,5% da população — o valor mais elevado da série histórica da FAO. Na altura, aproximadamente 17,9 milhões de brasileiros enfrentavam situações graves de privação alimentar. No período mais recente, cerca de 16,7 milhões de pessoas terão deixado essa condição.

A insegurança alimentar severa é avaliada através da Escala de Experiência de Insegurança Alimentar, um instrumento internacional que identifica situações em que pessoas ou famílias deixam de ter acesso regular a alimentos em quantidade suficiente. Este indicador não é exatamente o mesmo utilizado na classificação do Mapa da Fome, embora ambos permitam acompanhar diferentes dimensões do problema alimentar.

Mais brasileiros conseguem pagar uma alimentação saudável

O relatório identifica também uma melhoria significativa no acesso económico a uma dieta considerada saudável.

Em 2021, cerca de 31,2% da população brasileira não dispunha de rendimentos suficientes para suportar esse tipo de alimentação. A percentagem caiu para 21,4% em 2024 e voltou a recuar ligeiramente, para 21,1%, em 2025.

Em termos absolutos, estima-se que aproximadamente 20,5 milhões de brasileiros tenham passado a conseguir financiar uma alimentação saudável, comparativamente com 2021. Apesar deste progresso, os dados mostram que mais de um quinto da população continua sem capacidade económica para manter regularmente uma dieta adequada.

A FAO estima que o custo médio de uma alimentação saudável no Brasil tenha atingido 4,89 dólares por pessoa e por dia, considerando a paridade do poder de compra. O valor ficou ligeiramente abaixo da média da América do Sul, calculada em 4,94 dólares, e da média da América Latina, estimada em 4,91 dólares.

A subida média do custo de uma dieta saudável foi de 3,7% entre 2023 e 2025, bastante inferior aos 9% registados entre 2020 e 2022. A metodologia tem em conta fatores como os rendimentos da população, o preço médio dos alimentos necessários para uma dieta equilibrada e as características demográficas de cada país.

Brasil avança num mundo ainda marcado pela fome

A evolução brasileira contrasta com a dimensão global do problema. Segundo o relatório, aproximadamente 645 milhões de pessoas passaram fome no triénio terminado em 2025, correspondendo a 7,8% da população mundial.

O resultado representa uma ligeira melhoria face aos 8,1% registados no período anterior, mas revela que a fome e a dificuldade de acesso a uma alimentação saudável continuam a afetar centenas de milhões de pessoas.

No Brasil, os números mostram um progresso substancial, tanto na redução das formas mais graves de insegurança alimentar como na capacidade económica das famílias para adquirir alimentos mais saudáveis. Contudo, a permanência de 21,1% da população sem meios para financiar uma dieta adequada evidencia que sair do Mapa da Fome não significa eliminar todas as formas de vulnerabilidade alimentar.