A história de Lisboa tem custos. Preservá-la exige recursos, conhecimento e, por vezes, tempo que os calendários das obras não contemplam.

Mas há uma diferença entre o custo de proteger o património e o custo de uma obra interrompida por razões que continuam por explicar.

Foi essa diferença que ganhou relevância na reunião pública da Câmara Municipal de Lisboa de 30 de setembro. Segundo a notícia da Lusa, a vereadora Joana Baptista reconheceu que a tuneladora do túnel entre Chelas e Beato já estava parada antes da descoberta dos vestígios arqueológicos. A responsável anunciou custos de 15 mil euros por dia e um acréscimo acumulado de aproximadamente quatro milhões de euros, sem esclarecer as razões da paragem anterior.

A admissão exige explicações. Quando começou a interrupção? Que problemas a provocaram? Que parte dos custos corresponde a cada causa? Como foi calculado o montante anunciado?

Enquanto estas perguntas não tiverem resposta, atribuir à arqueologia a explicação global do problema é politicamente conveniente, mas insuficiente para esclarecer os contribuintes.

Carlos Moedas defendeu a necessidade de estabelecer prazos para as intervenções arqueológicas ou de reforçar os recursos disponíveis. É legítimo exigir organização e previsibilidade. O vereador socialista Sérgio Cintra questionou, por sua vez, a preparação da empreitada e a eventual ausência de um plano de contingência. São questões de gestão que merecem resposta documental.

Proteger o dinheiro público também implica distinguir os custos inevitáveis dos que poderiam ter sido prevenidos.

Uma cidade antiga exige preparação

Lisboa não pode ser tratada como um terreno sem passado. A investigação arqueológica documenta, na colina do Castelo de São Jorge, uma sequência de ocupação da Idade do Ferro que remonta, pelo menos, ao século VII a.C., com contactos com o mundo fenício.

Convém, contudo, evitar confusões: 1200 a.C. não significa que uma cidade tenha 1200 anos. Essa data corresponderia a aproximadamente 3200 anos de antiguidade. Também não é rigoroso atribuir a Lisboa uma posição numa lista das cidades mais antigas do mundo sem definir se estamos a falar de vestígios de ocupação humana, de formação urbana ou de continuidade de povoamento.

A defesa do património dispensa esses rankings. O que existe, o que está documentado e o que ainda pode ser descoberto já justifica cuidado.

Numa cidade com esta profundidade histórica, o risco arqueológico deve integrar a preparação das intervenções no subsolo. Nem todas as descobertas podem ser antecipadas. Ainda assim, essa incerteza deve ser considerada no planeamento, nos contratos e na capacidade de resposta quando surgem vestígios.

O Plano Geral de Drenagem é necessário para reduzir a exposição de Lisboa às cheias e inundações. A sua importância torna ainda mais exigente a responsabilidade de o executar com competência. A urgência da obra não dispensa a proteção do património; obriga a preparar melhor a relação entre ambos.

Roma mostra o valor de integrar os achados

Roma foi invocada no debate autárquico como exemplo dos atrasos associados à arqueologia. Mas a experiência romana também permite observar o que se ganha quando os vestígios são estudados e integrados nas novas infraestruturas.

Na estação San Giovanni, da linha C do metropolitano, as escavações revelaram estruturas de uma exploração agrícola da época imperial. O projeto incorporou peças e informação arqueológica nos espaços utilizados pelos passageiros, transformando a estação num lugar onde a mobilidade quotidiana convive com a história da cidade.

Esse exemplo não demonstra que preservar seja simples ou barato. Demonstra que o resultado de uma obra pode incluir o conhecimento e a valorização do passado encontrado durante a sua execução.

Lisboa deve procurar soluções adequadas aos seus próprios achados. Para isso, precisa de equipas, meios e decisões sustentadas em avaliação técnica. A pressão política sobre os prazos não substitui esse trabalho.

A memória urbana também inclui perdas mais recentes. O Cine-Teatro Monumental, inaugurado em 1951 e demolido em 1984, desapareceu da Praça do Saldanha. A sua história permanece como exemplo de um espaço cultural que a cidade deixou de poder conservar na forma original.

Na Rua António Maria Cardoso, a memória tem outra gravidade. Ali, agentes da PIDE/DGS mataram quatro pessoas no dia 25 de Abril de 1974. A placa evocativa colocada por cidadãos em 1980 assinala esse acontecimento. Em 2024, a Câmara voltou a homenagear as vítimas no local, com informação ligada ao Museu do Aljube.

Estes casos pertencem a épocas e circunstâncias diferentes. Recordam, porém, que preservar a cidade envolve escolhas sobre edifícios, vestígios e acontecimentos que merecem permanecer acessíveis à memória coletiva.

No caso de Chelas, a responsabilidade do executivo presidido por Carlos Moedas é concreta: apresentar a cronologia das interrupções, discriminar os custos e explicar as medidas tomadas para retomar os trabalhos com respeito pelas exigências patrimoniais.

Os lisboetas precisam da obra de drenagem. Precisam igualmente de saber por que razão ela parou e o que estão a pagar. A arqueologia não pode servir de explicação para aquilo que a própria Câmara admite ter começado antes dos achados.