Há qualquer coisa profundamente inquietante numa economia que consegue celebrar os seus indicadores financeiros enquanto milhões de pessoas continuam a fazer contas para chegar ao fim do mês.

É essa contradição que hoje atravessa a Argentina de Javier Milei.

O Governo conseguiu reduzir  uma inflação que durante anos destruiu salários, poupanças e previsibilidade económica. Esse resultado existe e ignorá-lo seria intelectualmente desonesto. Em agosto de 2026, a inflação mensal estava em 1,7%. Mas, no mesmo período, a cesta básica alimentar e a cesta básica total aumentaram 2,6%, acima da inflação geral. Para uma família de baixos rendimentos, é esta diferença que chega primeiro à mesa.

Os números da pobreza contam outra parte da história.

Depois de atingir 52,9% no primeiro semestre de 2024, a pobreza desceu para 28,2% no segundo semestre de 2025. Foi uma recuperação importante. Contudo, os últimos dados do INDEC mostram uma inversão: no primeiro semestre de 2026, 32,3% dos argentinos dos 31 aglomerados urbanos analisados estavam novamente abaixo da linha da pobreza e 7,5% encontravam-se em situação de indigência.

Não estamos perante o colapso social que alguns anunciaram quando Milei chegou ao poder, mas também estamos longe do sucesso económico quase redentor que outros procuram vender.

A discussão interessante começa justamente aí.

O programa de Milei colocou o equilíbrio orçamental no centro da ação política. Cortou despesa pública, reduziu subsídios, congelou ou suspendeu investimentos e procurou retirar ao Estado uma parte significativa do papel que historicamente desempenhava na economia argentina. O orçamento de 2026 continua, em termos reais, cerca de 24,6% abaixo do orçamento aprovado pelo Congresso para 2023, apesar de recuperar alguma despesa em áreas sociais.

A austeridade permitiu melhorar as contas públicas e contribuiu para a estabilização macroeconómica, mas o custo dessa transformação não é uma abstração contabilística.

Encontra-se nos rendimentos, nas tarifas dos serviços públicos, no endividamento das famílias e na insegurança laboral. A Reuters relatou este ano um forte crescimento do incumprimento no crédito às famílias, num contexto em que salários reais fragilizados e aumento das tarifas de serviços públicos continuam a pressionar os orçamentos domésticos.

O desemprego atingiu 7,9% no segundo trimestre de 2026. A atividade económica recuou 2,9% em julho relativamente ao mês anterior, em termos dessazonalizados. A indústria transformadora caiu 3,2% em agosto face ao mesmo mês do ano anterior e a construção perdeu 4,4%.

Ao mesmo tempo, a mineração cresceu 8,4%. Este contraste merece atenção porque diz muito sobre o modelo económico que começa a ganhar forma.

A Argentina possui aquilo que o século XXI voltou a transformar em poder: lítio, cobre, petróleo, gás e um território extraordinariamente rico em recursos naturais. 

Vaca Muerta tornou o país uma potência potencial em hidrocarbonetos não convencionais. O noroeste argentino integra, com a Bolívia e o Chile, o chamado triângulo do lítio. O cobre voltou a atrair grandes grupos internacionais.

É impossível separar esta transformação económica da aproximação de Milei aos Estados Unidos de Donald Trump.

Durante demasiado tempo, essa relação foi explicada quase exclusivamente pela afinidade ideológica entre os dois presidentes. Há afinidade, naturalmente. Mas por baixo das fotografias, dos discursos contra a esquerda e das convergências culturais existe uma relação económica bastante mais concreta.

Washington precisa de recursos estratégicos. E a Argentina tem-nos.

A Administração Trump assumiu formalmente que a disponibilidade de minerais críticos é uma questão de segurança nacional norte-americana. A política dos Estados Unidos procura reduzir a dependência de cadeias de fornecimento dominadas pela China e aproximar minerais, energia e produção estratégica de países aliados.

Não estamos perante uma interpretação da esquerda latino-americana. Estamos perante a política declarada de Washington.

Em setembro, tornou-se conhecido que o Export-Import Bank dos Estados Unidos prepara até 7 mil milhões de dólares para financiar projetos de minerais críticos e energia na Argentina.

Os projetos deverão envolver setores como lítio, cobre, petróleo e gás e, simultaneamente, favorecer a aquisição de equipamentos norte-americanos.

O secretário do Tesouro, Scott Bessent, foi ainda mais explícito ao defender o uso do poder financeiro dos Estados Unidos como instrumento de política externa. Segundo afirmou, Washington pretende criar aliados no hemisfério ocidental e a Argentina foi o primeiro grande exemplo dessa estratégia.

Quando um responsável norte-americano fala desta forma, vale a pena ouvir exatamente o que está a dizer.

A América Latina regressou ao centro da disputa geopolítica mundial.

Durante grande parte do século XX, foram o petróleo, o cobre, os alimentos e outras matérias-primas que atraíram as grandes potências. Agora acrescentaram-se o lítio, as terras raras e os minerais necessários às baterias, à inteligência artificial, às redes elétricas, à indústria de defesa e à transição energética.

A linguagem mudou. A lógica de poder permanece reconhecível.

Isto não significa que investimento estrangeiro seja sinónimo de exploração nem que a presença de empresas norte-americanas prejudique necessariamente a Argentina. Seria uma simplificação pouco útil. Capital, tecnologia e mercados internacionais podem contribuir para desenvolver infraestruturas, criar emprego e financiar uma industrialização que o país dificilmente conseguiria suportar sozinho.

A questão progressista contemporânea é outra: que desenvolvimento será construído com esses recursos e quem ficará com o valor que eles produzem?

Porque extrair lítio não é o mesmo que fabricar baterias.

Exportar cobre não é o mesmo que controlar as tecnologias que o utilizam.

Produzir petróleo não garante educação de qualidade, bons salários ou proteção social.

Um país pode aumentar extraordinariamente as suas exportações e continuar a produzir desigualdade. A América Latina conhece demasiado bem esta história.

É precisamente por isso que o debate sobre soberania já não pode limitar-se à velha ideia de nacionalizar tudo ou entregar tudo ao mercado. Uma política progressista moderna precisa de discutir participação pública, fiscalidade justa, transformação local das matérias-primas, transferência tecnológica, direitos laborais, proteção ambiental, desenvolvimento das comunidades onde os recursos são extraídos e investimento em educação e ciência.

Caso contrário, muda-se apenas a matéria-prima enquanto se conserva o mesmo modelo. Ontem saíam prata, açúcar, café, cobre ou petróleo. Amanhã poderão sair lítio, hidrogénio, cobre e minerais críticos. A tecnologia muda muito mais depressa do que as relações económicas entre o centro e a periferia.

Milei parece acreditar que a abertura do país ao grande capital internacional permitirá romper décadas de estagnação. É uma hipótese económica legítima, mas ainda por demonstrar socialmente.

A pergunta não é se os investidores vão ganhar dinheiro na Argentina. Se os projetos forem rentáveis, é precisamente isso que se espera deles.

A pergunta é quanto dessa riqueza ficará no país e até onde chegará.

Chegará às escolas públicas? Aos hospitais? Aos salários? À ciência argentina? À habitação? À infraestrutura necessária para que uma criança nascida numa família pobre disponha de condições reais para mudar de vida?

Ou veremos uma Argentina muito competitiva para extrair recursos e pouco capaz de transformar essa riqueza em mobilidade social? Os atuais 32,3% de pobreza tornam essa pergunta impossível de adiar.

Trump, por sua vez, não esconde a prioridade dada aos interesses norte-americanos. Faz parte da própria natureza da sua política externa. O problema para a América Latina começa quando os seus governos entram nessa relação sem uma estratégia igualmente clara para defender os seus próprios interesses.

Uma relação entre países profundamente assimétricos nunca é neutra.

Quando de um lado estão o dólar, o sistema financeiro, grandes multinacionais, tecnologia e poder militar e, do outro, jazidas minerais, energia e economias necessitadas de capital, a liberdade contratual existe formalmente, mas o poder negocial não está distribuído da mesma maneira.

A Argentina pode aproveitar esta nova corrida aos recursos para financiar uma transformação produtiva extraordinária. Ou pode tornar-se mais uma vez fornecedora de matérias-primas estratégicas para uma potência que pretende garantir a sua própria prosperidade e segurança.

O mesmo dilema atravessa grande parte da América Latina.

Um pensamento progressista para este século não pode limitar-se a denunciar os Estados Unidos nem a romantizar o Estado latino-americano. Precisa de construir capacidade própria, conhecimento, indústria, integração regional e instituições capazes de negociar com os grandes interesses económicos sem subordinar o desenvolvimento às necessidades das potências.

Esse talvez seja o debate que falta quando se fala do “milagre” económico de Milei.

A inflação pode cair, as contas públicas podem equilibrar-se e os investidores podem regressar. Tudo isso tem valor. Mas desenvolvimento é outra coisa.

Enquanto um em cada três argentinos permanecer abaixo da linha da pobreza, qualquer celebração estará, no mínimo, incompleta. E se as riquezas que hoje atraem Washington saírem da Argentina sem alterar essa realidade, o problema deixará de ser apenas saber se Milei conseguiu estabilizar uma economia.

Será perceber para quem ela foi estabilizada.