Como se calcula o futuro de uma jovem que encontra numa escola a possibilidade de escolher um caminho diferente?
E que valor atribuímos à dignidade de uma pessoa idosa que passa a viver num espaço com melhores condições de assistência e habitabilidade?
Nem tudo o que verdadeiramente transforma uma comunidade cabe numa folha de cálculo.
Entre 2017 e 2025, as empresas dos setores dos recursos minerais, petróleo e gás concluíram em Angola mais de mil projetos de responsabilidade social, num investimento superior a 666 milhões de dólares.
Os números impressionam.
Revelam escala, capacidade de mobilização e uma crescente consciência de que a atividade económica deve contribuir para o desenvolvimento das comunidades onde está presente.
Contudo, os números contam apenas uma parte da história.
A outra parte encontra-se nas vidas que esses investimentos podem transformar.
Na província da Huíla, a revitalização da Maternidade Irene Neto, avaliada em 12 milhões de dólares, contribuiu para melhorar as condições de assistência médica.
Em Cabinda, a reabilitação e o apetrechamento da Maternidade 1.º de Maio representaram um investimento de 7,53 milhões de dólares.
Durante a pandemia da COVID-19, foram instaladas fábricas de oxigénio medicinal e criadas infraestruturas destinadas a reforçar a capacidade hospitalar.
Podemos olhar para estes projetos como edifícios, equipamentos e investimentos.Mas também podemos vê-los através dos olhos de quem deles necessita.
Por detrás de uma maternidade reabilitada existe uma mulher que procura segurança num dos momentos mais importantes e vulneráveis da sua vida.
Por detrás de uma fábrica de oxigénio existe a possibilidade de respirar.Por detrás de cada equipamento hospitalar existe um profissional de saúde com melhores condições para cuidar de outra pessoa.
É aqui que o investimento começa a transformar-se em sustentabilidade humana.
Não quando a infraestrutura é inaugurada, mas quando passa a proteger a vida, o bem-estar e a dignidade de quem a utiliza.
Na educação, os investimentos permitiram construir, reabilitar e equipar estabelecimentos de ensino, assim como reforçar a rede de ensino superior.
Entre os projetos apresentados encontram-se o Campus da Universidade Lueji A’Nkonde, no Dundo, e o Instituto Politécnico de Saurimo, na Lunda-Sul.
Uma escola pode ser construída em meses ou anos.
O impacto da educação, porém, atravessa gerações.
Uma sala de aula não contém apenas mesas, cadeiras e equipamentos. Contém possibilidades que ainda não conseguimos medir: uma futura professora, um engenheiro, uma investigadora, uma empreendedora ou um líder que poderá transformar a sua comunidade.
No Moxico, o Internato Feminino Santa Isabel passou a assegurar escolaridade, formação profissional e aprendizagem de artes e ofícios para cerca de 70 raparigas em cada ciclo académico.
O significado deste projeto não se esgota no número de beneficiárias.
Cada jovem que adquire conhecimento e competências aumenta a sua capacidade de fazer escolhas, conquistar autonomia e participar de forma mais ativa na sociedade.
Quando se educa uma jovem, não se altera apenas o seu presente.
Altera-se a relação que ela poderá ter com o trabalho, com a família, com a comunidade e com o seu próprio futuro.
A educação é, por isso, uma das expressões mais profundas da sustentabilidade: produzir hoje uma transformação cujos resultados continuarão a multiplicar-se muito depois de terminado o investimento inicial.
Em Malanje, a construção e o apetrechamento do Lar de Idosos da Maxinde criaram melhores condições de assistência e habitabilidade para mais de 70 utentes.
Este exemplo recorda-nos que o desenvolvimento não pode concentrar-se apenas nas gerações que irão produzir economicamente no futuro.
Uma sociedade sustentável também cuida de quem já contribuiu para a sua construção.
A forma como tratamos as pessoas mais vulneráveis revela muito sobre os valores que orientam as nossas decisões.
É neste ponto que a sustentabilidade se encontra com a liderança ética.
Liderar eticamente é reconhecer que nem todas as decisões devem ser tomadas apenas com base no retorno financeiro imediato. Algumas decisões precisam de ser tomadas porque protegem a dignidade, reduzem desigualdades e representam aquilo que consideramos justo.
Não significa ignorar a eficiência, os resultados ou a sustentabilidade económica.
Significa compreender que o desenvolvimento perde o seu sentido quando deixa as pessoas para trás.
Os projetos de desenvolvimento comunitário apresentados incluem ainda uma fábrica de leite de soja em Saurimo, concebida para apoiar programas de merenda escolar e contribuir para a segurança alimentar das comunidades.
No desporto e na juventude, o programa Jr. NBA Angola promove a prática do basquetebol, o desenvolvimento de competências para a vida e o interesse pelas áreas da Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática.
Estes projetos possuem uma característica importante: podem ultrapassar a lógica da assistência pontual e criar condições para o desenvolvimento de capacidades.
Existe uma diferença entre ajudar uma comunidade e criar condições para que essa comunidade se fortaleça. A primeira resposta pode resolver uma necessidade imediata. A segunda constrói autonomia.
A responsabilidade social atinge a sua expressão mais elevada quando as comunidades deixam de ser vistas apenas como beneficiárias e passam a ser reconhecidas como participantes do processo de desenvolvimento.
Isso implica escutar antes de decidir. Compreender antes de intervir. Envolver as pessoas na identificação das suas prioridades. Valorizar o conhecimento local. Formar competências que permitam dar continuidade aos projetos.
E avaliar não apenas aquilo que foi construído, mas aquilo que efetivamente mudou na vida das pessoas.
Construir uma escola, uma maternidade ou um lar é uma realização importante. Mas a Sustentabilidade Ativa começa com uma pergunta adicional:
O que acontecerá depois da inauguração?
Uma infraestrutura só produz transformação quando existem pessoas preparadas para a utilizar, recursos para a manter, processos que garantam o seu funcionamento e uma comunidade que reconheça nela uma resposta às suas necessidades.
A Sustentabilidade Ativa não é um acontecimento isolado. É um ciclo contínuo de escuta, decisão, ação, avaliação, aprendizagem e melhoria. Não se limita a demonstrar que uma empresa fez alguma coisa. Procura compreender se aquilo que foi feito continua a criar valor.
É nesta passagem do investimento para o impacto que a liderança ética se torna indispensável.
Uma liderança ética não pergunta apenas quanto foi investido. Pergunta quem participou na decisão. Quem foi verdadeiramente beneficiado.
Que necessidades foram respondidas. Que capacidades ficaram instaladas. Que resultados podem ser demonstrados. E o que precisa de ser corrigido para que o impacto seja duradouro.
Colocar estas questões não diminui o mérito dos investimentos realizados. Pelo contrário, protege-os e amplia o seu significado.
Os mais de mil projetos concluídos entre 2017 e 2025 representam um compromisso relevante dos setores dos recursos minerais, petróleo e gás com as comunidades angolanas.
A dimensão do investimento merece ser reconhecida.
O desafio seguinte consiste em continuar a transformar essa capacidade financeira numa transformação humana mensurável, participada e duradoura.
Porque os recursos naturais são finitos.
Uma mina pode chegar ao fim da sua vida produtiva. Um poço pode deixar de produzir.As máquinas podem um dia ficar em silêncio.Mas uma criança que recebeu educação pode ensinar outras.
Uma jovem que conquistou autonomia pode transformar uma família.Um profissional que adquiriu competências pode desenvolver uma comunidade.
Uma vida protegida pode continuar a proteger outras vidas.
A verdadeira riqueza não é apenas aquela que retiramos do solo.É aquela que permanece no território, cresce nas pessoas e continua a gerar valor depois de terminada a extração.