A nova edição da Liga das Nações ainda não começou e um dos seus grupos já está muito longe de ser apenas uma questão de futebol.

 

Israel estreia-se esta quinta-feira, 24 de setembro, frente à Áustria e integra o Grupo B3 juntamente com a República da Irlanda e o Kosovo. A seleção israelita disputará seis encontros entre setembro e novembro, incluindo dois particularmente sensíveis frente à Irlanda, marcados para 27 de setembro e 4 de outubro.

É precisamente na véspera do início da competição que a Amnistia Internacional volta a colocar uma pergunta incómoda à UEFA e à FIFA: até onde pode o desporto separar-se da atuação política de um Estado?

Para a organização, a resposta é clara. A participação de Israel não deveria decorrer como se nada estivesse a acontecer.

Steve Cockburn, diretor regional da Amnistia Internacional para a Europa, considera “inadmissível” que a seleção israelita participe na Liga das Nações enquanto a Federação Israelita de Futebol mantém nas competições nacionais clubes sediados em colonatos no Território Palestiniano Ocupado. A organização sustenta que esta situação é incompatível com os próprios estatutos da FIFA e defende há vários meses a suspensão da federação israelita.

A questão dos colonatos não assenta apenas na posição da Amnistia. No parecer consultivo de julho de 2024, o Tribunal Internacional de Justiça considerou ilegal a presença continuada de Israel no Território Palestiniano Ocupado e afirmou que Israel deve cessar imediatamente novas atividades de colonização.

Para a Amnistia, permitir que a seleção continue normalmente nas competições internacionais significa oferecer a Israel um palco de prestígio num momento em que a organização acusa as autoridades israelitas de graves violações dos direitos humanos dos palestinianos. A Amnistia utiliza, nomeadamente, as qualificações de apartheid e genocídio para caracterizar diferentes aspetos das políticas e operações israelitas. Israel rejeita a acusação de genocídio e afirma que a sua campanha militar visa o Hamas e não a população civil palestiniana.

É precisamente aqui que o futebol deixa de conseguir fugir à política.

A história do desporto internacional está cheia de momentos em que federações e organizações tiveram de decidir se a neutralidade desportiva podia sobreviver a conflitos, ocupações, guerras ou violações graves do direito internacional. A discussão atual sobre Israel coloca novamente UEFA e FIFA perante esse velho dilema: pode uma organização desportiva limitar-se a dizer que administra futebol quando as suas próprias competições têm consequências políticas e simbólicas?

A Amnistia entende que não.

Na formulação de Steve Cockburn, o desporto não deve transformar-se num instrumento de relações públicas para Estados acusados de cometer atrocidades. A organização considera que permitir a Israel continuar a competir sem consequências contribui para normalizar uma situação que denuncia como contrária ao direito internacional.

A Irlanda tornou-se o centro da contestação

É provavelmente na Irlanda que esta tensão se tornou mais visível.

A Federação de Futebol da Irlanda apresentou à UEFA um pedido para que fosse considerada a suspensão de Israel das competições europeias. Paralelamente, jogadores, ativistas, sindicatos, artistas e figuras políticas associaram-se a iniciativas que contestam a realização dos encontros com a seleção israelita.

Os dois jogos Irlanda-Israel tornaram-se, por isso, partidas muito pouco normais.

O encontro de 27 de setembro, oficialmente considerado jogo “em casa” de Israel, será realizado em Debrecen, na Hungria. O de 4 de outubro, que deveria ser disputado pela Irlanda no seu território, foi transferido para Bačka Topola, na Sérvia. A Federação Irlandesa confirmou que este último decorrerá à porta fechada.

O futebol continua no calendário, mas foi deslocado geograficamente e afastado das bancadas precisamente porque a dimensão política já entrou no relvado.

UEFA mantém Israel em competição

Até agora, a UEFA não suspendeu a seleção israelita. O calendário oficial mantém Israel no Grupo B3, com jogos frente a Áustria, Irlanda e Kosovo até 17 de novembro.

Também a FIFA decidiu, em março, não avançar com medidas contra a Federação Israelita relativamente à participação de clubes sediados nos colonatos, segundo a Amnistia Internacional. A Federação Palestiniana de Futebol levou entretanto a questão ao Tribunal Arbitral do Desporto.

É neste ponto que a discussão ultrapassa claramente o futebol.

Quando as organizações desportivas internacionais sancionam federações, autorizam bandeiras, mudam estádios, transferem jogos por razões de segurança ou determinam quem pode participar nas suas competições, já estão a tomar decisões com consequências que vão muito além dos noventa minutos.

A questão, portanto, não é saber se a política deve ou não entrar no futebol.

Ela já está lá.

A questão é saber que critérios são aplicados, a quem são aplicados e com que coerência.

E é precisamente essa coerência que a Amnistia Internacional está agora a colocar em causa.

O futebol costuma apresentar-se como uma linguagem capaz de aproximar povos que a política separa. Essa talvez seja uma das suas maiores virtudes. Mas a mesma ideia perde força quando aquilo que acontece fora dos estádios é simplesmente colocado entre parênteses para que o espetáculo possa continuar.

É possível defender que atletas e adeptos não devem responder pelas decisões dos governos. Também é possível sustentar que federações desportivas não podem ignorar indefinidamente violações do direito internacional quando os seus próprios regulamentos estão em causa.

É aí que está o verdadeiro debate.

Não no resultado entre Israel e Áustria, Irlanda ou Kosovo.

Mas na pergunta muito maior que acompanha estes jogos:

até onde pode o futebol continuar a declarar-se neutro quando o mundo à sua volta deixou há muito de o ser?