É precisamente na véspera do início da competição que a Amnistia Internacional volta a colocar uma pergunta incómoda à UEFA e à FIFA: até onde pode o desporto separar-se da atuação política de um Estado?
Para a organização, a resposta é clara. A participação de Israel não deveria decorrer como se nada estivesse a acontecer.
Steve Cockburn, diretor regional da Amnistia Internacional para a Europa, considera “inadmissível” que a seleção israelita participe na Liga das Nações enquanto a Federação Israelita de Futebol mantém nas competições nacionais clubes sediados em colonatos no Território Palestiniano Ocupado. A organização sustenta que esta situação é incompatível com os próprios estatutos da FIFA e defende há vários meses a suspensão da federação israelita.
A questão dos colonatos não assenta apenas na posição da Amnistia. No parecer consultivo de julho de 2024, o Tribunal Internacional de Justiça considerou ilegal a presença continuada de Israel no Território Palestiniano Ocupado e afirmou que Israel deve cessar imediatamente novas atividades de colonização.
Para a Amnistia, permitir que a seleção continue normalmente nas competições internacionais significa oferecer a Israel um palco de prestígio num momento em que a organização acusa as autoridades israelitas de graves violações dos direitos humanos dos palestinianos. A Amnistia utiliza, nomeadamente, as qualificações de apartheid e genocídio para caracterizar diferentes aspetos das políticas e operações israelitas. Israel rejeita a acusação de genocídio e afirma que a sua campanha militar visa o Hamas e não a população civil palestiniana.
É precisamente aqui que o futebol deixa de conseguir fugir à política.
A história do desporto internacional está cheia de momentos em que federações e organizações tiveram de decidir se a neutralidade desportiva podia sobreviver a conflitos, ocupações, guerras ou violações graves do direito internacional. A discussão atual sobre Israel coloca novamente UEFA e FIFA perante esse velho dilema: pode uma organização desportiva limitar-se a dizer que administra futebol quando as suas próprias competições têm consequências políticas e simbólicas?
A Amnistia entende que não.
Na formulação de Steve Cockburn, o desporto não deve transformar-se num instrumento de relações públicas para Estados acusados de cometer atrocidades. A organização considera que permitir a Israel continuar a competir sem consequências contribui para normalizar uma situação que denuncia como contrária ao direito internacional.
É provavelmente na Irlanda que esta tensão se tornou mais visível.
A Federação de Futebol da Irlanda apresentou à UEFA um pedido para que fosse considerada a suspensão de Israel das competições europeias. Paralelamente, jogadores, ativistas, sindicatos, artistas e figuras políticas associaram-se a iniciativas que contestam a realização dos encontros com a seleção israelita.
Os dois jogos Irlanda-Israel tornaram-se, por isso, partidas muito pouco normais.
O encontro de 27 de setembro, oficialmente considerado jogo “em casa” de Israel, será realizado em Debrecen, na Hungria. O de 4 de outubro, que deveria ser disputado pela Irlanda no seu território, foi transferido para Bačka Topola, na Sérvia. A Federação Irlandesa confirmou que este último decorrerá à porta fechada.
O futebol continua no calendário, mas foi deslocado geograficamente e afastado das bancadas precisamente porque a dimensão política já entrou no relvado.
Até agora, a UEFA não suspendeu a seleção israelita. O calendário oficial mantém Israel no Grupo B3, com jogos frente a Áustria, Irlanda e Kosovo até 17 de novembro.
Também a FIFA decidiu, em março, não avançar com medidas contra a Federação Israelita relativamente à participação de clubes sediados nos colonatos, segundo a Amnistia Internacional. A Federação Palestiniana de Futebol levou entretanto a questão ao Tribunal Arbitral do Desporto.
É neste ponto que a discussão ultrapassa claramente o futebol.
Quando as organizações desportivas internacionais sancionam federações, autorizam bandeiras, mudam estádios, transferem jogos por razões de segurança ou determinam quem pode participar nas suas competições, já estão a tomar decisões com consequências que vão muito além dos noventa minutos.
A questão, portanto, não é saber se a política deve ou não entrar no futebol.
Ela já está lá.
A questão é saber que critérios são aplicados, a quem são aplicados e com que coerência.
E é precisamente essa coerência que a Amnistia Internacional está agora a colocar em causa.
O futebol costuma apresentar-se como uma linguagem capaz de aproximar povos que a política separa. Essa talvez seja uma das suas maiores virtudes. Mas a mesma ideia perde força quando aquilo que acontece fora dos estádios é simplesmente colocado entre parênteses para que o espetáculo possa continuar.
É possível defender que atletas e adeptos não devem responder pelas decisões dos governos. Também é possível sustentar que federações desportivas não podem ignorar indefinidamente violações do direito internacional quando os seus próprios regulamentos estão em causa.
É aí que está o verdadeiro debate.
Não no resultado entre Israel e Áustria, Irlanda ou Kosovo.
Mas na pergunta muito maior que acompanha estes jogos:
até onde pode o futebol continuar a declarar-se neutro quando o mundo à sua volta deixou há muito de o ser?