Com 17 espetáculos, quatro conversas pós-espetáculo, três workshops, uma masterclass, uma conferência e uma festa, o festival propõe uma experiência cultural que ultrapassa os espaços convencionais de apresentação artística. Durante 17 dias, teatros, museus e centros culturais de Lisboa serão ocupados por diferentes linguagens, experiências e perspetivas sobre a sociedade.
A edição de 2026 assume uma dimensão particularmente significativa num período marcado por conflitos internacionais, transformações sociais e debates sobre identidade, pertença e liberdade. A programação reúne trabalhos que abordam estas questões através do corpo, da memória, da música e da experimentação cénica.
Para David Cabecinha, codiretor artístico do festival, esta edição nasce da necessidade de dar expressão às inquietações coletivas e de preservar os espaços de encontro e criação.
O responsável sublinha que o programa é atravessado pela «urgência de dar forma ao que nos inquieta e ao que nos entusiasma», mas também pelo desejo de imaginar outras possibilidades de futuro.
Um dos momentos de maior interesse para o público lusófono será a apresentação de Please, Love Me!, da atriz e criadora cabo-verdiana Cleo Diára.
O espetáculo, agendado para 27, 28 e 29 de novembro, no Teatro do Bairro Alto, assinala a primeira criação individual da artista para teatro e propõe uma reflexão sobre o amor, a condição da mulher negra cabo-verdiana e as relações de poder numa sociedade marcada por estruturas patriarcais.
Distinguida com um prémio de interpretação no Festival de Cannes de 2025, segundo a organização, Cleo Diára apresenta uma proposta que coloca experiências pessoais e questões de identidade no centro da linguagem teatral.
A sua participação assume particular relevância pela possibilidade de projetar narrativas cabo-verdianas num circuito internacional de criação contemporânea, contribuindo para ampliar a visibilidade de artistas que trabalham entre diferentes territórios culturais.
A presença da atriz no Alkantara insere-se numa programação onde as questões de género, as heranças culturais e as experiências das comunidades africanas e das diásporas encontram espaço de expressão.
O festival abre a 13 de novembro, na Sala Garrett do Teatro Nacional D. Maria II, com a estreia absoluta de Menos, espetáculo que marca a despedida da companhia portuguesa Cão Solteiro, após 29 anos de atividade.
Criada em colaboração com André Godinho, a produção reúne intérpretes, criadores e elementos da equipa técnica num exercício cénico que culmina com o esvaziamento do palco. A proposta transforma o encerramento de um percurso artístico numa reflexão sobre a passagem do tempo, a memória coletiva e os ciclos de criação.
No mesmo dia, o Teatro do Bairro Alto recebe Haribo Kimchi, do artista sul-coreano Jaha Koo, uma criação que recorre ao humor, ao absurdo e à melancolia para explorar as contradições da pertença cultural.
Entre as estreias mundiais destaca-se Shikama, de Dorothée Munyaneza & Companhia, que será apresentado no Centro de Arte Moderna Gulbenkian. A obra reúne três intérpretes e um violoncelo numa exploração da procura de estabilidade e de raízes perante as turbulências da existência.
Outro destaque é Espiões – Apocalypse How, projeto coreográfico de Filipa Francisco que regressa numa terceira edição, agora sob direção artística de Sónia Baptista.
A programação internacional inclui ainda Save the Last Dance for Me, de Alessandro Sciarroni, Quando vi o mar, de Ali Chahrour, e Dzudza, do coreógrafo moçambicano Idio Chichava.
A presença de criadores de diferentes origens evidencia uma das características do Alkantara: proporcionar o contacto entre práticas artísticas que emergem de realidades sociais distintas, sem as subordinar a uma linguagem estética única.
A diversidade de geografias representadas no festival merece especial atenção, sobretudo pela presença de artistas cujos trabalhos dialogam com histórias africanas, experiências migratórias e processos de reconstrução identitária.
A artista Muna Mussie apresenta Cinema Impero, uma performance que utiliza imagens de arquivo para revisitar referências históricas associadas à Eritreia. O título remete para o cinema construído pelo regime fascista italiano, na década de 1930, em Asmara, evocando as marcas da presença colonial e a relação entre memória e representação.
Do universo cultural marroquino chega Ch’ttahh, de Bilal El Had, uma criação centrada no Chaabi, expressão musical e de dança popular que o artista recupera como elemento de memória e afirmação cultural.
O espetáculo será apresentado no Centro Cultural de Belém, entre 20 e 22 de novembro.
A ligação ao continente africano estende-se a Mali Futuro Live, uma colaboração entre Rimini Protokoll, Théâtre Vidy-Lausanne e Les Praticables, que chega à Culturgest nos dias 21 e 22 de novembro.
Estas propostas permitem observar como as artes performativas contemporâneas se relacionam com questões de herança histórica, transformação social e circulação de culturas.
A organização reserva também uma parte significativa da programação para atividades que aproximam artistas e público.
Estão previstas quatro conversas pós-espetáculo, com a participação de criadores como Dorothée Munyaneza, Bilal El Had, Sónia Baptista e Ali Chahrour.
A Culturgest acolherá uma conferência com Carolina Bianchi e Gabriela Moita, dedicada à violência exercida sobre as mulheres e às formas de resistência e transformação desenvolvidas nos espaços públicos e privados.
Os workshops gratuitos, mediante inscrição, serão orientados por Ali Chahrour, Idio Chichava e Inés Sybille Vooduness. Está igualmente prevista uma masterclass com Stefan Kaegi, da companhia Rimini Protokoll, dirigida a estudantes e profissionais das artes performativas.
O festival procura, deste modo, criar condições para que os espetáculos possam continuar a gerar reflexão depois de terminada a apresentação.
A Casa Independente será o Ponto de Encontro do Alkantara Festival 2026, acolhendo oito noites de programação com curadoria de DIDI.
Entre performances, sessões de DJ, karaoke e encontros com comunidades Drag e Ballroom, este espaço pretende promover o convívio entre artistas, públicos e diferentes comunidades culturais da cidade.
A proposta reconhece a importância dos espaços informais na circulação de ideias e na criação de relações entre pessoas com percursos e experiências distintas.
Ao reunir artistas de Portugal, Cabo Verde, Brasil, Moçambique, Marrocos, Eritreia, Líbano e outros países, o Alkantara Festival 2026 apresenta uma programação que reflete a diversidade das artes performativas contemporâneas e a sua capacidade de dialogar com questões políticas, culturais e humanas.
A presença de criadores africanos e lusófonos adquire especial interesse num contexto em que se discute a representatividade cultural e o acesso a plataformas internacionais de criação e circulação artística.
Para Cabo Verde, a participação de Cleo Diára constitui uma oportunidade de dar maior visibilidade internacional a uma expressão artística que aborda diretamente a experiência da mulher cabo-verdiana, colocando-a em diálogo com públicos e criadores de outras geografias.
O festival encerra a 29 de novembro, depois de mais de duas semanas de espetáculos, encontros e experiências que convidam o público a confrontar diferentes perspetivas sobre a realidade contemporânea.
A edição de 2026 deixa, desde logo, uma proposta cultural clara: reconhecer nas artes performativas um território de liberdade criativa, onde experiências individuais e coletivas podem encontrar novas formas de representação e diálogo.
Informações úteis: O Alkantara Festival decorre de 13 a 29 de novembro de 2026, em vários espaços culturais de Lisboa. Os bilhetes estão disponíveis nas bilheteiras dos respetivos locais de apresentação. Existem descontos para diferentes públicos e atividades de participação gratuita, algumas sujeitas a inscrição ou reserva.
Foto de destaque: @ JUCA SCHINDLER alkantara.pt
Programa completo e informações: alkantara.pt