O Afeganistão enfrenta uma das mais graves crises humanitárias do mundo, num cenário marcado pela deterioração das condições económicas, aumento da fome e intensificação das restrições impostas às mulheres e meninas pelo regime talibã.

O alerta foi lançado durante uma sessão do Conselho de Segurança das Nações Unidas, onde representantes da ONU denunciaram uma realidade de crescente fragilidade social escondida sob uma aparente estabilidade política.

Segundo um novo relatório apresentado às Nações Unidas, apesar de as autoridades talibãs terem consolidado o controlo territorial e administrativo desde o regresso ao poder, em 2021, a situação humanitária continua a agravar-se dramaticamente.

Atualmente, 21,9 milhões de pessoas necessitam de assistência humanitária no Afeganistão em 2026, colocando o país entre os mais vulneráveis do planeta.

A responsável da Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão (UNAMA), Georgette Gagnon, alertou que a aparente estabilidade vivida no país mascara problemas estruturais profundos.

“Existe uma sensação de estabilidade, mas ela esconde desafios económicos, sociais e humanitários muito graves”, defendeu a representante da ONU.

Mulheres e meninas privadas de direitos básicos

Um dos aspetos mais alarmantes do relatório prende-se com a situação das mulheres e meninas afegãs, que continuam a enfrentar restrições severas ao acesso à educação, ao trabalho, à mobilidade e à participação na vida pública.

Desde que o Talibã proibiu o ensino secundário feminino, mais de um milhão de meninas foram privadas do direito à educação, enquanto se estima que 3,8 milhões de raparigas entre os sete e os 18 anos estejam fora da escola em 2026.

As restrições impostas às mulheres não têm apenas impacto social e humano — afetam diretamente a economia do país, enfraquecendo setores fundamentais como a saúde, a educação e os serviços sociais.

A fundadora do Arquivo de Justiça do Afeganistão, Metra Mehran, classificou a situação como um:

“Sistema de opressão de género institucionalizada.”

Segundo Mehran, desde 2021, o regime talibã promulgou mais de 230 decretos que limitam ou eliminam direitos fundamentais das mulheres e meninas.

Entre as restrições encontram-se:

  • proibição de acesso à educação secundária e superior;
  • limitações ao emprego;
  • restrições à liberdade de circulação;
  • impedimentos à participação pública;
  • reforço do controlo sobre a autonomia individual feminina.

A especialista denunciou ainda que um novo Código de Processo Penal terá formalizado práticas discriminatórias, legitimando violência, intimidação e detenções de mulheres que resistam às imposições do regime.

Segundo a denúncia apresentada na ONU, as mulheres passam a estar sujeitas a um enquadramento legal que as reduz à dependência dos maridos e limita severamente a sua liberdade individual.

Prisões e repressão agravam tensão social

Desde o início deste mês, a UNAMA registou mais de 30 detenções de mulheres e dezenas de advertências verbais relacionadas com alegadas violações do código de vestuário imposto pelas autoridades talibãs.

Na cidade de Herat, a terceira mais populosa do país, manifestações contra detenções arbitrárias terminaram em violência, com pelo menos uma pessoa morta a tiro e vários feridos, após intervenção das forças de segurança.

Os incidentes reforçam as preocupações internacionais sobre o agravamento das violações dos direitos humanos no país.

Fome cresce e famílias recorrem a medidas desesperadas

A crise humanitária está também a agravar dramaticamente a insegurança alimentar.

Segundo Edem Wosornu, diretora da Divisão de Resposta a Crises do Escritório das Nações Unidas para a Assistência Humanitária, 4,7 milhões de pessoas enfrentam atualmente insegurança alimentar crítica, representando um aumento de 50% face ao ano anterior.

A situação deteriorou-se ainda mais devido ao reacender dos confrontos na fronteira com o Paquistão, que provocaram o deslocamento de mais de 100 mil pessoas, deixando várias comunidades isoladas e sem assistência durante semanas.

Ao mesmo tempo, o regresso em massa de cidadãos ao país está a aumentar a pressão sobre estruturas já profundamente fragilizadas.

Desde 2023, cerca de 5,9 milhões de afegãos regressaram ao país, e a ONU estima que mais 2,8 milhões possam regressar ainda este ano, apesar da escassez de oportunidades e das limitações económicas existentes.

Perante o agravamento da fome e da pobreza extrema, a ONU relata casos de famílias que recorrem a medidas desesperadas para sobreviver, incluindo a venda de meninas, uma prática associada ao colapso económico e social.

As restrições impostas às mulheres continuam igualmente a dificultar operações humanitárias no terreno, limitando o acesso de equipas de ajuda às populações mais vulneráveis.

O relatório apresentado ao Conselho de Segurança reforça assim a preocupação crescente da comunidade internacional sobre o futuro do Afeganistão, num momento em que milhões de pessoas permanecem dependentes de ajuda externa, enquanto mulheres e meninas continuam privadas de direitos humanos básicos.

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