A Câmara Municipal de Lisboa já foi notificada pelo Tribunal Administrativo para responder à intimação judicial apresentada por Renata Cambra, uma das participantes na acampada de protesto pelo direito à habitação realizada na Praça D. Pedro IV, no Rossio.

Segundo informação avançada esta segunda-feira pela TSF, a notificação chegou à autarquia no final da manhã de 26 de outubro, começando a contar a partir desse momento o prazo de 48 horas concedido pelo tribunal para a apresentação de uma resposta.

A iniciativa judicial procura assegurar a continuidade da concentração até 25 de novembro de 2026, data prevista para a votação final global do Orçamento do Estado para 2027, procurando impedir que as autoridades interrompam o protesto ou procedam à remoção das tendas e dos bens utilizados pelos manifestantes.

Manifestante recorre à Justiça para proteger a continuidade do protesto

Renata Cambra, fundadora do partido Trabalhadores Unidos, apresentou a intimação em nome individual, invocando a proteção de direitos, liberdades e garantias constitucionalmente consagrados.

O pedido foi apresentado na semana passada e admitido pelo Tribunal Administrativo de Lisboa, que determinou que o Estado português, através do Ministério da Administração Interna (MAI), e a Câmara Municipal de Lisboa fossem chamados a pronunciar-se sobre as pretensões da requerente.

A manifestante pretende que seja reconhecido o direito de permanecer na concentração mediante condições concretas: a ocupação deve ficar circunscrita à Praça D. Pedro IV, decorrer pacificamente, respeitar o silêncio entre a meia-noite e as 06h30 e garantir a circulação de peões e o acesso dos serviços de emergência.

A intimação solicita ainda que as autoridades policiais e municipais se abstenham de impedir, interromper ou dispersar a concentração, bem como de desmontar ou apreender as tendas e outros bens que a integram.

Ministério da Administração Interna contesta pretensões da manifestante

O processo judicial surge num contexto de crescente tensão entre os movimentos pelo direito à habitação e as autoridades responsáveis pela manutenção da ordem pública.

De acordo com informações divulgadas pelo Observador, o Ministério da Administração Interna já apresentou uma posição desfavorável ao pedido, argumentando que impedir previamente a atuação das forças policiais poderia comprometer as suas competências de segurança e fiscalização.

O ministério invoca preocupações relacionadas com a higiene, a saúde pública, a proteção civil e a utilização do espaço público, considerando que uma decisão judicial com os efeitos pretendidos poderia limitar a intervenção das autoridades perante situações de risco.

A posição do MAI contrasta com a argumentação apresentada pela manifestante, que entende que a instalação das tendas constitui uma parte integrante da expressão do protesto contra a crise da habitação.

O tribunal terá agora de ponderar os direitos de reunião e manifestação, por um lado, e as competências legalmente atribuídas às autoridades para garantir a segurança e o uso do espaço público, por outro.

Direito à manifestação e intervenção policial sob escrutínio judicial

A controvérsia ultrapassa a questão da permanência das tendas no Rossio.

A Constituição da República Portuguesa protege, no artigo 45.º, os direitos de reunião e manifestação pacíficas, sem armas, estabelecendo que o seu exercício não depende de autorização prévia.

Estes direitos coexistem, contudo, com outros interesses juridicamente protegidos, incluindo a segurança de pessoas e bens, a liberdade de circulação e o cumprimento das normas aplicáveis à utilização dos espaços públicos.

A discussão jurídica centra-se, por isso, na proporcionalidade das restrições que podem ser impostas e nas circunstâncias que permitem a intervenção das autoridades.

A admissão da intimação pelo tribunal não significa que os pedidos da manifestante tenham sido aceites. Representa apenas o reconhecimento de que existem condições processuais para apreciar a questão.

Decisão poderá clarificar limites da atuação das autoridades

A resposta da Câmara Municipal de Lisboa constitui mais uma etapa de um processo que poderá ajudar a clarificar as condições jurídicas de realização de protestos prolongados em espaços públicos.

Para os movimentos que defendem o direito à habitação, o recurso aos tribunais procura garantir que as concentrações possam prosseguir sem intervenções consideradas injustificadas.

Para as autoridades, está também em causa a possibilidade de assegurar o cumprimento das regras de segurança, higiene e utilização dos espaços comuns.

Independentemente da decisão que venha a ser tomada, o processo evidencia a relevância dos mecanismos de fiscalização judicial da atuação administrativa num Estado de direito democrático.

A questão submetida ao tribunal é concreta: determinar se, nas condições apresentadas pela requerente, a concentração pode continuar até ao final do debate orçamental sem ser impedida ou desmantelada pelas autoridades.

A resposta terá de resultar da apreciação dos factos e das normas aplicáveis, incluindo os direitos fundamentais dos manifestantes e os deveres legais das entidades públicas.