Mas antes de ser ponte, fui conflito.
Não escondo o meu passado: cheguei como língua imposta, cercado de decretos, escolas rígidas e castigos que silenciavam as línguas da terra. Vi o kimbundu, o umbundu, o kikongo e tantas outras vozes serem reprimidas, afastadas das salas de aula, das igrejas, dos registos oficiais. Fui usado para apagar nomes, rituais, cantos, modos de viver. E confesso: carrego um certo peso por isso. Mas também sei que, ao ser tocado por essas línguas que tentaram calar, fui transformado por elas. Elas entraram em mim como quem reivindica espaço, memória e dignidade. Hoje, quando olho para trás, sintome dividido entre a culpa da imposição e o orgulho da reinvenção. Sou, ao mesmo tempo, testemunha da violência e prova da resistência. E é por isso que, em Angola, não posso falar sem ouvir as línguas que me moldaram.
E há um momento em que gosto de me exibir.
Abro uma passerelle imaginária e deixo desfilar as palavras que Angola inventou e o mundo lusófono adoptou com gosto. Entra primeiro o bué, estrela absoluta, a caminhar com a confiança de quem já conquistou Lisboa, Maputo, Praia e até o TikTok. Logo atrás vem o bazar, elegante e versátil, capaz de significar tudo e mais alguma coisa. Depois surge o cota, com passo firme de respeito, seguido do banga, que brilha como acessório indispensável. O kumbu aparece discreto, mas todos sabem que é ele quem paga o evento. O bwe, primo do bué, desfila com leveza. O mambo fecha a passerelle com estilo, porque tudo pode ser mambo -problema, assunto, vida, conversa, destino. E eu, língua angolana, sorrio: estas palavras são a minha moda, a minha marca, a minha identidade em circulação global.
Mas antes de ser moda, fui resistência – e aí ganhei a minha cidadania angolana.
Fui voz clandestina na mata, sopro de unidade entre combatentes que vinham do Kwanza Norte e do Bié, do Uíge e do Huambo, do Moxico e do Zaire, cada um trazendo a sua língua materna, o seu ritmo, o seu mundo. Fui ponte entre o kimbundu e o umbundu, entre o kikongo e o iwoyo, entre todas as línguas que Angola falava antes de ser Angola. Nas noites longas da guerrilha, quando o país ainda era sonho e ferida, fui eu quem permitiu que mensagens cruzassem rios, matas e montanhas; fui eu quem alinhavou estratégias, quem uniu povos que nunca antes tinham conversado na mesma língua. Na luta de resistência e na luta de libertação nacional, torneime mais do que um instrumento: torneime pátria falada. E foi nesse fogo que deixei de ser apenas português – passei a ser Português Angolano, língua de combate, de esperança e de futuro.
Falo com o balanço do semba, porque a música ensinoume a caminhar. As minhas frases não andam –dançam. Têm cintura, têm ginga, têm aquele jeito de quem sabe que a vida é dura, mas não perde a graça. Quando digo «estou já agora», não é pressa: é ritmo. Quando digo «estou a vir», não é distância: é promessa. Quando digo «é só mesmo», não é pouco: é afecto.
Sou língua que se cozinha. Sim, cozinhase uma língua –e a minha sabe a muamba, a calulu, a pirão de peixe, a ginguba torrada. Há palavras que só se entendem com o paladar: kizaca, makas, kota, bwe, banga. Cada uma traz um sabor, uma temperatura, uma memória. Sou língua que se mastiga devagar, que se saboreia, que se partilha como prato grande ao centro da mesa.
E houve quem me estudasse com amor e rigor.
Entre esses nomes, guardo com reverência o da Professora Amélia Mingas, que me escutou como quem escuta uma nascente a formarse. Foi ela quem, na sua comunicação intitulada “O Português em Angola: Reflexões”, apresentada no VIII Encontro das Universidades de Língua Portuguesa, em Macau, em 1998, afirmou que, para compreender o português falado em Angola, era preciso olhar para mim “sob um ponto de vista endógeno”, verme não apenas na relação com as línguas da terra, mas também como língua resultantedesse contacto. Nas suas reflexões, lembrava que o encontro entre o português e as línguas angolanas é “dinâmico” e produz “interferências bilaterais”, gerando alterações fonéticas, fonológicas, lexicais e morfosintácticas que dão origem a “uma nova realidade linguística”, ainda embrionária, mas já com rosto próprio. E acrescentava, com a lucidez que só os grandes mestres têm, “que o português angolano se tornaria, seguramente, a língua segunda dos angolanos, sobrepondose ao português padrão”. Eu, que sou essa língua em transformação, carrego nela a memória da sua investigação: cada palavra que digo recordame que não sou erro, nem desvio – sou processo vivo, sou angolanização, sou o que acontece quando uma língua aprende a ouvir o chão que pisa.
Eu sou o Português Angolano a que, um dia, quem sabe, chamarão angolano ou angolês. Sou a prova de que as línguas não se impõem – transformamse. Sou o testemunho de que os povos não se anulam – dialogam. Sou a certeza de que Angola não fala apenas português –Angola recriao.
E enquanto houver semba, enquanto houver crianças a inventar mundos, enquanto houver memória de Amélia Mingas a iluminar o caminho, continuarei a crescer, a mudar, a surpreender – sempre com esta ginga que é só minha.
*Texto desenvolvido pelo autor, com refinamento de IA.