Confucio  considerado um dos pensadores mais influentes de todos os tempos, reflexão sobre a velhice que continua circulando séculos depois com a mesma força de quando foi dita pela primeira vez: “A velhice é algo bom e agradável. É verdade que somos gentilmente retirados do palco, mas depois recebemos um lugar tão confortável na primeira fila como espectadores.”Neste tempo  que trata o envelhecimento quase como problema a ser combatido, essa frase propõe uma inversão completa de perspectiva.

É exatamente essa narrativa que a reflexão de Confúcio interrompe.

O filósofo que passou décadas ensinando sobre harmonia, sabedoria e o valor da experiência acumulada não poderia ter uma visão negativa sobre o processo pelo qual toda vida humana passa se for suficientemente longa.

Para o confucionismo, o ancião não é alguém que ficou para trás. É alguém que chegou ao momento  da observação que os mais jovens ainda não alcançaram.

A filosofia de Confúcio é construída tendo como base a harmonia familiar, o respeito filial e a transmissão de sabedoria entre gerações.

Ele atuou como professor, conselheiro político e administrador, defendendo a importância da harmonia social, da justiça e da benevolência", disse  à BBC News Brasil o professor Belmiro do Nascimento João, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

João acentua  que os ensinamentos de Confúcio, "focados na ética, na moral e na organização social" se baseiam em cinco princípios: ren, li, xiao, zhong e shu.

Respectivamente, ele traduz esses pontos como benevolência, rito, piedade filial, lealdade e reciprocidade.

Nesse sistema, os mais velhos não são fardos nem figuras decorativas, sao sim  a memória viva da comunidade, os guardiões de um conhecimento que só o tempo produz e que nenhum atalho substitui.

A experiência acumulada ao longo de décadas gera um tipo de julgamento que a inteligência jovem, por mais brilhante que seja, nao consegue desenvolver.

O ancião ao  observar  o

Mundo na sua  primeira fila deteta  padrões que quem está no meio da ação não consegue perceber.

A sabedoria confuciana entende que cada fase da vida tem um papel específico, e nenhum é superior ao outro sendo sim  complementares.

Exigir muito de si mismo e esperar pouco dos outros, como o próprio Confúcio ensinava, é uma lição que a velhice aplica naturalmente, com menos esforço do que na juventude.

A trajetória do filósofo após décadas como funcionário público, ministro e viajante que percorreu a China por 14 anos tentando instruir governantes e discípulos, Confúcio retornou à sua cidade natal aos 68 anos. Não para se aposentar no sentido contemporâneo da palavra, mas para concentrar seus últimos anos no ensino e na edição dos textos clássicos que formariam a base do pensamento chinês por séculos.

Na verdade saiu do palco da política e da administração pública e assumiu um lugar na primeira fila da transmissão cultural e o seu trabalho foi, ironicamente, o de maior impacto duradouro.

Os Analetos, a compilação de seus diálogos e ensinamentos, foram organizados nesse período. A primeira fila, no caso de Confúcio, resultou em obra que ainda é lida mais de dois mil anos depois.

A reflexão sobre a velhice faz parte de uma visão coerente sobre a vida como processo de acumulação e transmissão, onde cada fase tem dignidade própria e nenhuma deve ser vivida com vergonha ou resistência.

Nela Confúcio não pede resignação nem pretende minimizar o que se perde com o tempo propõe sim algo mais sofisticado: um reenquadramento completo do que significa envelhecer, que substitui a narrativa de perda por uma narrativa de chegada a um ponto de vista privilegiado.