Cada centro deve ter uma equipa multidisciplinar, formada por médicos especialistas em reprodução assistida, embriologistas, enfermeiros, psicólogos, e outros profissionais de saúde.

Em Portugal existem 10 centros de PMA públicos, e cerca de 18 privados distribuídos pelas zonas Norte, Centro, Grande Lisboa e Madeira,

A escolha de uma clínica privada depende unicamente da decisão da mulher ou do casal.

Cristina Hickman, que é embriologista, foi gerente da Ovom Care durante algum tempo, mas saiu em novembro de 2024, em conflito com os administradores, gestores de capital de risco, a quem agora responsabiliza pelo "colapso da Ovom Care".

Para a médica, "o capital de risco pode transformar os cuidados de fertilidade. Mas, sem liderança clínica experiente, governança responsável e uma abordagem que priorize o paciente, são os pacientes que, em última análise, arcam com o risco".

"A Ovom Care  selecionou a Ananda Impact Ventures e a Alpha Intelligence Capital como investidoras-anjo, com a Merantix Capital como investidora pré-anjo e incubadora. Com o tempo, porém, surgiram diferenças fundamentais de valores em relação à forma como eu, como profissional da saúde, acreditava que a empresa deveria ser administrada. Lutei arduamente por uma abordagem que priorizasse o paciente. Essas diferenças levaram à minha saída em 2024", denunciou  Cristina Hickman, sublinhando que o que aconteceu nesses dois anos após a sua saída "levanta questões que o setor de fertilidade não pode e não deve ignorar".

A 31 de agosto, dia em que o DN noticiou o encerramento da clínica, a especialista lembrou num texto que "os tratamentos de fertilidade não são apenas mais um negócio financiado por capital de risco" e que "os pacientes confiam a uma clínica algo profundamente precioso: a chance de terem um filho".

"Os seus embriões, óvulos e espermatozoides não são simplesmente ativos num balanço patrimonial. Representam anos de esperança, dinheiro, tratamento e, para alguns, a última oportunidade de se tornarem pais", realçou, defendendo que as "empresas podem falir", os "investidores podem perder dinheiro" mas "os pacientes não devem arcar com as consequências de como essa falência é administrada".

Além das famílias afetadas pelo fecho da clínica de fertilidade de Cascais, Cristina Hickman recordou que também "excecionais profissionais da área de fertilidade foram deixados à própria sorte, sem qualquer aviso prévio. Médicos. Enfermeiros. Embriologistas. Cientistas. Equipes de atendimento ao paciente. Pessoas que dedicaram anos ao cuidado de pacientes de repente se viram sem respostas sobre tratamentos em andamento, pacientes, embriões, operações de laboratório e até mesmo seus próprios empregos".

"Não tomaram as decisões financeiras que levaram a empresa a essa situação. No entanto, foram deixados para arcar com as consequências", evidenciou.

Ora, "não é a primeira vez que uma clínica de fertilidade apoiada por capital de risco fracassa" e deixa os pacientes em desalento, pelo que a  embriologista defende que a lei tem de mudar.

"Se já vimos isso acontecer mais do que uma vez, devemos parar de tratar esses casos como falências isoladas de empresas e começar a reconhecer uma lacuna sistémica na forma como as insolvências no setor de fertilidade são geridas", enfatizou, pedindo que a experiência da Ovom Care sirva de "catalisador" para essa mudança, "transformando a proteção do paciente numa exigência".

Para Cristina Hickman, o investimento na área de fertilidade é necessário e essencial mas "acarreta uma responsabilidade diferente da de investir em muitos outros setores".

"É um investimento na vida das pessoas. Se o dinheiro se torna mais importante do que os interesses dos pacientes, são estes que pagam a conta. Isso não é inovação. É engenharia financeira aplicada a pessoas vulneráveis. Invista em fertilidade. Mas invista de forma ética. Invista em inovação que agregue valor aos pacientes. Invista em liderança clínica experiente. Invista em negócios sustentáveis. Invista em governação. Invista na proteção do paciente. Meça os resultados para o paciente, não apenas a receita", denunciou  na publicação onde identifica um a um os membros do conselho de administração da Ovom Care Gmbh, assim como as empresas de capital de risco que gerem: Adrian Locher, Terry Chou, Arnaud Barthelemy e Zoe Peden; as empresas são a Merantix, a Alpha Intelligence Capital e a Ananda Impact Ventures.

A britânica pede assim aos investidores que antes de aplicar o dinheiro façam "uma pergunta simples: 'O que acontecerá com os nossos pacientes se ficarmos sem dinheiro amanhã?' Se a empresa não tiver uma resposta convincente, não está pronta para receber investimentos'".

"A fertilidade é demasiado importante para ser tratada apenas como mais uma categoria de investimento de alto crescimento. Pacientes não são receitas. Embriões não são ativos. O atendimento clínico não é uma folha de cálculo", salientou, deixando uma palavras aos pacientes da Ovom Care: "Estou completamente devastada por estarem a passar por isso".

"Quando uma clínica de fertilização in vitro falha, as pessoas que confiaram nela a possibilidade de ter um filho devem ser as primeiras a serem ressarcidas. Esse é o padrão que devemos exigir. Dos fundadores. Dos conselhos administrativos. Dos investidores. Dos órgãos reguladores. De todos nós", concluiu.

Entretanto, a médica falou com o Diário de Notícias e revelou que a Ovom Care fez "uma punção [retirada de óvulos] a uma mulher nas vésperas de fecharem portas". "É inacreditável", disse, mostrando-se chocada.

De acordo com ela, "a empresa-mãe [da Ovom Care] também já abriu ou vai abrir falência, assim como, decerto, as empresas pessoais das duas gestoras": a financeira alemã Felicia Von Reden e a norte-americana, que se apresenta como obstetra, ginecologista e embriologista, Lynae Brayboy, com as quais fundou a Ovom Care.

E, com isso, a ação judicial que levantou contra a administração da clínica, na Alemanha, "vai terminar".

Porém, para a médica, "a responsabilidade não pode desaparecer assim - muito menos em relação às pacientes da clínica. Até porque isto não foi uma surpresa para a gerência". "Há dois anos, já sabiam que o dinheiro ia acabar. Havia 4,8 milhões de euros à partida e o planeamento financeiro tornava claro que só dava para dois anos. Só que a forma como esta empresa estava a ser gerida não tem em atenção os pacientes. É gerida com mentalidade de capital de risco", explicou.

A especialista admitiu que gostava de resgatar a empresa. "Estou a trabalhar para isso, tenho verba para viabilizar e estou a ver se é possível comprar e remontar a clínica, porque quero apoiar a equipa médica, que é muito boa e está de rastos, e ajudar as pacientes, cuja situação me partiu o coração. Mandei uma carta para o Conselho Nacional de Procriação Medicamente assistida [o regulador da área] e os meus advogados estão a falar com o administrador de insolvência", anunciou.

Indistiu ainda na  importância de mudar a lei que regula este tipo de negócios.

Para Cristina, esta tragédia devia ser vista, pelas autoridades portuguesas, como uma oportunidade de repensar as leis que regem os "negócios da saúde" e que pode colocar o país na vanguarda no que respeita à proteção efetiva dos pacientes e à regulação de um mercado que, considera, não pode funcionar como outro qualquer.

"Portugal pode inovar neste assunto. A lei tem de mudar, desde logo em algo tão básico como aquilo que é imposto aos bancos: nunca podem gastar até ao último cêntimo, têm de assegurar determinados níveis financeiros, para que os clientes não fiquem sem nada. Aqui deve acontecer o mesmo: o dinheiro que as pessoas pagam por um tratamento tem de estar disponível, seguro. Talvez tenha de haver mesmo seguros, de seguradora, para este tipo de tratamento - como para por exemplo quimioterapia: não é aceitável que alguém pague esse tratamento numa clínica, esta entre em falência e não possa continuar a ser tratado", sustentou.

Entretanto, ontem, terça-feira, 1 de setembro, a Ovom Care também deixou um texto sobre o assunto no Linkedin Na publicação, a clínica garante que o "material biológico e os registos" dos pacientes estão a ser transferidos para a Clínica AVA, em Lisboa", a quem estão "extremamente gratos".

Apesar disso, lembram que o processo não vai sair de graça aos pacientes que já tinham pago os tratamentos. A AVA Clinic apenas "concordou em continuar os tratamentos em andamento a um preço reduzido".

A empresa destacou ainda o facto de "a transferência ser da responsabilidade do administrador de insolvência e supervisionada pela CNPMA".

E, embora não tenha explicado de uma forma detalhada o processo de insolvência, confidenciou que "entre outros fatores", o financiamento que planearam não teve o desempenho "esperado e, sem ele, não podiam "continuar a operar a clínica com segurança".