Por Alcina Maria da Silva Parreira
Li o número duas vezes. Porque 48.395 não é um indicador para um relatório — é uma multidão de percursos. São pessoas que entraram numa sala de formação com dúvidas e ambições, e que dela saíram mais preparadas para assumir uma função, resolver um problema, operar uma tecnologia ou decidir com mais segurança.
Essa formação percorreu domínios tão diversos como controlo de poços, soldadura e caldeiraria, formação marítima, lapidação e avaliação de diamantes, programação e tecnologias digitais. Em todos eles existe a mesma intenção: reduzir a distância entre o potencial das pessoas e as competências de que o sector precisa.
No mesmo período, instituições e empresas do sector concederam 6.463 bolsas de estudo e promoveram 520 estágios curriculares e profissionais. São dados que contam uma história de continuidade. Primeiro, abre-se uma porta para aprender. Depois, cria-se a oportunidade de experimentar. Por fim, espera-se que o conhecimento se converta em desempenho, inovação e valor para Angola.
Como bolseira do MIREMPET, conheço o alcance humano dessa decisão. Uma bolsa não financia apenas propinas, deslocações ou livros — transmite uma mensagem silenciosa a quem a recebe: acreditamos no teu potencial e esperamos que o coloques ao serviço de algo maior do que ti.
Foi esta ligação entre pessoas, responsabilidade e futuro que orientou a investigação que desenvolvi sobre liderança ética, sustentabilidade e motivação dos colaboradores no sector mineiro angolano. Dela ficou uma convicção: nenhuma estratégia se torna verdadeiramente sustentável se as pessoas que a executam não forem preparadas, valorizadas e envolvidas.
Podemos dispor de recursos minerais de elevada importância, reservas de petróleo e gás, infra-estruturas e tecnologia de ponta. Mas são os profissionais que interpretam dados, aplicam normas, previnem riscos, protegem o ambiente, lideram equipas e transformam recursos naturais em valor económico e social. É aqui que começa, de facto, o conteúdo local: na capacidade de fazer com que o conhecimento permaneça, circule e cresça dentro do país.
Por isso, a formação não deve ser entendida como uma actividade administrativa ou uma simples rubrica de investimento. É uma infra-estrutura invisível. Não aparece numa fotografia aérea, não se mede em quilómetros — mas sustenta tudo o que uma organização pretende construir. Quando essa infra-estrutura é sólida, as instituições decidem melhor, adaptam-se mais depressa e geram mais confiança.
O relatório prova o trabalho realizado. Cabe à comunicação estratégica dar-lhe rosto, voz e memória.
Contar esta história é acompanhar quem recebeu uma bolsa, regressou ao país e passou a aplicar o que aprendeu. É mostrar como um estágio aproximou um jovem da sua primeira oportunidade profissional. É revelar o que mudou numa equipa depois de uma formação técnica — que problema passou a resolver-se internamente, que nova responsabilidade pôde ser confiada a um quadro angolano.
A boa comunicação institucional não substitui o rigor pela emoção. Faz algo mais exigente: dá sentido humano ao rigor. Um relatório diz-nos quanto foi feito. Uma narrativa estratégica ajuda a sociedade a compreender por que foi feito, quem foi transformado e que futuro se tornou possível. Os números constroem credibilidade; as histórias fazem com que essa credibilidade seja lembrada.
A próxima etapa poderá, assim, passar não apenas por formar mais, mas por acompanhar e comunicar melhor o impacto da formação. Quantas competências adquiridas estão hoje a ser aplicadas? Quantos percursos profissionais avançaram? Quantas soluções, melhorias ou novas lideranças nasceram dessas oportunidades? Responder a estas perguntas é transformar resultados anuais num legado institucional visível.
O meu próprio percurso ensinou-me que um diploma só ganha pleno sentido quando o conhecimento se converte em serviço: em decisões mais conscientes, lideranças mais éticas, práticas mais sustentáveis e uma comunicação capaz de aproximar a instituição das pessoas.
Hoje, quando leio 48.395, não vejo uma estatística anónima. Vejo Angola a construir o seu futuro, uma competência de cada vez. O subsolo pode oferecer petróleo, gás e minerais. Mas são as pessoas preparadas que transformam esses recursos em oportunidades, instituições e bem-estar.
Porque a riqueza mais decisiva de um país não é apenas aquela que se extrai. É aquela que se forma.
Alcina Parreira
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Fonte: MIREMPET Insight, Ano 5, Edição n.º 105, 16 de Julho de 2026, pp. 6-7.