A quinta-feira, 1 de outubro de 2026, terminou com um acontecimento que merece atenção: a Globo cancelou o debate entre candidatos à Presidência da República que tinha preparado para aquela noite.

A emissora justificou a decisão com a «insegurança jurídica» provocada por determinações judiciais que alteraram as regras previamente acordadas. Lula já tinha comunicado que não compareceria. Flávio Bolsonaro desistiu nas horas anteriores ao programa.

Para quem acompanha criticamente o poder da Globo, o cancelamento pode ser interpretado como uma derrota simbólica. Uma televisão capaz de dar enorme projeção a uma candidatura viu o seu palco esvaziado e acabou por abdicar de realizar o encontro.

Isso permite questionar a centralidade da emissora. Não permite, por enquanto, anunciar o fim da sua influência.

A sequência dos acontecimentos também exige precisão. A ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral, acolheu um pedido da coligação de Lula e proibiu a exibição destacada do púlpito vazio reservado ao candidato ausente. Impediu igualmente a dinâmica de perguntas dirigidas a quem não estivesse presente. A decisão sustentava que a participação era facultativa e que aquelas regras poderiam prejudicar o candidato que optasse por faltar.

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, determinou depois a inclusão de Renan Santos, candidato do partido Missão. Segundo a cronologia publicada pela CNN Brasil, Flávio Bolsonaro anunciou a sua desistência minutos antes dessa decisão, invocando a determinação do TSE sobre o púlpito de Lula. Convém, portanto, não apresentar como facto que abandonou o debate por receio de enfrentar Renan. Essa é uma interpretação política, não uma motivação comprovada.

Uma influência que merece escrutínio

A crítica à Globo não precisa de assentar na ideia de que o grupo escolheu, sozinho, quem poderia chegar ao Palácio do Planalto. Essa afirmação atribuiria a uma empresa um controlo sobre o eleitorado que não está demonstrado.

Há episódios concretos que justificam examinar o seu papel político. Um dos mais conhecidos é a edição do debate entre Fernando Collor e Lula apresentada pelo Jornal Nacional em 1989. O próprio projeto Memória Globo reconhece que a seleção privilegiou o desempenho de Collor e que o episódio provocou danos à imagem da emissora. Regista ainda os protestos que a edição suscitou e a posterior adoção da norma de não editar debates políticos.

Esse antecedente ajuda a compreender a desconfiança de quem vê na televisão um participante ativo na disputa pela interpretação dos acontecimentos. Escolher imagens, distribuir tempo de exposição e selecionar declarações pode favorecer determinadas leituras. É por isso que o poder editorial deve ser escrutinado.

Mas reconhecer essa influência exige também reconhecer os seus limites. Um eleitor pode aceitar uma interpretação, rejeitá-la ou procurar outras fontes. O cancelamento de um debate não demonstra, por si só, quanto desse poder se perdeu.

A escolha de Lula de conceder uma entrevista ao Flow Podcast no horário reservado ao encontro televisivo oferece um exemplo concreto de uma alternativa de comunicação de campanha. A opção foi confirmada na cobertura do cancelamento.

Do ponto de vista da estratégia de comunicação, o episódio permite uma leitura: o candidato considerou possível chegar ao público sem participar naquele palco. Não sabemos, apenas com este acontecimento, se essa decisão lhe trouxe votos ou se terá custos eleitorais.

Há ainda uma diferença relevante entre uma entrevista e um debate. No confronto entre candidatos, as propostas e contradições podem ser contestadas diretamente pelos adversários. Uma entrevista pode esclarecer posições, mas não substitui essa oportunidade de comparação.

Por isso, a satisfação perante um revés da Globo não deve apagar a perda para o público que esperava assistir ao encontro. Criticar o poder de uma emissora é compatível com exigir que os candidatos se exponham a perguntas difíceis e ao contraditório.

Observando o Brasil de fora, seria precipitado transformar esta noite numa sentença sobre o futuro da comunicação brasileira. O cancelamento é um facto. A derrota simbólica da Globo é uma interpretação defensável. A consequência nas urnas permanece desconhecida.

A votação de 4 de outubro poderá mostrar o resultado eleitoral, mas não permitirá isolar automaticamente o efeito deste episódio. Para avaliar a influência do debate que não aconteceu, serão necessários dados e análise posteriores. Até lá, a Globo perdeu a realização de um encontro importante. Saber quanto poder perdeu é outra questão.