Estas semanais ditas sondagens

Estas hodiernas sondagens começam a assemelhar-se demasiado àqueles programas televisivos em que uns poucos, gestores do espetáculo, vão espicaçando os concorrentes fechados dentro da casa, à espera de mais uma discussão, mais um conflito, mais um episódio de vãs vaidades e egocentrismos.

Semana após semana, mudam décimas, sobem umas barras, descem outras e logo se fabrica matéria para mais um serão de comentários, estratégias, vitórias e derrotas imaginárias.

À terceira semana da tracking poll da Pitagórica para a CNN Portugal/TVI, porém, pouco muda verdadeiramente.

A ordem mantém-se: PS, Chega e AD.

O Partido Socialista de José Luís Carneiro continua à frente, com 27,9% das intenções de voto. O Chega de André Ventura surge praticamente colado, com 27,3%, enquanto a AD aparece em terceiro lugar, com 25,1%, recuperando algum terreno relativamente à semana anterior.

Ou seja: muito ruído para margens mínimas.

E, se a pergunta passar de «em quem votaria?» para «quem considera melhor primeiro-ministro?», o cenário muda novamente: José Luís Carneiro e Luís Montenegro surgem empatados nos 32%, enquanto André Ventura aparece com 20,8%.

Nos restantes partidos, a Iniciativa Liberal conserva o quarto lugar, com 6,5%, seguida pelo Livre, com 3,9%, e pela CDU, com 2,0%. O Bloco de Esquerda regista 1,6%, numa ligeira recuperação face aos 1,4% da semana anterior, enquanto o PAN fica pelos 0,7%. Há ainda quem escolha outros partidos, o voto branco ou o voto nulo.

Também pouco animadoras para o poder são as taxas de aprovação: 35% para o Governo e 35% para o primeiro-ministro Luís Montenegro.

Mas há aqui uma questão política mais funda que nenhuma décima resolve.

O PS de José Luís Carneiro continua sem revelar, pelo menos nestes números, uma dinâmica suficientemente forte para se distanciar claramente dos adversários. E a restante esquerda permanece fragmentada, somando pequenas parcelas enquanto PS, Chega e AD ocupam praticamente todo o espaço central desta disputa.

Talvez, por isso, a pergunta mais interessante não seja saber quem ganhou ou perdeu três décimas esta semana.

A pergunta é outra:

que projeto político pretende a esquerda apresentar ao país e até quando continuará cada força a olhar apenas para a sua pequena parcela eleitoral?

Porque governar um país não é um concurso televisivo.

E democracia também não deveria transformar-se num reality show semanal de sondagens, comentadores e décimas percentuais.