Lula,

dizem que a idade nos torna prudentes, que a experiencia nos ensina a desconfiar dos sonhos e que, depois de tantas desilusoes, o melhor e aceitar o mundo como ele e.

Devo ter faltado a essa licao.
Continuo com esta mania inconveniente de me emocionar quando um povo encontra razoes para acreditar no amanha. E hoje a culpa e tua.

 

Logo agora que ja devia saber que as vitorias passam, que as promessas nem sempre se cumprem e que o poder tem o estranho talento de fazer esquecer as origens.
Estou teimosamente feliz. Nao por ignorar as contradicoes da politica; ja vi demasiados salvadores transformarem-se em donos da salvacao. Mas ha alegrias que me recuso a entregar aos profissionais do desencanto.

 

A tua vitoria leva-me a Abril. Aquele Abril portugues que teve a ousadia de colocar cravos nas espingardas e devolver as ruas a quem vivia em silencio.

 

E Abril, para mim, tambem chegou de Africa. Chegou das lutas pela independencia, da Guine-Bissau, de Angola, de Mocambique, de Sao Tome e Principe, e destas ilhas de Cabo Verde de onde hoje te escrevo. Chegou dos povos que recusaram continuar estrangeiros na sua propria terra.

 

Penso em Amilcar Cabral, esse homem incomodo que insistia em ensinar os povos a pensar pela propria cabeca. Que extraordinaria ameaca para os poderosos.

 

Penso em Gandhi, que encontrou num punhado de sal a forca para desafiar um imperio. Em Martin Luther King, que ousou sonhar em voz alta num mundo onde ate os sonhos pareciam obedecer a cor da pele. Em Mandela, que saiu de vinte e sete anos de prisao sem fazer da vinganca o seu destino.

 

Mataram King. Prenderam Mandela. Tentaram calar Gandhi. Assassinaram Cabral. E nao conseguiram aprisionar aquilo que deixaram na consciencia dos povos.

E essa memoria que hoje me emociona.

Nao te comparo a esses homens, Lula. Cada um pertence a sua Historia, com as suas grandezas e contradicoes. Mas reconheco na tua trajetoria algo que sempre admirei: a coragem de contrariar o destino que outros nos reservaram. O menino pobre do Nordeste, o operario, o sindicalista, o homem que conheceu a adversidade e regressou a Presidencia. Ha historias que nos recordam que o futuro ainda nao esta escrito.

Talvez seja esse o misterio da fe. Nao apenas a religiosa, mas aquela forca inexplicavel que nos faz continuar quando a razao ja nao oferece garantias. A fe de quem planta uma arvore sem saber se chegara a descansar a sua sombra. De quem luta por uma liberdade que talvez so os filhos venham a conhecer.
Os nossos ancestrais deixaram-nos muito mais do que a memoria das suas batalhas. Deixaram-nos uma maneira de estar na vida. Ubuntu. Eu sou porque nos somos.
Que licao para um mundo tao orgulhoso da sua modernidade. Conseguimos explorar o universo, desvendar os mecanismos do cerebro, criar maquinas que parecem pensar, e ainda nos custa reconhecer a humanidade de quem pensa de maneira diferente. Temos inteligencia para chegar as estrelas e falta-nos sabedoria para garantir pao a todas as criancas. Talvez os nossos ancestrais olhassem para nos com alguma perplexidade: tanto conhecimento acumulado e ainda precisamos que nos recordem que ninguem se constroi sozinho.

E por isso que esta alegria atravessa o Atlantico.

Nao espero milagres de ti. Esses deixo-os ao misterio da fe. Peco-te algo bem mais dificil: que nao esquecas o menino que foste. Que o poder nao te afaste dos humildes. Que saibas escutar quem discorda de ti e que nunca confundas a confianca de um povo com o direito de deixar de lhe prestar contas.

 

Porque a esperanca depositada nas urnas tem de chegar as mesas onde falta pao, as escolas onde se constroi o futuro, as casas onde ainda se vive com medo do amanha.

 

Quanto a mim, continuarei com esta teimosia de pensar pela minha propria cabeca, de questionar quem admiro e de nao deixar que o desencanto me roube a capacidade de sonhar. Foi assim que aprendi a viver. E essa a heranca que quero deixar aos meus filhos.

 

Hoje deste-me uma alegria especial.

 

Fizeste-me recordar Abril, as independencias, Gandhi, Cabral, King e Mandela. Fizeste-me sentir de novo a presenca dos que vieram antes de nos e acreditaram num futuro que muitos nao chegaram a conhecer.

 

Se alguem me chamar ingenuo por continuar a acreditar na humanidade, talvez sorria. Ha uma ingenuidade bem mais perigosa: a de acreditar que o mundo nao pode mudar. Abril mostrou que podia. As independencias tambem.

Por isso, recebe deste lado do oceano o abraco de um homem que ja conheceu derrotas suficientes para saber o valor de uma esperanca.

Hoje celebro contigo. Amanha voltarei a fazer perguntas. E tambem para isso que serve a liberdade.

 

Viva Abril. Vivam os povos livres. E viva esta minha estranha alegria de acreditar que ainda podemos deixar aos nossos filhos um mundo mais humano do que aquele que recebemos.

Afinal, ha quem envelheca e aprenda a desistir. Eu continuo a envelhecer sem conseguir aprender essa licao.