Eu, por exemplo, ponderadas as questões em causa nestas eleições decidi votar em António Filipe, porque defende os interesses da classe a que pertenço, porque a sua ideologia é próxima da minha, porque o seu passado o indica como lutador firme por ideais de igualdade e liberdade e não por tachos ou outras benesses, porque o seu percurso mostra que escolheu sempre o lado dos deserdados, dos explorados e se opôs à venda no nosso país aos interesses de outras nações.
Já o voto dito útil é um voto do eleitor contra si próprio, contra as suas convicções, um voto contra os seus interesses e os dos seus grupos sociais de pertença. É ser pela Paz e votar num candidato que defende a NATO e a guerra, é ser operário e/ou trabalhador assalariado e votar num candidato que defende o pacote laborar que liberaliza os despedimentos, é ser reformado e votar num candidato que defende a descida do valor real das pensões, é ser Negro / Cigano, etc. e votar num candidato racista e segregacionista, é ser patriota e votar num candidato que defende as grandes multinacionais. O voto útil, em nome de uma falsa pertença baseada em conceitos vagos e imprecisos - esquerda, direita - leva o eleitor a tornar-se um cidadão inútil que vota contra os seus próprios interesses e os dos grupos sociais a que pertence. Uma democracia em que o voto não é genuíno, em que o voto não reflete as preferências dos eleitores, é uma farsa. E quem dá corpo a tal farsa com o seu voto útil, ie quem vota em tudo o que não acredita, em tudo o que o prejudica, em tudo o que vai contra os seus interesses, e quem abdica da sua alma, do seu estatuto de cidadão e transforma-se num peso social, num cidadão inútil. É um cidadão que não contribuiu para a definição de políticas nacionais que levem em conta todos os interesses envolvidos, os interesses de todos os portugueses. Nesse sentido ele é inútil. Para si mesmo, para a sua família, para os membros dos seus grupos de pertença.
O terceiro tipo de voto é o voto estratégico. Aqui entram outro tipo de considerações. O que acontecerá no futuro se votar no candidato A ou no candidato B. Quem se reforçará? Ficarão os meus objetivos e os dos meus grupos sociais de pertença, mais próximos ou mais longínquos? O que acontecerá depois das eleições?
Se para derrotar A votar em B, chamemos-lhe Marques Mendes e Seguro, tão próximos ideologicamente, tão próximos nos interesses que defendem, tão próximos nas políticas que preconizam para o país, será que isso nos vai colocar mais próximos dos nossos objetivos de médio/longo prazo, será a eleição de B mais importante do que o enfraquecimento do nosso próprio campo que o voto útil representa?
Observando as personalidades em presença nestas eleições, o voto estratégico na primeira volta leva-nos de novo ao voto de António Filipe. Só há um candidato cuja eleição seria completamente catastrófica para o nosso país e muito perigosa para o que resta de democracia e direitos sociais: André Ventura. E não corremos o risco da sua eleição na primeira volta. Os restantes candidatos, como eles próprios se definem são candidatos do centro do atual sistema, o sistema do fecho das urgências, o sistema emigração forçada de jovens e trabalhadores, o sistema dos baixos salários, o sistema do racismo e segregacionismo instalados, o sistema que gera dois milhões de pobres e umas dezenas de super ricos. Tem estes candidatos diferenças entre si? Sem dúvida. Mas não são de caracter estratégico. Aliás por exemplo Pinto admite desistir para Seguro e Mendes acusa, com razão, Figueiredo de pescar nas mesmas águas políticas. São diferenças de tom, de estilo, de discurso, mas não diferenças de fundo. Não farão qualquer diferença, tudo continuará na mesma trajetória – uma trajetória de lento declínio do país e dos direitos sociais.
Assim sendo, na primeira volta não se coloca a questão do voto estratégico e votarei com confiança em António Filipe. Caso o não fizesse estaria a enfraquecer o campo que ele representa e a tornar mais longínquos todos os objetivos porque pugno em troca de nada de relevante. Um voto útil em qualquer outro candidato prejudicava mais a obtenção dos objetivos de médio/longo prazo do que os minúsculos imediatos ganhos que poderia trazer. Em termos estratégicos tal voto seria muito pernicioso.
No segunda volta, no caso de António Filipe não se qualificar, desde já decido que exercerei um voto estratégico em qualquer candidato que enfrente André Ventura, se este como tudo indica passar à segunda volta. Porque a sua eleição significaria um retrocesso social de muitas décadas, um acelerar do passo da destruição dos resquícios que ainda restam do Estado Social e das liberdades formais e a institucionalização do racismo, da xenofobia e dos ataques a todos os portugueses racializados.