São travessias, rápidas; ou intermináveis, como a viagem na qual embarco esta semana, de Lisboa para resolver pendências no Rio de Janeiro.

Livros nos ocupam, voam conosco como pássaros livres, nos fazem companhia nas horas suspensas de um avião, geram assuntos e debates, discussões e consensos, se tornam lembranças e depois se quedam nas estantes superlotadas à espera de serem, um dia, escolhidos para releituras.

Cada livro, à sua maneira, move o leitor de um ponto a outro; e, numa viagem de dez horas, às vezes o que importa menos é o destino e mais o gesto de estar com uma história entre as mãos enquanto o mundo lá fora se apressa em passar por estes “não-lugares”: aeroportos, aviões, carimbos em passaporte, jet lag e choques térmicos e culturais.

Na escolha de três livros recém lançados em Lisboa para serem minha companhia desta viagem, combinei narrativas curtas e envolventes que respeitam o ritmo fragmentado de uma cabine barulhenta e desconfortável. Nos fones de ouvido, um mix de The Smiths, Keith Jarrett e “Livro”, do Caetano Veloso, tudo a ver. São eles:

“Breve explicação sobre a origem da morte”, de Rafaela Lacerda, reúne contos em que a bióloga e escritora com formação em dramaturgia investiga limites com uma prosa densa e precisa, fazendo cada história funcionar como pequeno corte de uma realidade de difícil, talvez impossível, apreensão. Para Márcia Vieira Ávila, a autora “consegue arrepiar o leitor com temas tão reais quanto a doce crueldade com que são escritos”.

“Decomposição dos pássaros”, de Eltânia André, trabalha como quem nos narra “causos”, vividos ou ouvidos, personagens bem delineados e que têm vida, saltam para fora das páginas. São “contos que querem ser pássaros”, companhia perfeita para ser lida aos bocados entre um café e uma olhada pela janela para as montanhas enquanto nos preparamos para aterrissar. Para Luiz Ruffato, a autora evidencia nas dez histórias deste livro “o sentido trágico da vida envolvido por uma intensa carga poética”.

“Avestruz, pequeno estudo sobre a prontidão”, do escritor e artista plástico Diego Garcez, encerra a tríade com uma narrativa concentrada, quase um ensaio autoficcional sobre a construção de uma identidade, um pequeno Bildungsroman, um romance de formação, um acerto de contas do autor com o passado e uma escrita do futuro. Para a curadora Cristiana Tejo, é “um livro mestiço (...) algo de tratado, algo de diário e algo de poesia”.

São livros que mantém o leitor num estado de alerta poético – o mesmo estado de quem, a dez mil metros de altitude, se entrega a livros que o prendem e o desafiam, mas, em vez de pedir atenção ininterrupta, oferecem a liberdade de entrar e sair de suas páginas como quem atravessa diferentes modos de olhar o mundo, de cima, entre as nuvens.

 

Serviço:

 

“Breve explicação sobre a origem da morte”

Rafaela Lacerda

Editora Traça, Portugal

84 páginas

 

“Decomposição dos pássaros”

Eltânia André

Editora Urutau, Portugal/Brasil

92 páginas

 

“Avestruz, pequeno estudo sobre a prontidão”

Diego Garcez

Editora Urutau, Portugal/Brasil

96 páginas