Em 1986, o país estava dividido. As opções políticas eram claras e as paixões estavam à flor da pele. Ainda assim, havia uma consciência quase instintiva de que a luta eleitoral terminava nas urnas e que, a partir daí, começava uma outra responsabilidade: a de preservar o respeito pelo adversário e pela própria democracia.
Freitas do Amaral representava uma visão conservadora e institucional do Estado, profundamente ancorada na tradição jurídica e na estabilidade. Mário Soares surgia como o rosto do socialismo democrático europeu e da integração plena de Portugal no projeto comunitário. Eram projetos distintos, até opostos em vários pontos, mas nenhum dos protagonistas confundia o adversário com um inimigo.
O ramo de flores enviado por Maria Barroso e Mário Soares simboliza essa cultura política hoje rara. Não apaga a dureza da campanha, nem relativiza as divergências ideológicas. Mas lembra que existia uma fronteira clara entre o combate político e a dignidade pessoal.
Comparando com o presente, a diferença é gritante. As campanhas eleitorais tornaram-se, em muitos casos, arenas de desqualificação pessoal, de suspeição permanente e de hostilidade verbal. A cortesia passou a ser confundida com fraqueza e o respeito com conivência. O adversário deixou de ser alguém com quem se discorda para passar a ser alguém a destruir.
As Presidenciais de 1986 ensinam, por isso, uma lição que vai muito além dos resultados eleitorais. Mostram que é possível disputar o poder com intensidade sem abdicar da educação, da elegância e do respeito mútuo. Que a democracia não se mede apenas pela liberdade de escolha, mas também pela forma como os vencidos são tratados e os vencedores se comportam.
O ramo de flores não mudou o resultado das eleições. Mas permanece como um símbolo poderoso de uma época em que a política portuguesa, mesmo nos seus momentos mais tensos, ainda sabia ser humana, cortês e institucionalmente madura.
Talvez seja tempo de voltar a olhar para 1986 e não para repetir o passado, mas para recuperar o que nele havia de melhor.
*) Foto de destaque: IA
Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor