Lisboa prepara-se para receber um dos textos mais intensos do teatro contemporâneo. O espetáculo “Todos Pássaros”, do dramaturgo libanês-canadiano Wajdi Mouawad, estreia a 18 de março no Teatro São Luiz, na Sala Luís Miguel Cintra, numa encenação assinada por Álvaro Correia.

A produção reúne em palco um elenco de referência do teatro português, com interpretações de Cucha Carvalheiro, David Esteves, Fernando Luís, Madalena Almeida, Manuela Couto e Virgílio Castelo, acompanhados por Duarte Romão e Laura Garnel, alunos finalistas da Escola Superior de Teatro e Cinema.

Mais do que um drama familiar, “Todos Pássaros” apresenta-se como um fresco épico que confronta as identidades individuais com o peso da História. Escrita em 2017, a peça, originalmente intitulada Tous des Oiseaux, explora os limites da herança cultural, da memória coletiva e da ciência, colocando no centro da narrativa o conflito israelo-palestiniano.

A história acompanha Eitan, um jovem geneticista alemão de origem judaica, e Wahida, uma estudante árabe de doutoramento. O encontro entre ambos transforma-se numa relação intensa e inesperada, onde o amor surge como força capaz de desafiar fronteiras políticas, religiosas e familiares. No entanto, à medida que o passado emerge e as genealogias se revelam, as personagens confrontam-se com uma verdade perturbadora: aquilo que julgavam saber sobre as suas origens pode não passar de uma construção histórica.

Num dos momentos mais marcantes do texto, uma personagem recorda um episódio trágico que expõe a fragilidade das narrativas identitárias: dois adolescentes, uma jovem judia de Telavive e um rapaz palestiniano de Belém, apaixonados contra a vontade das famílias, decidem morrer abraçados. O gesto extremo provoca uma onda de imitações entre jovens casais, desencadeando um pânico social. Quando análises de ADN começam a revelar uma inesperada mistura nas genealogias, a distinção entre “nós” e “eles” torna-se cada vez mais difícil de sustentar.

Essa reflexão atravessa toda a obra de Mouawad, que questiona as categorias rígidas da identidade e confronta o público com uma ideia desconfortável, mas profundamente humana: por trás das fronteiras políticas e religiosas, as histórias e os corpos carregam muitas vezes as mesmas origens.

Antes da estreia, o Teatro São Luiz promove a 16 de março uma sessão especial destinada à comunicação social. O programa inclui a apresentação de três cenas para televisão às 15h00, seguida de entrevistas, e um ensaio corrido às 16h00, aberto a fotógrafos e jornalistas.

Com uma escrita poderosa e uma encenação que promete intensificar a dimensão trágica e poética da obra, “Todos Pássaros” surge como um convite à reflexão sobre memória, identidade e humanidade num tempo em que os conflitos continuam a marcar o destino de povos inteiros.

Mais informações sobre o espetáculo podem ser consultadas no site oficial do teatro:
https://www.teatrosaoluiz.pt/espetaculo/todos-passaros/

Fontes:
Teatro São Luiz – https://www.teatrosaoluiz.pt