Mais de quatro meses depois da passagem devastadora da tempestade Kristin, milhares de famílias da Região Centro continuam a aguardar resposta aos pedidos de indemnização por danos sofridos nas suas habitações.

A dimensão dos estragos provocados pelas intempéries — cujo epicentro ocorreu a 28 de janeiro de 2026 — transformou aquele episódio climático numa das maiores operações administrativas de resposta a danos habitacionais dos últimos anos em Portugal.

De acordo com os dados divulgados pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDR Centro), até 31 de maio de 2026 foram apresentadas 25.728 candidaturas de pedidos de apoio para reparação de habitações afetadas pela tempestade Kristin e outros fenómenos meteorológicos severos ocorridos na Região Centro.

Apesar do elevado volume processual, a entidade regional garante que está em curso um esforço institucional sem precedentes, desenvolvido em articulação com as 73 câmaras municipais da Região Centro e o Governo.

O presidente da CCDR Centro, José Ribau Esteves, sublinha o empenho da estrutura técnica envolvida no processo.

“É relevante anotar que esta tarefa, numa análise comparativa com o tratamento de danos de calamidades de anos anteriores, assume condições de recordista na menor quantidade de tempo utilizada entre a data dos danos causados, a disponibilização de verba pelo Governo, o período de apresentação de candidaturas e as respostas com decisões e pagamentos aos beneficiários”, afirmou Ribau Esteves.

Mais de 23 milhões de euros já pagos

Segundo o balanço agora divulgado, já foram pagas indemnizações no valor global de 23.716.666,95 euros, abrangendo 6.237 candidaturas aprovadas.

No entanto, os números mostram também uma realidade ainda longe da conclusão.

Até ao momento:

  • 25.728 candidaturas foram submetidas;
  • 14.168 encontram-se ainda em análise nos municípios;
  • 2.320 permanecem em apreciação na CCDR Centro;
  • 9.240 candidaturas foram decididas, o equivalente a 35,9% do total;
  • 3.003 processos foram indeferidos.

Ou seja, apesar do avanço administrativo, quase dois terços das candidaturas permanecem sem decisão final, alimentando expectativas e alguma ansiedade entre famílias que continuam a aguardar apoio financeiro para recuperar as suas casas.

Leiria lidera número de processos

A distribuição territorial dos pedidos revela uma forte concentração dos danos em alguns municípios particularmente atingidos.

Dos 73 municípios com candidaturas registadas, apenas 8 concluíram totalmente a análise dos processos, enquanto 24 municípios ainda apresentam menos de 25% das candidaturas decididas.

Entre os municípios mais afetados destacam-se:

Município Candidaturas apresentadas Decididas Percentagem
Leiria 10.808 3.721 34,4%
Marinha Grande 3.365 243 7,2%
Pombal 2.482 1.318 53,1%
Sertã 972 373 38,4%
Ansião 878 475 54,1%
Coimbra 647 110 17%

Só estes seis municípios concentram 19.152 candidaturas, representando 74,4% do total regional, e acumulam 67,5% das decisões já emitidas.

O caso da Marinha Grande chama particularmente a atenção, apresentando uma das taxas mais reduzidas de decisão — apenas 7,2% dos processos concluídos — contrastando com municípios como Ansião ou Pombal, onde mais de metade dos pedidos já recebeu resposta.

Junho será mês decisivo

Segundo a CCDR Centro, junho de 2026 foi definido, por acordo entre as entidades gestoras, como o mês previsto para conclusão desta operação de indemnizações.

Nesse sentido, está já programada a divulgação de novos pontos de situação nos dias 10 e 20 de junho, permitindo acompanhar a evolução do processo e medir a capacidade de resposta das entidades responsáveis.

Para milhares de famílias afetadas pelas intempéries, estes números representam mais do que estatísticas: traduzem a diferença entre continuar a viver com danos estruturais em casa ou iniciar finalmente um processo de recuperação e normalização.

Num tempo marcado pelo agravamento dos fenómenos climáticos extremos, o caso da tempestade Kristin volta também a levantar uma questão maior: está Portugal preparado para responder, de forma rápida e eficiente, às novas emergências climáticas que poderão tornar-se cada vez mais frequentes?

Fonte:
CCDR Centro

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