Vamos aos números, porque a estatística quando mal usada é como maquilhagem barata: tapa pouco e borra tudo. Um intervalo de 6% de margem para a tal “inexistente AD” (coisa que, aliás, nem está oficialmente em lado nenhum para efeitos legais, mas vá), um intervalo de 5,6% para o PS, 18,6% de indecisos — e mesmo assim conseguem dizer, com cara séria e olhar penetrante, que não há empate técnico. Pois claro, a realidade é só um detalhe.
E quanto às entrevistas? Sim, 1.000 chamadas telefónicas, feitas sabe-se lá a que horas, com quem estava mais desocupado ou mais distraído com o jantar. Porque nada diz “rigor metodológico” como sondar avós às 17h ou trabalhadores em pausa de café às 11h. A cereja no topo do disparate? A própria ficha técnica da sondagem parece um panfleto eleitoral com ligeiro aroma a laranja. Coincidência? Pois…
Vamos recuar um pouco. Recordemos — com o orgulho de quem sabe ler a Constituição da República e não apenas os títulos das capas — que fomos o único órgão de comunicação social a apoiar o PPM no seu justo recurso ao Tribunal Constitucional. E sabem o que aconteceu? Ganhou. Porque a lei não é uma sugestão. Porque chamar-se “AD” em 2024 não faz da coligação de Montenegro a Aliança Democrática de Sá Carneiro. É só uma tentativa desesperada de vestir um cadáver com roupa nova.
E ainda assim, lá andam os noticiários a falar de uma “AD” como se ela existisse. E a dar-lhe tempo de antena como se fosse a legítima herdeira de um legado, quando na verdade nem um testamento assinado conseguiram apresentar.
Enquanto isso, a Comissão Nacional de Eleições (CNE) e a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) parecem estar de férias nas Maldivas, porque permitir este tipo de manipulação — disfarçada de jornalismo — é um insulto à inteligência democrática. Montenegro fala durante seis minutos sem contraditório, sem contexto, sem respeito pela pluralidade. E depois vêm com “sondagens” que fazem parecer que está tudo decidido. Brilhante estratégia… se o objetivo for sabotar a democracia.
É caso para perguntar: será que já estamos a viver a sequela de 1992, versão século XXI? A mesma manipulação, o mesmo teatro, as mesmas consequências? Porque já vimos este filme. E o final não é bonito.
Por isso, caros leitores, mais do que uma crítica, este artigo é um aviso. As “sondagens” não são inocentes. São armas políticas. E quando mal usadas, podem derrubar mais do que governos — derrubam a confiança pública. E isso, meus amigos, nem um intervalo de confiança de 95% consegue salvar.
Constituição da República Portuguesa (artigo 51.º e seguintes)
Lei Eleitoral da Assembleia da República
Lei das Sondagens – Lei n.º 10/2000
Decisão do Tribunal Constitucional sobre o uso da marca "AD" pelo PSD