Importa, porém, colocar uma questão legítima: quantos autores, figuras políticas ou personalidades públicas não beneficiaram igualmente de compras massivas das suas obras, promovidas por entidades, empresas ou estruturas próximas? O espanto agora demonstrado por algumas magistradas, segundo relatos públicos, parece ignorar práticas que, independentemente de concordarmos ou não com elas, não são inéditas na vida política ou editorial portuguesa.
Mais ainda: aceitar exercer funções profissionais de advocacia ou representação em determinadas circunstâncias pode revelar zonas cinzentas de dependência ou proximidade profissional que justificam, precisamente, um debate sério sobre os limites da flexibilidade de funções e dos potenciais conflitos de interesses. Mas uma discussão séria exige coerência e critérios iguais para todos.
A memória coletiva, contudo, parece por vezes seletiva.
Em outubro de 2013, aquando do lançamento do livro de José Sócrates, a própria TVI descrevia o evento como reunindo “muitas centenas de pessoas”, distribuídas por dois pisos, um dos quais sem acesso direto à sessão. Quem esteve presente recorda uma enchente pouco comum, que alguns estimaram rondar o milhar de participantes. Goste-se ou não da figura política, a verdade factual é esta: o lançamento foi um fenómeno editorial raro em Lisboa. E convém recordar um detalhe frequentemente omitido do debate político contemporâneo: em 2013, Portugal era governado por Pedro Passos Coelho.
Há hoje uma evidente tentação para reescrever a história à luz das paixões ideológicas do presente. A necessidade de alimentar manchetes, proteger determinadas narrativas ou satisfazer preconceitos políticos acaba, demasiadas vezes, por obscurecer os factos. Pode até existir verdade em alguns episódios relatados. Mas também pode existir um esforço deliberado para diminuir o impacto político e simbólico de alguém que, goste-se ou não, marcou uma era governativa em Portugal.
Não temos qualquer ligação pessoal ou política a José Sócrates. Aliás, muitos à esquerda sempre o viram como pertencendo à ala mais moderada ou até liberal do Partido Socialista. Mas uma coisa é discordar politicamente; outra, muito diferente, é transformar a justiça num palco de ressentimentos ideológicos ou de condenação permanente na praça pública.
E importa igualmente recordar algo que, mesmo os seus críticos mais ferozes, dificilmente conseguem apagar da história política recente: várias reformas estruturantes do país aconteceram durante os seus governos.
Entre elas destacam-se:
Terá existido corrupção? Essa é uma pergunta à qual só tribunais verdadeiramente independentes, imparciais e livres de pressões políticas ou ideológicas podem responder, com base em provas robustas e decisões fundamentadas.
Mas justiça não é preconceito. Justiça não é ajuste de contas moral. E, sobretudo, justiça não pode ser confundida com vingança ideológica.
A propósito, muitos não esquecem também a forte contestação e pressão pública dirigida ao juiz Ivo Rosa após decisões favoráveis a José Sócrates, num episódio que para uns foi sinal de independência judicial e, para outros, de excessiva polémica mediática. Seja qual for a perspetiva, o essencial permanece: num Estado de direito, a justiça faz-se nos tribunais, não nos corredores da opinião publicada.