Aires Esteves recorda que o Conselho Geral Independente da RTP definiu linhas estratégicas claras para a estação pública, nas quais se destaca a valorização do respeito pelo bem-estar animal. Nesse enquadramento, a eventual retransmissão de espetáculos tauromáquicos entraria em contradição com os princípios orientadores da programação.
A RTP, enquanto operador de serviço público, está vinculada a critérios de responsabilidade cultural, social e ética. Não se trata apenas de audiências ou tradição, mas da coerência entre a missão institucional e os conteúdos emitidos.
Durante anos, as transmissões de touradas foram, segundo registos públicos, um dos principais motivos de reclamação por parte de telespectadores. As críticas centravam-se na exposição de violência explícita e no sofrimento infligido aos animais.
O debate não é novo. Em 2021, a RTP anunciou a suspensão das transmissões tauromáquicas na sua grelha regular, decisão interpretada como um alinhamento com uma sensibilidade social crescente relativamente aos direitos dos animais.
Os defensores da tauromaquia invocam argumentos de tradição cultural e identidade regional. No entanto, críticos como Aires Esteves sublinham que o serviço público de televisão não pode dissociar-se da evolução ética da sociedade.
A questão central permanece: deve um canal financiado por todos os contribuintes emitir conteúdos que uma parte significativa da população considera violentos e desadequados?
O serviço público deve garantir o respeito pela opinião dos telespectadores e salvaguardar princípios fundamentais, entre os quais se inclui a rejeição de conteúdos que envolvam violência e maus-tratos a animais.
Num momento em que os media enfrentam escrutínio crescente sobre o seu papel social, a decisão da RTP poderá tornar-se um marco simbólico sobre o rumo ético do serviço público em Portugal.