Pesquisas apontam que essa reserva também pode retardar sintomas de outras doenças cerebrais, como Parkinson, esclerose múltipla e acidentes vasculares cerebrais (AVC). A boa notícia é que podemos fortalecer a nossa reserva cognitiva ao longo da vida, protegendo o cérebro contra o envelhecimento e eventuais lesões.
De acordo com Manuel Vázquez Marrufo, professor de psicologia experimental da Universidade de Sevilha, a reserva cognitiva é um "construto" da neurociência e psicologia, representando um acúmulo de experiências de vida que protegem contra danos cerebrais. Harvard Health Publishing define o conceito como "a capacidade do cérebro de improvisar e encontrar formas alternativas de realizar tarefas".
Dessa forma, a reserva cognitiva está diretamente ligada às atividades realizadas ao longo da vida, como leitura, estudo e trabalhos que exigem altos níveis de cognição. Quanto maior a reserva, maior a capacidade do cérebro de enfrentar doenças neurodegenerativas sem apresentar sintomas graves.
Um dos estudos mais marcantes sobre reserva cognitiva foi realizado em 1986 pelo epidemiologista David Snowdon. Conhecido como "Estudo das Freiras", essa pesquisa analisou quase 700 freiras de um convento nos Estados Unidos, que passaram por testes cognitivos anuais. Ao falecerem, seus cérebros foram estudados e revelaram sinais da doença de Alzheimer, mas sem impacto significativo em suas capacidades cognitivas.
Outro achado interessante foi a relação entre a complexidade dos textos escritos pelas freiras ao longo da vida e a incidência da doença: aquelas que utilizavam uma linguagem mais rica apresentavam menor risco de desenvolver Alzheimer.
Felizmente, nunca é tarde para fortalecer a reserva cognitiva. O estudo publicado na renomada revista The Lancet mostrou que indivíduos que continuam a estudar e aprender ao longo da vida têm mais chance de desenvolver reservas cognitivas robustas. Algumas atividades recomendadas incluem:
Leitura regular, que estimula memória, atenção e linguagem;
Aprender algo novo, como tocar um instrumento ou falar outro idioma, pois isso promove conexões cerebrais e plasticidade neuronal;
Jogos de tabuleiro e palavras cruzadas, que exercitam habilidades cognitivas;
Vida social ativa, pois interagir com outras pessoas fortalece a saúde cerebral;
Evitar rotinas monótonas, pois a novidade estimula diferentes áreas do cérebro.
Outros fatores também são essenciais para manter um cérebro saudável: evitar o tabagismo, praticar exercícios físicos, manter um peso adequado, controlar a pressão arterial e dormir bem.
A influência do meio ambiente é determinante na construção da reserva cognitiva. Embora os genes desempenhem um papel fundamental, o ambiente e as experiências vividas também moldam essa capacidade. Estudos indicam que a educação formal e o aprendizado contínuo são essenciais, mas até mesmo atividades recreativas, como ouvir música e criar um blog, podem ter efeitos positivos na saúde do cérebro.
A reserva cognitiva é um conceito fundamental para compreendermos a capacidade de resiliência do cérebro diante do envelhecimento e de doenças neurodegenerativas. Apesar de ainda haver muitos mistérios sobre os mecanismos exatos por trás dessa reserva, o que já se sabe é que investir em uma vida ativa, intelectualmente estimulante e socialmente envolvente pode ser a chave para um envelhecimento saudável.
Assim, fica o convite: leia, aprenda, jogue, socialize-se e mantenha sua mente sempre ativa. Pequenas mudanças no dia a dia podem ser decisivas para garantir um futuro cognitivo mais saudável e protegido.
Fontes e Referências:
Harvard Health Publishing, "O que é reserva cognitiva?"
BBC News Mundo, entrevistas com Manuel Vázquez Marrufo
Revista de Neurologia, "Questionário de reserva cognitiva: propriedades psicométricas na população argentina"
Yaakov Stern, "Reserva Cognitiva: Teoria e Aplicações"
The Lancet, estudo sobre prevenção e tratamento da demência (2017)
David Snowdon, "Aging with Grace"