Portugal continua a enfrentar uma das suas mais graves crises silenciosas de saúde pública: o cancro. Em 2023, as doenças oncológicas foram responsáveis por 28.165 mortes no país, confirmando-se como uma das principais causas de mortalidade nacional.

Perante este cenário, a Assembleia da República aprovou o Projeto de Resolução n.º 819/XVII/1.ª, apresentado pelo PCP, que recomenda ao Governo a adoção de medidas urgentes para promover e alargar os rastreios oncológicos em todo o território nacional. O diploma foi aprovado com a abstenção do PSD e do CDS.

A iniciativa parlamentar surge num contexto em que os especialistas alertam há anos para a importância da deteção precoce como fator decisivo na sobrevivência dos doentes oncológicos. Os dados científicos são claros: os rastreios permitiram reduzir em cerca de 30% a mortalidade associada ao cancro da mama, em 80% os casos fatais de cancro do colo do útero e em cerca de 20% as mortes provocadas pelo cancro do cólon e reto.

Apesar destes resultados, Portugal continua longe das metas definidas para 2030. Segundo dados recentes da Direção-Geral da Saúde, a adesão aos rastreios do cancro da mama e do cólon e reto rondava apenas os 50% em 2023, muito distante do objetivo de 90% estabelecido pelas autoridades de saúde internacionais.

O debate ganha ainda maior relevância após denúncias relativas à Unidade Local de Saúde do Algarve, onde em 2024 não terá sido realizado o rastreio do cancro do cólon e reto devido à falta de kits de diagnóstico. O caso expôs fragilidades estruturais e profundas assimetrias regionais no acesso à prevenção e aos cuidados de saúde.

O projeto aprovado recomenda ao Governo várias medidas concretas, entre elas:

  • Garantir cobertura nacional dos rastreios do cancro da mama, colo do útero e cólon e reto;
  • Reforçar os meios humanos e técnicos das Unidades Locais de Saúde;
  • Promover formação específica para médicos de medicina geral e familiar e enfermeiros;
  • Alargar horários das unidades de saúde para facilitar o acesso da população aos rastreios.

Mas o documento vai mais longe. Defende também que Portugal deve preparar-se para incorporar novos programas de rastreio dirigidos a cancros como o do pulmão, próstata e estômago, áreas onde a evolução científica já permite mecanismos de deteção precoce com potencial impacto na redução da mortalidade.

A discussão em torno desta resolução levanta uma questão estrutural sobre o futuro do Serviço Nacional de Saúde. Num país marcado pelo envelhecimento populacional, pelo aumento das doenças crónicas e pelas desigualdades territoriais no acesso aos cuidados médicos, investir em prevenção poderá representar não apenas uma estratégia de saúde pública, mas também uma medida de sustentabilidade económica.

A lógica é simples: diagnosticar precocemente significa tratamentos menos invasivos, menores custos hospitalares e maiores probabilidades de sobrevivência e qualidade de vida. Em contrapartida, atrasos no diagnóstico tendem a aumentar a pressão financeira sobre o SNS e a agravar o sofrimento humano e familiar.

Num momento em que o sistema de saúde português enfrenta carências de profissionais, listas de espera e dificuldades logísticas, o reforço dos rastreios oncológicos transforma-se também numa questão de justiça social. Porque a prevenção não pode depender do código postal, da condição económica ou da capacidade individual de acesso à saúde privada.

Como escreveu o médico e humanista canadiano Norman Bethune: “A medicina não deve apenas curar doenças; deve prevenir o sofrimento humano.”

Fontes

  • Assembleia da República Portuguesa — Projeto de Resolução n.º 819/XVII/1.ª
  • Direção-Geral da Saúde — Programas de Rastreio Oncológico em Portugal
  • Instituto Nacional de Estatística — Dados de mortalidade 2023
  • Organização Mundial da Saúde — Cancer Screening Guidelines
  • Serviço Nacional de Saúde — Estratégias de prevenção oncológica

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