Assim, o que é mais relevante, é saber-se porque é que tem havido dificuldade da Esquerda em articular uma ética de comunidade, afiliação, pertençae identidade partilhada. Mais: a perda pela Esquerda – antes do mais em países de maior crescimento económico - da defesa de questões como as da solidariedade, do orgulho cívico eda obrigação mútua dos cidadãos. Até por haver orgulho saudável contra a xenofobia e o nacionalismo exarcebado. Por último, ainda há a questão do apoio ao Estado social como acçãocada vez mais posta em causa por todos os Governos de Estados de democracia liberal formal (1).

II

O capítulo sobre o papel da Esquerda na longa conversa/entrevista entre Thomas Piketty e Michael J. Sandel (2), pode ser ponto de partida para reflectir sobre vários aspectosligados à Igualdade. No caso das votações na extrema-direita,Piketty defende que a questão é antes do mais económica. Por causa da perda de postos de trabalho devido à concorrência comercial, e não por via de um qualquer influxo migratório. No caso francês, Piketty defende que o influxo de migrantes e a proporção de pessoas com origens estrangeiras ou extra-europeiasnão explica o voto na extrema-direita. No caso português a questão explica-se por nítido aproveitamento, via interesse objectivo ligado a Estados da CPLP, pelo empolar tardio desse sentimento ligado à extrema-direita. Na Europa dos últimoscinco lustros do século XX, ele aparece com algum relevo desde os tempos de um governo austríaco (3). Criadas as devidaspercepções sobre migrações, principalmente por influência dastelevisões, em Portugal, em meia dúzia de anos, é construída uma conexão directa entre pleno emprego; «bar aberto» - decerto vício de quem parece querer andar por esses ambientes; muito baixa percentagem de gente desempregada; e um desmedido tempo de antena do representante dessa extrema-direita face às outras sensibilidades. Como dadoque não muda, a questão económica mantêm-se em Portugal nos muito baixos saláriospara o geral dos trabalhadores, em piores para a imigração regular, e mais ainda para a irregular; e, por outro lado, nadiferenciação salarial vergonhosa em toda a pirâmide económica entre homens e mulheres, assentes numa base social -apesar de nos últimos 10 anos ter havido evolução significativa -onde grande número de pensõesde miséria é resultado de um passado de atraso no desenvolvimento humano que, 50 anos após o 25 de Abril de 1974,ainda projecta na pobreza milhões de cidadãos em idade e situação já não activas. Tendo como origem o âmbito político-mediático da Comunicação Social, de modo estranho aparentemente, reside aí uma das principais causas do crescimento da tal Extrema-direita. Piketty fala só nos EUA e em França, afirmando que em ambas as economias o grande indicador e principal questão é a destruição de emprego, na indústria transformadora em particular. Para depois afirmar que a Esquerda não dá resposta a essa destruição por não abordar as questões do comércio e dos empregos. Diz ainda que a Esquerda, nas questões dos imigrados e ainda sobreidentidade, não pode concorrer com a Direita Nacionalista. Demodo diferente de Piketty, M.Sandel, mesmo que aceite arelação directa entre perda de empregos via políticas comerciais e a força de Donald Trump e Marine Le Pen, compreende que a mais importante questão em França é a dinâmica que pretende não integrar o comércio europeu e o Tratado Europeu de 2005: «o…problema principal é a concorrência comercial», e logo a seguir: «estamos a perder empregos» (3). Aspecto pouco observado, Piketty fala ainda em três pontos distintos: 1. nocontraponto entre gente depequenas cidades acusadas de emitirem emissões de carbono a mais, face a urbanos das grandes cidades que aos fins de semana poluem muito mais quando é usual se deslocarem a Roma de avião; 2. as respostas ao Liberalismo: (a)têm sido da parte da solidariedade etno-nacionalista e com o poder sobrevalorizar tanto interesses locais como solidariedade a nível de comunidades locais, via protecção de elites tradicionais; (b) tanto da parte do socialismo internacionalista como do socialismo democrático conseguidos através do aprofundar da democracia social e por via da tributação fiscal progressiva; e 3. Na desmercantilização e esboços de uma política que conduza a um sistema económico alternativo.

Ora em Portugal a questão da tributação fiscal progressiva é rebatida pela direita que se diz cristã e que na economia é anti-caridosa radical no dia a dia. Por ainda haver muito patrão e poucos empresários? Por haver não poucos poderes com tendênciasiliberais abertas? Um elo que revela a natureza da tributação departe da Direita, pode enxergar-se; (a) na proposta dos auto-definidos como Liberais ao defenderem a tributação fiscal única para todos os actoreseconómicos; e (b) no tipo de propriedade: o território português tem quase 80% de propriedade privada e 22% de arrendatários. O1.º, Ministro actual é exemplo paradigmático disso: segundo o próprio, tem mais de 40 propriedades. Como há outrosmais, dá para, entre realidade, percepções e propaganda, ver qual é a mentalidade dominadora: 1. Quase 80% de propriedade privada até dá para sugerir que, fora poucas excepções, há a percepção se calhar não coincidente com a realidade de que o acto corruptivo é muito extenso mas quase sempre de baixa monta; 2. Em sentido oposto, prova de que algo muda para uma maior organização nos últimos 25 anos, é aquela história do construtor civil ligado ao futebol, um dos principais dadores do S. L. Benfica, a dizer a um jornal desportivo nos anos 90, que…impostos…«Pago se quizer». E o pagamento? Não ultrapassa o imposto mínimo. Como esse, não poucos o fazem. E tudo se enquadra, a partir das televisões, jornais, mais tarde de redes sociais, nesta equação: não há igualdade entre Direita e Esquerda na Comunicação Social e há um contraponto entre actores sociaisditos «puros» versus actoresdefinidos como «pecadores». Estes fazem asneiras públicas por hábito, quando são apanhados pela justiça, poucos os condenampor serem usuais nas acções. «Fazem pela vida» dizem. «Roubamas ao menos faz coisas». Alguns«puros» têm um «deslize». Desde aí em público são apontados pela falha cometida ao longo da vida(4). A natureza do Poder parece ser mesmo de tolerância geral no sentido inverso ao que defende o ideólogo cristão Fernando Ventura.Este devia deter poder paraincentivar a sua Instituição a castigar os devotos que todos os dias cometem pecados técnicos por via da adesão escrupulosa àlegalidade capitalista formal. Edevia ter força para castigar os devotos que defendem um sistema similar à história contada em telenovela, sobre o líder «Bem Amado» numa localidade do interior do Brasil que exige «democratura». Devotos que em Portugal são adeptos de Pio XII e admiradores do Patrão máximo daquele Bovino do ICE nos EUA. Porquê? Porque esse é pessoal agressivo contra as ideias difundidas pelo Papa Francisco -que mais que uma vez afirma que «o capitalismo mata». E ainda utiliza o poder que detêm para, em nome dos «três pastorinhos de Fátima», mais do que ser anti-socialista, afirmar que «o socialismo mata».

                                 III

Històricamente, é provável que esta deriva – uma espécie de mundo ao contrário à séria – na União Europeia e no continente europeu como maior centro de trocas comerciais do mundo, esteja em final de fase. Como desestruturação do sistema capitalista …não, pois está ainda a crescer no âmbito-mundo. Em final de fase, sim! Desencadeadapos-II guerra mundial 1939-45, após a desestruturação do sistema socialista mundial há 35 anos? Não! Porque é o nacionalismo -entre convictos e outros até como prevenção - que está a reiniciar oprocesso, fora de prazo a idealizar a «salvação» no sentido manter ou recompôr o «grupo» dos ainda Poderes centrais no sistema-mundo. É o regresso ao princípio?Que não se importa de retomar caminhos expansionistas, promover a guerra entre terceiros e depois ganhar com ela? No caso:1.º, Mesmo após o terminus do Sistema Socialista mundial, não é querer obter uma desforra histórica, e colocar como inimigo o suporte decisivo do combate ao nazismo, colocando como inimigo principal um dos Estados vencedores da 2.ª guerra mundial? ; 2.º, Não é estar convicto que o maior Poder Militar do planeta, mais uma vez - a 3.ª,- começa por se manter fora dosconflitos regionais, para, no final, derrotar as autocracias promotoras do Liberalismo económico inter-nações, paramanter como dominante o pluralismo Liberal formal das democracias no plano político (5)?3.º, Entre o Poder num Estado da União Europeia como Portugal; e ochamado «Estado Comunista» como Angola, não é mais do que coincidência haver o «milagre» de via legalidade, tanto Portugal como a República Popular de Angola em 1981 (esta a se guiarpor legislação nova, ainda reduzindo as leis do passado «a zero»), impõem por conveniência o júris sanguinis? E na sequência…9 anos depois, aparecerem em Angola um número nada pequeno de antigos proprietários, portugueses em grande parte, a iniciarem um processo de recuperação de propriedades viaPoder Judicial, contra indemnizarquem «toma conta da casa», quer dizer, quem ocupa as propriedades pos-Agosto de 1975? Pelas mesmas razões, mas em sentido oposto, T. Piketty defende a recomposição de um pilar socialista e do pilar redistributivo da Esquerda. Tais pilares, segundo ele, enfraquecem-se no pos-URSS,e devem voltar a ser fortes para que a democracia funcione nacional e transnacionalmente.Michael J. Sandel não diminui talnecessidade mas defende que mais do que a questão da identidade e do comércio, é preciso controlar os «efeitos danosos dos fluxos desregulados de capitais» e, na economia, «a financialização». Desse modo, coloca a identidade noutro patamar: aceita a questão da perda de emprego e estagnação salarial mas fala da identidade construída num patamar acima das políticas de fronteira e de imigração. Dizendo respeito a outras dimensões como dignidade e reconhecimento. O que implica não reduzir a questão a deixar de ter emprego e à estagnação salarial. Ou seja, atinge os cidadãos que passam, segundo parece, a sentir por parte do resto da sociedade o não serem respeitados, assim como a sensação de serem marginalizadose não serem reconhecidos (6).

Mas a questão é mais complexa. AEsquerda já como expectroideológico, impõe-se històricamente na defesa: (a) daigualdade social e de oportunidades; (b) das classes econòmicamente explorados; e (c) da intervenção do Estado para reduzir desigualdades e prestar serviços básicos a toda a população – com ou sem apoio considerável. Do outro lado do expectro, está ao longo dos últimos 250 anos o grosso das Elites do Estado moderno e da produção capitalista onde há maior crescimento económico, conectadas com a Direita tradicional. Nos últimos 5 decénios, em particular no segundo lustro dos anos 60 do século XX, a sobrevivência do Estado-social e/ou do Estado-nação passa a estar em risco crescentemente. Porquê? O que acontece? Pos-revoltas de futuras elites do mundo, Esquerda e Direita tradicionais desmantelam-se com maior ou menor rapidezem grande parte dos territórios de maior crescimento económico. E dão lugar, antes do mais, a um neo-Liberalismo que, apesar de tudo, ainda sustem o Estado socialem territórios de maior crescimento económico, ao mesmo tempo que o próprio Estado-nação «abana» em territórios de estruturas frágeis e zonas demenor crescimento. Como na África ao sul do Sahara. Dá até para lembrar em França o elogio, até via aspectos pessoais, de Didier Barbelivien a Jean Ferrat, a simbolizar cristianismo e comunismo respectivamente, em música e letras. Ao lembrar que «Potemkine e Maria» - marinheiros russos do navio da revolta e a Maria de que fala Georges Brassens em «La prière» em 1965,…morrem…«de pé e com elegância» face ao futuro próximo.Se se pode partir da acção políticaantes do mais estudantil de 1968, e prosseguir nos últimos três decénios de globalizaçãoeconómica após o final do Pacto de Varsóvia e do Sistema Socialista mundial, também dá para verificar que aquela alteração – a da fase na aparência moribunda da Esquerda e da Direita tradicionais- , vai no sentido do relevar a ideia de Hanna Arendt contra o totalitarismo e os «extremismos»de Direita e Esquerda. Com esse modus operandi, algo se altera nas forças de protesto face ao Poder. As forças de Esquerda que apelam à alteração das relações sociais de produção e troca amainam o discurso. Tal permite que na questão económica, a liberalização da Direita social edemocrática passa a implicar nova fase na decadência do Estado social. E, ao mesmo tempo, aparece gente da periferia do sistema, a se definir como anti-sistema de forma agressiva quanto mais é adepta do sistema liberal económico e, como Direita radical, mais secundariza a democracia (7). Não é mesmo? Sandel busca exemplos para o justificar no plano da dignidade: (a) as pessoas mais velhas que não gostam dos de Boston e afirmam que «nós no Iowa sabemos ler» e «não gostamos muito de pessoas do litoral». Em Portugal não acontece o mesmo? Em seis anos, com apoio subjectivo e concertado da Comunicação Social e de parte das elites do próprio Poder, o protesto «explode» via extrema-direitaverbal, reduzindo a Esquerda quase a zero (8)! Como é possível?  

Piketty e Sandell discutem igualdade: (a) económica face à distribuição de riqueza e rendimento; (b) política sobre ter ou não voz, poder e participação;e (c) como reconhecimento, dignidade, estatuto e estima.Michel Sandel ainda releva melhor a sua posição definindo a última dimensão como «a mais potente em termos políticos» e talvez «morais». E mostra-se esperançado em haver mais igualdade através da criação de condições no plano da honra, do reconhecimento, da dignidade e do respeito. T. Piketty acha «muito razoável», ao ser perguntado sobre esse «palpite» mas, a seguir, retoma o discurso do socialismo democrático nos EUA com Bennie Sanders e mais jovens, «talvez por candidatos menos brancos». Mais interessante ainda, é confrontado por Sandel que vai buscar ao tema central - a origem da desigualdade - ao século XVIII, ao romantismo e a uma das fontes ideológicas da Revolução Francesa: Jean-Jacques Rosseau. Ambos convergem em que a origem da desigualdade está na invenção da propriedade. Afinal a mesma história da velha que busca madeira na floresta e, a partir de certo dia, ao lá chegar, está um sujeito a afirmar que aquilo é dele. Daí a só ter acesso àmadeira se aumentar a despesa quotidiana por ter de dar algo em troca ou ser obrigada a pagar oque a natureza lhe dá ao longo deanos…pode gerar uma revolução. Para J.J. Rousseau o primeiro homem que cerca um terreno e afirma «isto é meu» funda a chamada «sociedade civil». Ecompleta a ideia ao colocar como acaso o facto do rol de horrores, crimes, guerras, assassínios, desgraças, ao longo da história, poder ter sido poupado casoalguém à altura tivesse dito que a terra não pertence a ninguém e os frutos da terra pertencem igualmente a todos. E acrescenta mais um aspecto essencial: fala na etapa que leva à reunião em grupo de habitantes de um lugar, onde cada um pode concorrer e competir – quem melhor dança, melhor canta, quem é mais forte eapreciado fisicamente, eloquente,mais respeitado - , gerandoreconhecimento, estima e honra.Isso, diz, «foi o primeiro passo para a desigualdade». Mas para Piketty, não é a propriedade adquirida, a vedação de terrenos e a propriedade adquirida que é problema. Para ele, é «a concentração incrível de propriedade em poucas mãos» que segue essa «concentração de Poder». E fala numa das maiores demonstrações políticas disso, queé o papel actual desempenhado por Donald Trump e Elon Musk. Estes, em meses, como manifestação de força,revolucionária digo eu, anti-legal e de comportamento arrogante, face à impotência, aceitação objectivae ideias dos seus adversáriospolíticos nos EUA, aumentam a sua riqueza. Segundo parece Trump desde a eleição já tem mais 800 milhões ganhos na ligação entre o seu Poder político e a fortuna pessoal. É o sistema a funcionar ou é corrupção? Aqui há nova questão. Segundo alguns,não há antagonismo da parte de quem apoia Trump por derrubar «ditaduras» e silencia a natureza do Poder económico-financeiro a partir de uma Presidência de um Estado como acontece nos EUA. Isto é muito grave…pois significa aceitar a corrupção só para os que nela são mais competentes. Seja via acções na Bôlsa, esboços de conquista imperial de regiões ligadas à riqueza económica potencial, contrapartidas em negócios iniciados via taxações desmedidas. Para Picketty, tudo assegura que o problema em si mesmo: 1. não é propriedade privada e dinheiro mas éacumulação ilimitada de propriedade via meios lícitos eilícitos por várias formas; e 2. é um não diálogo e é força política em questões que implicam finanças. Como igualdade edesigualdade, ou riqueza erendimento, por um lado; e como Poder, reconhecimento, voz edignidade que abordam política,economia e filosofia, por outro lado. Na etapa que vivemos, está a haver gente de todos os níveis que amesquinha a ideologia erecusa a utopia como perspectivapolítica; ou tem acções acessórias na defesa de menor desigualdadepor parte de quem governa. É por isso que a realidade – a da anunciada decadência «ocidental»- , mostra que, face à «nova era»,se está à beira de outra afirmação de J. J. Rousseau? A de que «a civilização gera certo tipo de corrupção»? Há interrogações similares, face à realidade, incluindo a militar, emdemocracia, autocracia ou ditadura? E os cidadãos olhampara aspectos como dignidade, honra, reconhecimento e emprego? Não! Evidente é que entre decadências e emergênciasregionais - o boom da China, Vietnam, Coreia do Sul ou Japão - o mundo mostra a força das empresas e o seu modo de imposição no crescimento económico de modo global; tal como mostra a grande diferença entre a força de produção sectorial para o mercado global, ao criardesigualdades nacionais enormes;e a produção menos desigual e mais preocupada com a economia de um só território e da sua comunidade de origem. Mas…é ou não no domínio das trocas internacionais que se impõe um meio para gerar novos modos de produção pos-feudais e tributáriosnos Estados? Estes, de modo desigual, resistem às dinâmicas,de modo determinante aeconómica, e reagem entre si, à procura de se manterem e/ou se consolidarem. Daí a pergunta: oque leva os cidadãos a reagir comlegítimidade (colectiva, particular,individual) é modo de combate ao modus operandi capitalista? Ou é tentativa de adaptação a novos tipos de Poder de grandes intermediários e da Finança - interna a cada Estado ou transnacional - em todos os patamares de acção? Mais de 175 anos depois do surgimento do comunismo e da ideia do internacionalismo proletário como resposta dos apoiantes da força de trabalho ao modo de produção e troca capitalista – como uma Esquerda-mundo; os centros de Poder mais sólidos, regressam àfase de utilização da sua força político-militar a fim de apoiar o ainda centro do forte internacionalismo capitalista –como Direita-mundo. Está-se a voltar à época em que umindividuo que assina cheques sem cobertura e faz riqueza ilimitada, «faz pela vida» e peripécias volvidas, deixa como herança umafortuna empregue caridosamente em alta Ciência e Tecnologia?Neste texto, em que se fala de igualdade, a tendência latente é lembrar e abordar a questão da Liberdade individual e de grupo, que não só pode gerar muita desigualdade, como pode levarelites e seus meios sociais a ter a ideia – já vivida! -- de que, em relação ao resto dos humanos,eles são superiores intelectual e fìsicamente. Tal não é o caminho da dignidade, do reconhecimento, e da moralidade que deve exigir políticas de igualdade logo à nascença até à idade adulta em educação, saúde e habitação!Particular, colectiva e pessoal! É possível que alguma Direita não entenda ser preciso haver inimigosa combater? Os cidadãos do mundo e de um Estado, mais do que serem contra alguém em particular, devem priorizar - sem negar verdades conjunturais acessórias mas mostrandoresultados de uma política que esconde a sua própria verdade estrutural, até via liberdade de expressão, à moda de «O Bem Amado» - uma luta cerrada, via compromissos sérios, contra a pobreza, o autoritarismo, a desonestidade e a corrupção como principais inimigos. 2025, 31Janeiro 2025.

NOTAS

(1) Em Portugal há uma Revolução democrática onde chega a haver cinco partidos comunistas, um Partido Socialista e um Partido Social-democrata, aceitando a «transição para o socialismo» e 50 anos depois reconhecer-se que o principal contraponto político é disputado por dois «marxistas ocidentais», um que morre a lamentar a «tragédia da descolonização» e outro a se transformar num símbolo de dependência face ao liberalismo deBruxelas e Strasburgo.

(2) Thomas Picketty é o homem do «Capital do século XXI» e Mikhael J. Sandel é professor de Gpvernament na Universidade de Harvard.

(3) Não só no plano europeu, tal característica pode ser vista pela reacção da agricultura e do Governo de França ao Acordo União Europeia-Mercosul.

(4) No caso português, com os Partidos acontece o mesmo. A Direita em Portugal anda há anos a falar dos mesmos casos e das mesmas pessoas quando é a sua sensibilidade política que tem como lema o que acusa a Esquerda de ser: o sistema. Vão aos sítios certos e vejam o que lá está escrito sobre corrupção. Material e imaterial. Acresce que - mentalidade com muita força renovada na Presidência de 2015-25 - à alta percepção da micro-corrupção geral, nestes tempos, quando um Socialista, Esquerdista ou Comunista aceita o «jogo», via escutas telefónicas revela indícios de malfeitorias, é proscrito, acusado pùblicamente, posto de lado ou por ser altamente corrupto, por ser sexualmente desviante, ou por trair a sua ideologia, contrária ao status quo. Tudo advêm da antiga perspectivaque defende que um comunista não pode ser rico, afinal colocando o defensor da ideologia de Marx no plano do cristão que recusa ter posses (há 50 anos atrás não poucos progressistas e o «mundo comunista» vangloriam-se de que «não tenho nem nunca tive posses»).

(5)  No caso de Angola, em 1975 - na perspectiva do centro do sistema-mundo - o Estado nacionalista revolucionário, apropria-se de tudo o que há para se apropriar. Na esmagadora maioria dos casos, unidades de produção e troca abandonadas, de percentagem de trocas de propriedades que vários militantes do leninismo oficial negoceiam a seguir - levando a maioria das vezes ao abandono da terra – a venda das propriedades e unidades de produção. Exemplo paradigmático? O problema do, à altura, segundo maior farmacêutico de Angola – possuidor de seis bem fornecidas farmácias, uma no «Luso», uma no Golungo Alto e quatro em Luanda. Ainda por cima confundindo o proprietário, por ter o mesmo apelido, e nada ter a ver com quem dirige a Junta Autónoma de Estradas de Angola no começo dos anos 60. Este torna-se motivo de repulsa por causa, para queixosos, angolenses na maioria, de débeis indemnizações ligadas às vias de comunicação-terra como em regiões periféricas de várias localidades.

(6) Nesse plano, T. Piketty e M. J. Sandel partem de permissasdiferentes, mas acabam por confluir nas diferenças sobre o que é identidade como expressão no sentido de origem étnica, religião, côr da pele num só espaço social; e o que é identidade no âmbitointernacional global, desemprego multi-étnico, multi-religioso e multirracial, como Reconhecimento e Dignidade de um bloco social culturalmente plural! Piketty e Sandel ainda buscam um outro patamar, acordando o que consideramforma de identidade diferente: ofacto de haver quem seja estigmatizado por ter automóvel.Ambos concordam que a base social de apoio de Donald Trumpnos EUA tem esse tipo de identidade: é contra as elites. Aí, ambos concordam serem as elites académicas e económicas as responsáveis por esse anti-elitismo ter passado a apoiar Trump. A propósito, em Portugal e em Angola, há esboços que pretendem imitar tal anti-elitismo, seja no sentido do anti-socialismo, das elites dos 50 anos passados, ou contra «os políticos» do Poder.

(7) No processo de transição para o capitalismo, há fases de crescimento ou regressão em que se renova a coesão social. Como? Via autoritarismo. Nos dias que correm, estão a voltar tempos de luta e alteração das relações sociais em alternativa à maior pressão política com vista à reprodução alargada do status quo.  

(8) O que começa por ser diferença física entre radicais à Esquerda e moderados à Direita numa Assembleia Legislativa, chega muitos lustros depois a uma pluralidade de Esquerdas versus uma cada vez mais diminuta forma de conservação de Poder à Direita. Dois exemplos: 1. Um actual: com as mesmas balizas como referência, veja-se a emergir uma aliança, sob aparente liderança urbana jovem articulada a reformados e à terceira idade, em manifestações de milhares em Sofia na Bulgária contra a corrupção; 2. Outro mais antigo e mais complexo: em Angola desde meados do século XIX, as elites - na maioria filhos do país - são pela autonomia, pela «ideia», pela dignidade e pelo reconhecimento, parte pela identidade. Após o modo como se faz a penetração da produção assalariada - o «trabalho forçado» - com incentivos do próprio Poder imperial (Filomeno da Câmara, António Vicente Ferreira, etc.), via «Novos ideais se alevantam», o sentido passa a ser; (a) o da autonomia de antigos filhos do país; (b) o da autodeterminação de quem lidera a Economia; e a seguir (c) o da independência tanto via Economia como via Administração. E o que se passa a discutir é antes do maiso tipo de independência.