Nos últimos cinco anos, a APAV apoiou 4.804 mães e pais vítimas de violência perpetrada pelos filhos, num universo de 9.609 crimes e formas de violência identificadas entre 2021 e 2025. Os dados, divulgados esta sexta-feira, 15 de maio, mostram um aumento de 39,6% no número de vítimas apoiadas ao longo deste período, evidenciando uma tendência preocupante.
Segundo a associação, a violência doméstica representa a tipologia predominante, correspondendo a 83,1% das situações reportadas. O fenómeno assume contornos particularmente delicados porque ocorre no seio familiar, onde os laços afetivos coexistem com dependências emocionais, económicas e psicológicas.
A esmagadora maioria das vítimas é do sexo feminino: 79,4% são mães, sendo que quase seis em cada dez têm 65 ou mais anos de idade. Muitos destes casos envolvem idosos em situação de vulnerabilidade física, emocional ou económica, tornando-os ainda mais expostos à agressão continuada.
Do lado dos agressores, os dados apontam maioritariamente para filhos do sexo masculino (69,5%), sobretudo entre os 25 e os 54 anos, faixa etária que representa 45,5% dos casos. Em 96,8% das situações, a violência foi exercida por um único filho, enquanto 3,2% das vítimas sofreram agressões por parte de dois ou mais descendentes.
Um dos aspetos mais alarmantes prende-se com a persistência do sofrimento antes da procura de ajuda. Em 33,5% dos casos, passaram entre dois e sete anos até que as vítimas recorressem à APAV. Mais preocupante ainda é o facto de quase metade das vítimas (47,7%) nunca ter apresentado queixa ou denúncia às autoridades.
Para especialistas na área da violência familiar, esta resistência em denunciar está frequentemente associada a sentimentos profundos de culpa parental, medo de represálias, vergonha social e esperança de mudança do comportamento do filho. Muitas mães e pais continuam a acreditar que conseguem resolver a situação sozinhos ou receiam ser julgados pela sociedade.
“Estamos perante uma violência profundamente invisibilizada”, alerta a APAV, sublinhando que este tipo de agressão continua marcado pelo isolamento emocional das vítimas. A organização reforça a necessidade de maior reconhecimento institucional e social do problema, assim como da criação de respostas especializadas de apoio psicológico, jurídico e social.
Geograficamente, os distritos com maior incidência de casos foram Lisboa (18,7%), Porto (15,6%), Faro (15,1%), Braga (13,8%) e Setúbal (9,1%), refletindo também áreas de maior densidade populacional, embora especialistas alertem para a possibilidade de subnotificação noutras regiões do país.
A violência filial, frequentemente designada por violência ascendente, não é um fenómeno exclusivamente português. Estudos internacionais têm vindo a alertar para o crescimento deste tipo de agressão, particularmente em contextos marcados por problemas de saúde mental, dependências, desemprego, conflitos familiares prolongados ou dificuldades na gestão emocional e comportamental.
A APAV recorda que disponibiliza apoio gratuito, confidencial e especializado às vítimas, incluindo acompanhamento jurídico, psicológico e social, apelando à quebra do silêncio. Porque, por vezes, o medo dentro de casa tem o rosto de quem um dia se segurou ao colo.
“A violência nunca é um ato de força; é um abuso de vulnerabilidade.” – inspirado no pensamento de Viktor Frankl
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