"Cheguei ao Brasil já bastante fragilizado. Uma broncopneumonia severa, associada a uma infeção renal, obrigou-me a sair diretamente de um casamento de família para uma unidade hospitalar de bairro, na periferia de Campinas"

Não era um hospital de referência, não era um centro “de excelência” mediática. Era, simplesmente, um hospital público de proximidade.

Fiquei internado três dias. Três dias que me obrigaram a repensar muita coisa sobre o que significa, afinal, fazer saúde.

Naquela unidade, médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares trabalharam como uma verdadeira equipa. Não havia arrogância, não havia distância social, não havia a obsessão pelo estatuto. Havia cuidado. Havia presença. Havia humanidade. O ambiente era saudável — emocional e clinicamente. Pessoas pobres, de um bairro pobre, eram tratadas com respeito, atenção e dignidade. Como pessoas. Como cidadãos.

Havia ali uma jornalista, uma senhora com uma patologia grave, famílias inteiras fragilizadas pela doença e pela vida. E, ainda assim, o que se sentia era algo raro: esperança. As pessoas saíam dali melhores, mais confiantes, mais animadas. Não apenas porque o tratamento funcionava, mas porque o modo como eram cuidadas devolvia algo essencial — o sentimento de valor humano.

Confesso: se fosse médico ou enfermeiro em Portugal, teria vergonha. Vergonha de ver que, numa periferia brasileira, um hospital público consegue oferecer aquilo que tantos serviços do chamado “primeiro mundo” parecem ter desaprendido.

Em Portugal, o sistema de saúde está perigosamente contaminado por elitismo, raiva institucional e uma lógica de títulos e hierarquias que mata o essencial. Muitos profissionais confundem saúde com prescrição, cuidado com poder, e medicina com venda de medicamentos. Falta trabalho em equipa. Falta integração. Falta humanidade. O resultado é simples e trágico: não se faz saúde, vende-se remédio.

O que vivi no Brasil foi o oposto. Foi a prova viva de que saúde não se constrói apenas com tecnologia ou estatuto, mas com ética, relação e sentido de missão. Um sistema público só é verdadeiramente público quando serve, cuida e respeita — independentemente do bairro, da conta bancária ou do título académico.

Talvez seja tempo de Portugal aprender com a periferia. Porque, às vezes, é longe dos centros de poder que a dignidade ainda sabe curar.

“O contrário do cuidado não é a negligência. É a indiferença.”
Elisabeth Kübler-Ross

Referências e contexto