Exemplo disso foi o programa noturno "Passageiro da noite", um dos pioneiros na interação direta, em que Cândido Mota cedia o seu espaço para os ouvintes falarem sobre o que lhes apetecesse.
Filho da fadista Maria Albertina, cresceu num ambiente ligado à música e à palavra, tendo assumido, numa entrevista ao programa de Manuel Luís Goucha, em 2022, que fora a sua mãe quem o lançara na vida profissional.
Iniciou‑se profissionalmente na rádio aos 17 anos, no Rádio Clube Português, mostrando-se um locutor de talento distintivo, reconhecimento que se consolidou na Rádio Comercial, com programas como "Em Órbita", "Dançatlântico" e, sobretudo, "O Passageiro da Noite", que viria a ser considerado um marco da rádio portuguesa.
Emitido a partir de 1979, "O Passageiro da Noite" abriu a antena aos ouvintes a partir da meia-noite, tornando‑se uma das primeiras experiências interativas da rádio em Portugal.
Décadas mais tarde, ao revisitar o fim do programa, depois de dois anos no ar, Cândido Mota assumiria que "foi a única vez" em que não esteve bem, numa alusão ao desgaste emocional que levou ao fim da emissão, assumindo a sua responsabilidade.
A partir da década de 1990, Cândido Mota foi um rosto e uma voz da televisão, ao iniciar uma colaboração duradoura com Herman José.
Foi a emblemática voz‑off de concursos como "A Roda da Sorte" e "Com a Verdade Me Enganas", na RTP,
Enquanto figura histórica da rádio, foi convidado a partilhar o seu testemunho no programa da RTP "No Ar, História da Rádio em Portugal", transmitido em 2010, no qual falou do seu percurso e da conceção da rádio como espaço de intimidade, escuta e participação cívica.
Cândido Mota foi militante do Partido Comunista Português e presença regular como locutor e apresentador no Palco 25 de Abril da Festa do Avante!, mantendo ao longo da sua vida pública uma postura política.
António José Seguro assinala também que, em todas as etapas do seu percurso, Cândido Mota "combinou, de forma singular, uma genuína preocupação pelo outro com o humor"
O Presidente da República, António José Seguro, lamentou este domingo a morte do antigo locutor de rádio Cândido Mota e considerou que a sua voz ficará na memória coletiva dos portugueses.
Numa nota publicada na página da Presidência na internet, o chefe de Estado apresenta as "mais sentidas condolências à família, amigos e a todos os que com ele partilharam vida e caminho".
"Ao longo da sua vida, Cândido Mota foi redescobrindo a sua profissão de locutor, apresentador e ator, reinventando caminhos para si próprio, com entusiasmo e sentido de propósito", refere.
"A sua voz inconfundível acompanhou-nos durante muitos anos e permanecerá na nossa memória coletiva", acrescenta.
António José Seguro assinala também que, em todas as etapas do seu percurso, Cândido Mota "combinou, de forma singular, uma genuína preocupação pelo outro com o humor, deixando uma marca de proximidade e humanismo em todos aqueles com quem trabalhou e conviveu, destacando-se pela forma como, no "Passageiro da Noite", dava voz a quem não a tinha".
O antigo locutor de rádio Cândido Mota morreu este domingo de madrugada, aos 82 anos, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde estava internado, disse à Lusa fonte familiar.