Um património invisível que sustenta a vida

Portugal alberga uma riqueza biológica frequentemente ignorada no debate público, mas absolutamente essencial à vida: mais de 745 espécies de abelhas, cerca de 2.800 espécies de borboletas — entre diurnas e noturnas — e centenas de outros insetos polinizadores que asseguram a reprodução de plantas e o equilíbrio dos ecossistemas.

Num contexto global marcado pelo declínio alarmante destes organismos, o Governo português aprovou recentemente um plano nacional para a conservação e sustentabilidade dos insetos polinizadores, financiado pelo Fundo Ambiental. A iniciativa surge como resposta a uma evidência científica clara: sem polinizadores, não há biodiversidade funcional, nem segurança alimentar.

Segundo o Ministério do Ambiente e Energia, o território nacional apresenta uma elevada densidade e diversidade de polinizadores, incluindo 746 espécies de abelhas, 148 espécies de borboletas diurnas, mais de 2.600 espécies de borboletas noturnas e 221 espécies de sirfídeos, também conhecidos como moscas-das-flores.

O papel estratégico dos polinizadores na economia e no ambiente




A relevância destes insetos ultrapassa largamente o campo da ecologia. Estima-se que cerca de 75% das culturas agrícolas globais dependam, em algum grau, da polinização animal — um serviço ecossistémico avaliado em centenas de milhares de milhões de euros por ano, segundo dados da Food and Agriculture Organization.

Em Portugal, culturas como a amendoeira, a macieira ou diversas hortícolas dependem diretamente da ação das abelhas e de outros polinizadores. Para além disso, estes organismos desempenham um papel crucial na regeneração natural das florestas, contribuindo para a resiliência dos territórios face às alterações climáticas e aos incêndios.

João Casaca, da Federação Nacional de Apicultores de Portugal, sublinha a importância do plano agora aprovado, classificando-o como uma mais-valia para o setor. No entanto, deixa um alerta implícito: mais do que aprovar estratégias, é fundamental garantir a sua implementação efetiva no terreno.

A ameaça silenciosa: pesticidas, alterações climáticas e perda de habitat




A necessidade deste plano não surge por acaso. Nas últimas décadas, estudos científicos têm vindo a alertar para o declínio acentuado das populações de polinizadores, impulsionado por fatores como o uso intensivo de pesticidas, a destruição de habitats naturais, a agricultura intensiva e as alterações climáticas.

O fenómeno conhecido como “colony collapse disorder” — o desaparecimento súbito de colónias de abelhas — tornou-se um símbolo global desta crise ecológica.

De acordo com relatórios da Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services, cerca de um milhão de espécies estão atualmente em risco de extinção, muitas delas essenciais para o funcionamento dos ecossistemas.

A perda de polinizadores não é apenas uma questão ambiental. É uma ameaça direta à produção alimentar, à estabilidade económica e, em última análise, à sobrevivência humana.

Um compromisso que exige ação coletiva

O plano aprovado pelo Governo português representa um passo relevante, mas não suficiente por si só. A proteção dos polinizadores exige uma abordagem integrada, envolvendo agricultores, decisores políticos, cientistas e cidadãos.

Promover práticas agrícolas sustentáveis, reduzir o uso de pesticidas, preservar habitats naturais e sensibilizar a sociedade são ações fundamentais para inverter a tendência atual.

Como recordava o biólogo Edward O. Wilson, “a biodiversidade é a infraestrutura invisível que sustenta a civilização”. Ignorá-la é comprometer o futuro.

Num tempo em que os grandes desafios globais exigem respostas coletivas, a defesa dos polinizadores é também um ato de responsabilidade intergeracional.

 

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