Em Braga, na abertura do 15.º Congresso Nacional da Misericórdias, Seguro disse que Portugal "deve dar uma resposta melhor do que tem sido dada" e avisou que não deixará de lembrar o Estado que tem de cumprir as suas obrigações.
"Manuel Lemos [presidente da União das Misericórdias] chama-lhe tsunami social, eu tenho utilizado a imagem da bomba-relógio,mas ambos chamamos a atenção para os efeitos dramáticos das alterações demográficas no nosso país e para o aumento da pressão do envelhecimento sobre os setores da saúde e da segurança social, duas áreas em que já vivemos situações críticas", afirmou Seguro .
Segundo ele as misericórdias, mesmo com dificuldades crescentes, têm estado a ajudar a suprir os problemas que vão surgindo, mas vincou que é ao Estado a quem cabe, em primeira instância, assegurar as respostas necessárias.
"Estas são realidades que o Estado conhece, agora e no passado recente. E é aqui que tenho de ser direto, sem dramatismos e sem ambiguidade: a solidariedade da sociedade civil não pode nunca substituir a responsabilidade primeira do Estado português", referiu.
Como exemplo, apontou o caso da resposta ao internamento social nos hospitais,que "só está a ser conseguida graças às camas disponibilizadas pelas misericórdias".
"É mais uma vez o setor social a suprir o que o Estado não tem e é uma situação que não pode ser aceite como um novo normal", vincou.
"É tempo, e já vamos tarde, para políticas estruturais que atenuem as consequências do envelhecimento populacional", completou ainda.
"Políticas que atravessem legislaturas, que não dependam de calendários eleitorais, que construam respostas para um problema que se vai agravar antes de melhorar. Os problemas mais relevantes exigem planeamento que atravesse várias legislaturas, precisam de estabilidade política e de convergência entre as principais forças políticas", defendeu.
Seguro lembrou, que, segundo a OCDE, Portugal é o terceiro país da União Europeia com menos camas para idosos em lares.
"No setor privado, sem comparticipação, uma cama custa duas vezes e meia o valor de uma reforma média. Com as mensalidades dos lares a subir entre 200 e 250 euros num ano, esta é uma conta que não bate certo com o rendimento das pessoas e é uma conta que milhares de famílias portuguesas tentam fazer todos os meses, com angústia", afirmou.
Disse ainda que o panorama das residências seniores em Portugal acrescenta "mais um dado preocupante".
"A falta de lares e o aumento do número de idosos, além da pressão sobre os preços, estão também a aumentar as listas de espera", frisou, apontando que 70% das unidades estão totalmente ocupadas e com listas de espera, sendo que em 36% dos casos o tempo de espera ultrapassa os seis meses.
A estes dados, o Presidente juntou o agravamento da questão demográfica, com o"significativo envelhecimento" da população.
"Somos dos países mais velhos da Europa e a situação vai agravar-se nas próximas décadas. Em 2050, seremos o quarto país do mundo com maior proporção de população acima dos 65 anos", alertou.
Assim, a saúde e segurança social "vão estar fortemente pressionadas".
António José Seguro disse que o "tsunami social que aí vem não se enfrenta com improvisação", mas sim de uma evolução que depende de todos, desde as misericórdias ao Estado, passando pelas famílias e pela sociedade.
"Contem com o Presidente da República como aliado nesse caminho, como uma voz que amplifica as vossas causas, que nomeia as vossas dificuldades e lembra ao Estado o cumprimento das suas obrigações", disse ainda.
Pois vejamos a evolução deste drama,
Em 1950, o Índice de Envelhecimento (relação entre idosos 65 anos e jovens <15 anos em Portugal era de aproximadamente 36,4 idosos por cada 100 jovens
Em 1960, a população portuguesa era ainda jovem.
O índice de envelhecimento (que relaciona o número de idosos por cada 100 jovens) era de apenas 27 idosos para cada 100 jovens, e os idosos representavam 8% do total da população.
Em 1970, Portugal tinha um dos índices de envelhecimento mais baixos da Europa, registando cerca de 30 a 35 idosos por cada 100 jovens.
Existiam cerca de 836 mil pessoas com 65 ou mais anos no país
Em 1980, o índice de envelhecimento em Portugal era de 44,9 idosos (65 ou mais anos) para cada 100 jovens (dos 0 aos 14 anos
Em 1991, Portugal registava um índice de envelhecimento de 72,1 idosos (65 ou mais anos) por cada 100 jovens (0 aos 14 anos).
Em 2000, o Índice de Envelhecimento em Portugal situava-se em 100,6 idosos por cada 100 jovens (cerca de 103 na altura dos Censos 2001
Em 2010, Portugal registou um índice de envelhecimento de 118 idosos por cada 100 jovens.
Tal significa que havia mais pessoas com 65 ou mais anos do que crianças e jovens dos 0 aos 14 anos
Em 2020, Portugal registou um Índice de Envelhecimento de 165,1%.
Por cada 100 jovens (0 aos 14 anos), o país contabilizava cerca de 165 pessoas com 65 ou mais anos de idade.
Portugal é o segundo país mais envelhecido da União Europeia, superado apenas pela Itália.
O Índice de Envelhecimento nacional situa-se em cerca de 192,4 idosospara cada 100 jovens.
A idade mediana da população residente ultrapassa os 47,2 anos, sendo que cerca de 25% da população já tem 65 ou mais anos.
A situação demográfica reflete-se a nível nacional e europeu através de estatísticas fundamentais:
E claro tal nao resulta dos baixos salários insuficientes para um sustento estavel de uma familia de 2 a 3 crianças por familia