Era uma vez um país onde o poder parecia mudar de mãos... mas não de bolsos.

Luís Montenegro, outrora embalado pela promessa dourada de substituir António Costa e devolver à Direita o que seria "naturalmente" seu, está hoje aprisionado no labirinto dos próprios passos. Não há dia que passe sem que surja uma nova polémica — a mais recente envolve um parecer jurídico generosamente remunerado, com aroma a cimento fresco, betão armado e luxos pagos sabe-se lá por quem.

Imagine-se: pareceres pagos por uma empresa de construção para defender-se da… própria Câmara de Espinho! Quem precisa de ficção política quando a realidade nos serve enredos destes?

Enquanto isso, a Iniciativa Liberal, outrora feroz contra tudo o que cheirasse a Costa ou Estado, agora prefere silenciar-se perante os tropeços do seu aliado ideológico. O deputado Blanco, conhecido pelo seu desempenho inflamado nas comissões de inquérito, agora perde-se num silêncio cúmplice — talvez porque no fundo saiba que não se morde a mão de quem poderá ajudar na dança das alianças.

O regresso dos “meninos do 25 de novembro”

Não por acaso, os cartazes e discursos voltam a lembrar com orgulho o 25 de novembro de 1975 — esse momento nebuloso da nossa História recente que alguns continuam a tratar como se fosse uma refundação democrática. Mas não nos iludamos: foi também o momento em que o “poder possível” começou a ser desenhado à medida dos que sabiam usar a gravata durante o dia… e conspirar pela calada da noite.

Como bem escreveu José Afonso, “eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada”. É esta a sensação de déjà-vu que paira hoje: o retorno de um sistema que sabe mover-se nos bastidores, manipular pareceres, controlar narrativas, e transformar a política num jogo de sombras.

Estado de Direito? Ainda cá estamos. Por pouco.

É certo que o sistema judicial português já deu mostras de vida. A prisão de Sócrates, o julgamento de políticos e empresários, e os freios institucionais que ainda impedem o total colapso ético são sinais de que o Estado de Direito, embora abalado, não morreu.

Mas é preciso dizer: a mancha está lá. A Direita, tão ávida em apontar os deslizes do PS, tem agora as mãos sujas de pó de cimento, e a memória curta quanto ao papel de um Presidente da República que, em golpe de secretaria, derrubou uma maioria absoluta eleita.

E mesmo que Montenegro venha a ganhar — feito Albuquerque II ou Cavaco reciclado — a credibilidade democrática continuará ferida. O povo português, cada vez mais cético, já não se deixa encantar por discursos de mudança. Sabe que o “novo” é muitas vezes o velho com maquilhagem.

Poder, poder... Só nas mercearias que viraram hipers.

No final, o verdadeiro poder em Portugal parece resumir-se à transformação de mercearias de bairro em hipermercados franchisados. Inovação? Empreendedorismo? Transformação digital? Isso dá trabalho, exige risco — e o capitalismo português nunca gostou de arriscar. Sempre preferiu a gestão do Estado ao estilo soviético de Brejnev: estável, previsível… e comodamente ineficaz.

Mas como ensina a História, tudo o que sobe… acaba por cair.

“Em democracia, tudo se paga. Tarde ou cedo, mas paga-se.”
— Winston Churchill

E cá estaremos, como povo resiliente, a lembrar que a Democracia é um processo — não um palco para os “donos disto tudo” com sapatilhas de marca e moral descartável. Os tempos mudam, e quem vive do poder pelo poder acabará por pagar o preço da arrogância.

 

Fontes e Referências:

  • Zeca Afonso, Eles comem tudo

  • 25 de Novembro de 1975, análise histórica:
    Museu do Aljube
    Arquivo RTP

  • Eduardo Galeano, O Livro dos Abraços

  • Winston Churchill, discursos parlamentares sobre Democracia

  • Casos mediáticos em Portugal, investigação jornalística:
    Expresso, Público, SIC Notícias