A documentarista brasileira Petra Costa acaba de alcançar um novo marco na sua trajetória internacional ao receber, esta quinta-feira, 22 de janeiro, a sua primeira nomeação aos BAFTA 2026, os prémios da Academia Britânica de Cinema e Televisão, frequentemente apelidados de “Oscar britânico”.

A distinção surge com um documentário lançado em 2025 pela Netflix, produzido em parceria com Alessandra Orofino, que mergulha numa das transformações mais profundas e controversas da sociedade brasileira contemporânea: a ascensão da religião evangélica enquanto força política organizada.

O filme traça um retrato incisivo do cruzamento entre fé, poder e estratégia mediática, dando destaque a figuras centrais como o pastor Silas Malafaia e o ex-Presidente Jair Bolsonaro, atualmente detido, contextualizando o papel destes atores na radicalização do discurso público e na erosão das instituições democráticas no Brasil.

Um dos elementos mais impactantes do documentário é a inclusão de imagens inéditas dos ataques de 8 de janeiro de 2023, quando grupos extremistas invadiram e depredaram o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, numa tentativa de golpe contra os Três Poderes. As imagens, nunca antes divulgadas, conferem ao filme uma força documental rara e um valor histórico inegável.

Esta não é a primeira vez que Petra Costa se aproxima dos grandes palcos internacionais. Em 2020, foi nomeada ao Óscar de Melhor Documentário com Democracia em Vertigem, obra que analisou o impeachment da ex-Presidente Dilma Rousseff e a instabilidade política que se lhe seguiu. Curiosamente, nesse mesmo ano, a cineasta ficou fora da corrida aos BAFTA, tornando a nomeação de 2026 ainda mais simbólica.

O Brasil marca presença reforçada nesta edição dos prémios britânicos. O filme O Agente Secreto está nomeado para Melhor Filme de Língua Não Inglesa e Melhor Argumento Original, enquanto o diretor de fotografia Adolpho Veloso concorre na categoria de Melhor Fotografia pelo filme Sonhos de Trem.

A cerimónia de entrega dos BAFTA 2026 está marcada para 22 de fevereiro, em Londres, e volta a confirmar o vigor do cinema brasileiro enquanto espaço de reflexão crítica, memória histórica e intervenção cívica.

Num tempo em que a democracia enfrenta desafios globais, a obra de Petra Costa reafirma o papel do documentário como instrumento de consciência coletiva. Como escreveu a filósofa Hannah Arendt, “contar o que aconteceu não muda o passado, mas impede que ele se repita em silêncio”.